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Duas muralhas e um copo

A Biblioteca Escolar – Um contributo fundamental para ler o mundo

Duas muralhas e um copo

Ideias

2020-04-12 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Agonia do dia-a-dia. Eis que, fartos de tropeçar no vírus, não conseguimos falar senão do vírus. Ameaça que medos infunde e restrições dissemina. Negacionista não sendo, questões que legítimas me parecem: não se alocará a este mal uma atenção que a sua virulência e letalidade não justificam? Para preocupação inicial legítima, – porque não dispusesse Portugal de meios técnicos, capacidade hospitalar e rotinas para enfrentar um afluxo inaudito de pacientes, porque descuidadosos tendêssemos a ser no nosso rame-rame diário –, por que espalhafatosa irracionalidade se insiste hoje, e insistirá amanhã, no imperativo de confinamentos e interdições extensivas? Não dizem os especialistas – qualificativo que não estamos capazes de aferir – que o agente patogénico por cá andará, atento e faminto, muito para lá de um Maio em que Marcelo e Costa decretem a reabertura do País?
Falar verdade, diziam! Ouvir peritos, diziam, e determinar medidas com base em pareceres sustentados, de consensual virtude. Não fechou Costa as escolas, depois de um conselho consultivo nacional haver proferido douta decisão de contrário sentido, por validação preferencial de um aviso vindo de fora? Não andamos nós de maço para cabaço, com põe máscara, não põe máscara, com peritos ferozes de um lado e do outro?
Por que bitola afinamos nós a nossa reacção? Pela mortalidade residual em terras chinesas? Pela magnífica improvisação de hospitais em módulos de betão pré-fabricados? Pela obediência de quem teve avós aos milhões supliciados nos altares de macabra “revolução cultural”?
Muralha para que não entrassem, muralha para que não saia o que não convém. Diz-se que houve um alerta, por Novembro, de que um novo vírus teria debutado. Lembro-me de se ter divulgado que os serviços americanos teriam reunido informação deter- minante quanto ao ataque às torres gémeas. Passasse, que não tivesse passado um aviso, tivesse sido possível organizar atempadamente uma reacção apoteótica ao vírus, seguro é que não há quem engula os números chineses sem fazer cara de purgante.
Verdade falaria, querendo, quem tivesse em mãos informações credíveis, relativamente à origem e distribuição do vírus. A desmazelos, a laxismos, atribuímos a razia em Itália, em Espanha, negligências que a nossa hierarquia quer obviar. E bem! Pressupostos que erróneos podem ser: quão difundido não estaria já o vírus, por lá, quando as primeiras medidas de restrição social foram abordadas? Não é a trajectória da infecção distinta entre nós, desde a primeira hora?
Semanas de covid, muralha que empareda outras fatalidades. Março teria sido um mês especialmente mortífero. Gráfico que remiro, análise estatística que procuro penetrar. De mim será, mas fico confuso. Números partidos que parecem realçar o impacto da epidemia pandémica e diminuir as restantes causas de óbito. Refreio má-língua e pensamentos capciosos, mas não poderia esclarecer-nos, a senhora directora-geral, semanalmente, sobre óbitos e suas causas? Cidadania!? Pois que seja completa.
Economia de pantanas. Uns dinheiros que por aí vêm. Grande conquista para uns, que minguada se faz a outros olhos. Por que meio se vê o copo? Copo há, e água terá. Copo que um safanão talvez derrube, águas que se derramarão com parco préstimo. Há quem vaticine mudanças de fundo, na produção, na organização social. Quimeras! A auto-suficiência industrial e agrícola é irrecuperável. Quem o advoga é apodado de nacionalista, o que na gíria bota para a direita tacanha. O grande capital agradece o respaldo.

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