Correio do Minho

Braga,

Duas lições de Gratidão

Escrever e falar bem Português

Conta o Leitor

2013-08-29 às 06h00

Escritor

DOMINGOS XAVIER

A um velho sábio da nossa aldeia, ouvíamos com frequência uma frase que devíamos afixar na proa da nossa cartilha moral. E era uma coisa muito simples, um princípio elementar: “Pouca coisa, é melhor que nada!” - nunca se fartava de ensinar aquele ancião, a quem todos gostavam de ouvir belas lições sobre as grandezas e as misérias humanas.

Contava ele, por exemplo, que um sujeito estava sempre a lamentar-se junto dos amigos que a mulher era isto e aquilo, que andava sempre aborrecida e mal disposta… O que ele nem por sombras podia admitir, já que alegadamente a tratava com tanto apuro, de modo que nada lhe faltasse: havia uma mesa farta, a mulher não precisava de estar empregada, ficava só com as tarefas domésticas e dispunha de uma boa mesada, que o coitado do marido, um mouro de trabalho, todos os meses entregava à dona de casa.

Ora, fartando-se de ouvir estas lamentações, o tal velhinho moralista, perce-bendo logo onde estava a manha daquela senhora doméstica, chamou o marido injustiçado e deu-lhe o seguinte conselho:
- Olha, Rafael, porque não dizes à tua Quinhas que vá passar umas férias ao Algarve, oito dias com a carteira recheada e, vá lá, ela que se divirta, que passeie e que vá às compras…
- Mas vai passear assim sozinha, com dinheiro fácil na mão?… Isso, não pode ser - esperneava em gestos desabridos o incrédulo Rafael, riscando o ar com a mão em riste.
- Vá lá, mas então não queres ver a tua Quinhas bem disposta e animada?.... Vais ver que ela volta diferente para melhor.
Depois de convencido pelas artimanhas do velhote, Rafael lá procedeu de acordo com o combinado.
Passado algum tempo, o operário foi ter com o velho sábio e não ia mesmo com cara de bons amigos:
- Então você sabe o que me acontece agora ao chegar a casa? Pois eu lhe conto: é a comida por fazer, cozinha por arrumar… Sou eu que tenho de ir pôr o lixo, dar de comer aos cães e ensinar os deveres à canalha. Ela agora, desde que veio da Praia, não cura de nada… É só laró-laró, unhas pintadas e…
Entretanto, já o velho se ria a bandeiras despregadas…
- Ai você arranjou-me este sarilho e ainda se ri?
- Não me dá outra vontade, pois foi exactamente o que eu previa. Agora, já não chegas a casa e te sentas escarrapachado a ver a televisão. Agora, é que tu vais dar valor ao trabalho da tua mulher!


Eu, que não passo de um pobre de Cristo, não sou ninguém para te dar conselhos, mas já agora fica-te com esta…
E assim relatou que numa aldeia havia um certo tasqueiro muito descontente com a clientela e sempre com a mania de dizer mal de tudo e todos… Que fulano era um somítico, aqueloutro era um avarento e, em geral, eram todos fracos clientes.

Acontece que um dia chegou àquela Freguesia um Senhor abastado, porém muito dado à vida caseira e pouco frequentador de tabernas. No entanto, todos os sábados pela hora do Jantar, com bom ou mau tempo, ia à dita Tasca beber umas copadas e mastigar umas buchas disto ou daquilo. Como os mercados da cidade eram muito afastados, aproveitava também para fazer umas compras para a despensa, pois o Homem vivia sozinho sem parentes nem criados. Tudo somado, eram uns cobres jeitosos que entravam nas gavetas do merceeiro.
Apesar disso, o guloso comerciante estava sempre a cortar na casaca do rico vizinho. Que ia levar o dinheiro para a cova, que era raro aparecer no negócio, que de pouco servia a sua presença naquela aldeia.

O povo começou a murmurar e a coisa chegou aos ouvidos do tal cliente que só aparecia um dia por semana, enquanto todos os outros homens da Terra, chapa ganha chapa gasta, eram batidinhos no jogo da sueca, passavam tardes inteiras a petiscar, ou entretidos no jogo do fito, a valer um frango. E por aí fora…

Depois de refletir no assunto, o cliente acusado de avareza deixou de frequentar aquele estabelecimento, de certa maneira indignado e chateado por causa do falatório. É muito natural que o fizesse, pois não devia nada a ninguém, metia-se com a sua vida e sorri com simpatia para toda a gente com quem se cruzava no caminho.
Não passou mais de um mês e quis o destino que, num determinado sábado, chovesse com tal intensidade que ninguém se atreveu a sair de casa. Ainda por cima, a trovoada era tanta que até faltou a luz.

Cumprindo mesmo assim o horário, o vendeiro mal agradecido preparava-se para trancar as portas da frente quando foi surpreendido por três assaltantes empunhando espingardas de canos serrados e fazendo voz grossa para que lhes fosse dado todo o dinheiro da safra. Um deles foi direto à gaveta, mas só encontrou meia dúzia de tostões. Logo ficaram os ladrões muito furiosos e como o comerciante insistia em dizer que ali não havia mais vintém, espetaram-lhe duas balas na cachimónia e zarparam dali a todo o gás.
E foi este o triste fim de quem, não se contentando com pouco, esperava sempre demasiado dos outros.

Moral da estória: se comerciante tivesse respeitado sem maldizer o seu cliente, dito somítico e e pouco frequentador da vida mundana, provavelmente ainda viveria para se gabar de ter escapado à fúria dos assaltantes.

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