Correio do Minho

Braga,

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Duas notas

O problema do vira-lata!

Ideias

2013-02-27 às 06h00

Isabel Estrada Carvalhais Isabel Estrada Carvalhais

Primeira nota: a notícia é breve, já tem vários dias, e pouco diz. Mas quero adivinhar-lhe substância. Talvez pelo facto do senhor Felisberto Varela - assim se chama o idoso de 80 anos feitos no dia 14 de Fevereiro - ser um trasmontano como o meu Pai. Talvez por uma qualquer outra razão de timbre sentimental que não sei agora identificar.

O que o senhor Varela faz, a ser como se conta, parece coisa pouca, mas é na verdade notável: resolveu disponibilizar as suas terras a quem as queira explorar para pequenas hortas de consumo doméstico. Não interessa saber se aparecem muitos ou poucos candidatos; se inspirados quem sabe pelas recentes ideias do Ministro Relvas sobre a agricultura como aposta estratégica da política de juventude. Não interessa. Interessa sim esta partilha sem renúncia do que é seu.

Não dá a terra, mas também a não abandona como quase sempre acontece quando esta fica refém do silêncio da enxada que já não se levanta nem cai. Não se fica pelo conforto de uma inacção respaldada pelo raciocínio fácil que seria o de pensar que aquilo que é seu, é seu, e que permitir que outros lhe entrassem terra adentro seria meio caminho andado para se apossarem dela. Mas meio caminho andado não deve ser coisa que apoquente quem já fez muito caminho, como este homem de oitenta anos que assim afirma o seu modo de ser cidadão solidário e construtivo. Mesmo que sejam vários os olhares tentados a interpretar o seu gesto como ingénuo, insuficiente, ou inquinado.

Segunda nota: este é um tempo fantástico para se estar atento a novos-velhos fenómenos de participação política e de expressão cívica. No que à primeira vista pode apenas parecer um revivalismo de formas de manifestação situadas em outros espaços-tempos da nossa história recente, estão formas não convencionais de acção política que urge acompanhar, analisar e perceber. O recuperar dos murais pintados e o entoar de canções de outras primaveras, só na aparência da leitura distraída é que podem confundir-se com ausência de novas armas de luta social. O seu simbolismo é pelo contrário duplamente forte.

Primeiro, porque nos remetem para um tempo que nos parece único na nossa história recente, um tempo de euforia, de força colectiva. Um tempo estilizado, é certo, moldado já nas mentes e nas vozes de quem agora o retoma, para dele apenas nos fazer chegar o aroma do que queremos recordar, do alento que desejamos reconquistar, sem as sombras dos excessos e das desilusões.

Nesse sentido, o recuperar de murais e de canções, com todas as deturpações impostas pelo caleidoscópio dos tempos sociais e políticos que já percorremos, é uma estratégia de acção perfeitamente legítima e normal, tal como quando nos recordamos apenas da dimensão morna e feliz da nossa infância, não para estancar a fluidez da vida agarrados a um saudosismo doentio, mas para nos reconfortar e alentar. Por outras palavras, não vejo esse recuperar como expressando incapacidade de gerar linguagens novas que sirvam a contemporaneidade das lutas emergentes.

Segundo, porque há de facto muito mais sob a superfície dos novos movimentos sociais e das novas formas de acção política. Há todo um universo de fenómenos de participação cidadã que reclama em Portugal como na Europa, em particular na Europa mais afectada pela crise económica, não apenas por análises intelectuais de fundo, mas também, e com muita urgência, pelas análises mais inteligentes de que os nossos governantes sejam capazes.

As formas não-convencionais de acção política e a emergência de novos actores não serão uma novidade para as ciências sociais, mas parecem sê-lo para os nossos políticos tradicionais. E nesse sentido, a pior análise dos governantes portugueses será aquela que insistir em olhar estes fenómenos como simples momentos de micro-catarse colectiva que permitem o aliviar de tensões sociais por via de um revivalismo trendy, merecedoras de pouca atenção para lá da suscitada pelas questões de segurança; ou então como meras encenações patrocinadas por agendas partidárias e sindicais. O cidadão é, sabe, e merece mais do que aquilo que essa leitura pobre lhe consente.

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