Correio do Minho

Braga, quarta-feira

É a política, estúpido!1

Por mais cultura do treino e treino baseado na ciência

Ideias

2013-02-19 às 06h00

Jorge Cruz

No final da reunião camarária de quinta-feira passada o presidente da Câmara de Braga e o líder da oposição no executivo municipal manifestaram opiniões divergentes sobre as responsabilidades do Governo no agravamento da crise económica e social e, designadamente, no aumento dramático do desemprego.

Mesquita Machado insistiu que “já era tempo de o Governo fazer uma inversão das políticas em relação ao emprego”, enfatizando que não basta ao Primeiro-ministro dizer que “a situação vai melhorar no final do ano”. “É preciso tomar medidas” porque “cada vez há mais situações dramáticas”, advertiu o autarca. O líder da coligação “Juntos por Braga” considerou, por seu turno, que “não é sério associar a situação de desemprego às políticas seguidas por este Governo” manifestando a convicção de que “isto é o coroar de uma série de anos em que as políticas económicas foram claramente incorrectas”.

Ricardo Rio reincide na tendência maníaco-obsessiva de defender a todo o custo as políticas do actual governo, frequentemente sem pensar na irracionalidade dos argumentos que utiliza.
Mas vamos aos factos: a economia portuguesa recuou 3,2% em 2012, um valor mais negativo que o previsto pelo Governo e pela ‘troika’ de credores internacionais na sexta revisão, quando foi estimada uma queda de 3%. Os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) mostram que a contracção duplicou em relação ao 1,6% verificado no ano de 2011.

Os números oficiais agora divulgados “explicam” mais este falhanço com o facto de Portugal ter aprofundado mais do que o previsto a recessão no quarto trimestre de 2012, período em que o Produto Interno Bruto (PIB) contraiu 3,8 % face há um ano. A situação é justificada, uma vez mais, com a procura interna pressionada pela austeridade e com as exportações a desacelerarem “significativamente”. O problema maior é que a taxa de desemprego, entretanto, acelerou para novo máximo histórico de 16,9%, no quarto trimestre de 2012, prevendo-se que o seu ‘pico’ seja atingido em 2013.

Qualquer pessoa com um mínimo de sensatez considera assaz inquietante a actual situação portuguesa e, bastante pior, manifesta pouca ou nenhuma confiança no futuro. E não me estou apenas a referir a Mesquita Machado ou a outras pessoas conotadas com a oposição a este governo.

O antigo líder do PSD, por exemplo, considera que a situação de desemprego do país é “terrivelmente preocupante”, com a agravante de que “o Governo tem uma política financeira mas não tem uma política económica”. Por essa razão Marques Mendes entende que “só há um caminho”, propondo medidas idênticas às que foram implementadas na Irlanda, ou seja, uma taxa temporária de IRC mais baixa para algumas empresas, por forma a atrair “investimento estrangeiro”.

Também o prestigiado economista João Ferreira do Amaral alertou este fim-de-semana para o risco de Portugal caminhar para uma situação de bloqueio total se prosseguir com os programas que está a seguir, sem tornar a sua estrutura produtiva mais competitiva e amiga do emprego.
“Nós não podemos imaginar que estes programas vão dar resultado”, disse na palestra inaugural da conferência ‘Economia Portuguesa: Propostas com Futuro’, que decorreu na Fundação Calouste Gulbenkian, acrescentando que “vamos por uma situação de ausência de saídas, de um bloqueio total”.

“Se rapidamente nós não arrepiarmos caminho e se não começarmos a atacar o verdadeiro problema que temos, que é a discussão da estrutura produtiva, para a tornarmos mais competitiva, mas ao mesmo tempo mais amiga do emprego também, podemos ter a certeza que é a própria sobrevivência do país, que, tal como o conhecemos, pode estar em causa”, acrescentou Ferreira do Amaral.

Estas opiniões avalizadas sobrepõem-se, obviamente, a quaisquer ‘sound bytes’ produzidos para aproveitar o espaço mediático que uma qualquer conferência de imprensa proporciona. De resto, não é preciso ter um curso de economia para perceber o que está a acontecer em Portugal: com a economia doméstica bastante deprimida, as empresas defrontam-se também com acentuadas restrições de financiamento, situação que gera o encerramento de muitas delas e, consequentemente, a destruição do emprego e a queda do investimento.

E esta, infelizmente, é a realidade com que nos defrontamos diariamente no país real. No país que não vibra nem embandeira em arco com os sucessos efémeros do regresso aos mercados, antes estremece e se atemoriza com as excessivas dificuldades que lhe são diária e crescentemente colocadas por uma elite de governantes cada dia mais distantes do povo que os elegeu.

Os recentes festejos pelo aparente sucesso do regresso aos mercados eram perfeitamente injustificados e exagerados. E a demonstração inequívoca de que não há motivos para folguedos são os dados oficiais agora divulgados sobre o recuo do PIB e sobre o aumento do desemprego. Uma vez mais a matemática atormenta os políticos e a política, o que parece provar que existe um conflito insanável entre ambos.

Talvez seja chegada a hora, como afirmou Luís Marques Mendes a propósito das novas regras de facturação, de “o governo governar, não andar a divertir”. O que, digo eu, passará pela adopção de novas políticas, que contribuam efectivamente para melhorar o desempenho da economia, gerando emprego e criando riqueza. Ou, como expôs António José Seguro na carta agora enviada aos líderes das três instituições que formam a troika, por “uma estratégia credível de consolidação das contas públicas, dando prioridade ao crescimento económico e à criação de emprego”.


1) variação da palavra de ordem usada há cerca de 20 anos na campanha de Bill Clinton

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