Correio do Minho

Braga, terça-feira

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Doses tóxicas de um remédio de que o próprio FMI já duvida

Nós e os outros… ainda mais!

Ideias

2012-10-10 às 06h00

Isabel Estrada Carvalhais Isabel Estrada Carvalhais

Enquanto o Presidente da República vem alertar para o que qualquer cidadão sem formação económica ou académica de relevo consegue intuitivamente perceber: que as medidas de austeridade aprovadas em Portugal trarão um ‘efeito recessivo’ e que as expectativas dos nossos empresários ‘não são muito positivas’, o próprio FMI parece finalmente temer que o doente possa morrer da cura, tal é o afinco deste governo em tomar doses tóxicas de um remédio de que o próprio FMI já duvida enquanto modelo de sucesso para a suposta recuperação de economias periclitantes.

Entretanto, entre marchas de protesto e congressos alternativos, ministros que se escondem, e um presidente da República que disserta ora sobre o óbvio, ora sobre um qualquer espaço distópico que desconhecemos; entre, enfim, gaffes e outras anedotas de um 5 de Outubro estranhíssimo, o país parece abandonado ao retalho de uma feira da ladra de bizarrias políticas e de tentativas mais ou menos bem-intencionadas de repor uma dignidade colectiva que se esbate a cada dia que passa.

Neste cenário, a classe média portuguesa (que, atrevo-me a dizê-lo, já só o é por mera conveniência de categorização sociológica) vive por estes dias numa espécie de limbo, meio atordoada entre a incredulidade e a expectativa do trágico.
O verbete de vencimento que chegará em Janeiro de 2013 virá então, à semelhança do verbete de Janeiro de 2011, como a derradeira chapada que a há-de acordar do torpor de uma qualquer esperança vã. Isto para os que ainda tiverem verbete…

No sector privado, quem agora equaciona (enquanto tem idade e força mental) a mudança de rumo profissional para uma empresa ou sector menos carcomido pela crise, já se questiona sobre o salário que realmente de- verá negociar. Chega-se assim ao ridículo de se ponderar pedir salários menores ao potencial empregador, como forma de auto-protecção face à inquisição dos novos escalões de IRS que ameaça transformar toda a classe média em seita diabólica de cuja herética riqueza deve ser rapidamente purgada. No sector público, nem sequer há essa possibilidade negocial. O Estado encarrega-se de fazer as contas e a sangria por todos os funcionários públicos. E isto, volto a frisar, para os que tiverem a sorte de manterem vínculos contratuais.

Ora, com a perspectiva de uma tão acentuada degradação da qualidade de vida dos cidadãos (fruto desse ‘enorme’ aumento de impostos que o mesmo governo parece tentar agora ‘mitigar’, talvez com as mesmas inseguranças e dúvidas brechtianas sobre a semântica da palavra com que parece olhar o futuro da nação), acompanhada de uma retórica falaciosa sobre o suposto facto de termos andado todos, sem excepções, a viver muito acima das nossas possibilidades (como se de um bando de cleptomaníacos e de consumistas compulsivos mais não fossemos); com a perspectivada diminuição da atractividade e da competitividade da nossa eco-omia; com o gradual desmantelamento da saúde pública, e desinvestimento descarado no ensino e na investigação, o que está pois em causa, já todos o sabemos (e perdoem-me se também aqui pareço o Presidente da República a dissertar sobre o óbvio), não são os próximos três a quatro anos da vida nacional. São pelo menos as próximas duas décadas.

Vinte anos perdidos, de retrocesso económico, social, e até cultural, que isto de fazer e pensar cultura num país pobre é e será cada vez mais um luxo. Já o era num tempo recente, em que a pobreza era sobretudo a de espírito, pelo que perante a pobreza material, a equação criativa não poderá sair beneficiada.
É, no fundo, o auge da vida de uns, a parte substancial da velhice de outros, e a juventude completa de outros mais, que ficam assim comprometidos.

Questiono-me pois o que motivará muitos portugueses a levantarem-se pela manhã. Sonhadores, optimistas, utópicos, uns; simplesmente pelos filhos, outros; puro instinto aceso de sobrevivência, outros ainda. De facto, só podemos ser o melhor povo do Mundo!

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