Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Duas vias no mercado de trabalho

O que nos distingue

Ideias

2014-02-14 às 06h00

Margarida Proença

O desemprego tem vindo a baixar, o que é sem dúvida uma boa notícia, ainda que se mantenha a um nível elevado em Portugal. A figura 1 mostra a variação no desemprego registado por regiões, entre dezembro de 2013 e dezembro de 2012; na região Norte, o desemprego diminuiu 1,3% e as ofertas de emprego aumentaram 58%. No entanto, é certo também que muitos, na prática, desistiram já, por variadas razões, e não revelam a sua situação face ao mercado de trabalho, e outros optaram por procurar emprego fora de Portugal.
Sinais positivos de qualquer forma , mas ainda um tanto tímidos digamos assim. Na indústria, e apenas como exemplos, o desemprego caiu 18,8% na indústria têxtil, 16% no vestuário, 21,5% na fabricação de automóveis (sempre entre dezembro de 2013 e dezembro de 2012). No entanto, o índice de emprego no setor da construção diminuiu ainda em dezembro de 2013 (11,5%), embora menos que no mês anterior; no caso dos serviços, diminuiu igualmente (2,4%). Resumindo, sinais positivos
Sabemos menos da evolução salarial, embora sem grandes riscos se possa afirmar que os novos contratos de trabalham remetem para níveis salariais mais baixos. Será que os salários praticados em Portugal eram muito, demasiado elevados, e que um aumento de competitividade e logo o reforço da capacidade exportadora passa pela descida dos salários?
As exportações portuguesas têm mantido um comportamento positivo; Relativamente ao conjunto de 2013, aumentaram 4,6%, e se compararmos dezembro de 2013 com dezembro de 2102 cresceram 8%. Boas notícias também, de novo misturadas com um abrandamento face ao que se verificou em 2012, e em dezembro face ao mês anterior. Este comportamento na globalidade positivo deve-se a diminuição dos salários, a um acréscimo da produtividade, a uma melhoria na qualidade percecionada pelos clientes, a uma maior diferenciação dos produtos, a estratégias melhor definidas, a melhorias tecnológicas? A resposta a esta questão é fundamental, já que a competitividade baseada fundamentalmente na quebra salarial é insustentável no quadro globalizado em que vivemos; a esse nível, nunca seremos mais competitivos que a China ou a Índia, por exemplo. De resto, alguns trabalhos recentes mostram que os salários reais na indústria aumentaram menos que a produtividade - e isso sim são boas notícias . Significa que o impacto da maior qualificação dos recursos humanos está a resultar, significa também que existe margem para que se possam oferecer novos, mais empregos.
A ultima tranche da troika, recebida mesmo por estes dias, vem novamente com a recomendação de uma exigência de flexibilizar o mercado de trabalho. Mas de facto, não é necessário, porque em Portugal ele é flexível na medida em que está muito segmentado. Os novos empregos criados, normalmente com contratos a prazo, apresentam salários, em média, inferiores aos já existentes, para trabalhadores com relações contratuais permanentes. Como se fossem dois mundos. Estes novos trabalhadores tenderão a manter relações contratuais instáveis e a manter também níveis salariais mais baixos ao longo da sua vida profissional. Isto está estudado, e não se verifica apenas em Portugal, como mostra um estudo da OCDE de 2012; quanto maior a proteção dada ao emprego maior será a probabilidade de ocorrer. E justifica também que os empregadores tenderão a oferecer menos empregos do que poderiam (e deveriam fazer para aumentar os lucros). Logo, a taxa de desemprego vai evoluindo muito lentamente, e os potenciais novos trabalhadores tornam-se também mais resistentes a aceitarem as ofertas porque os salários são mais baixos e a incerteza mais elevada do que gostariam, e portanto optam muitas vezes por se manterem fora do mercado ou emigrarem. Complicado.

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