Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Dos professores e dos Estaleiros

Saúde escolar: parceiro imprescindível das escolas de hoje

Ideias

2013-12-02 às 06h00

Artur Coimbra

1. Centenas de professores contratados manifestaram-se este sábado, no Porto (e três dias antes em Lisboa), em protesto contra a obrigatoriedade de realização de uma prova de ingresso na carreira docente, “inventada” por Nuno Crato, com o mero propósito de eliminar professores e candidatos a professores, numa rasteira lógica economicista, que não tem minimamente em consideração as pessoas envolvidas e põe em causa a credibilidade das instituições de ensino superior deste país.
Segundo é do domínio público, a prova é destinada aos professores não integrados na carreira docente, ou seja, aos contratados. Terá uma periodicidade anual e o seu alegado objectivo será “aumentar sustentadamente os padrões de qualidade do ensino”, assim como a “equidade entre os candidatos ao exercício de funções docentes”, de acordo com o Ministério da Educação e Ciência.
Obviamente que estamos no domínio da treta e da mais pura demagogia, mesmo para quem perspectiva esta matéria como observador. Os padrões de qualidade do ensino não aumentam apenas pela acção dos professores, como até Nuno Crato, o propagandista e actual utilizador do “eduquês”, sabe e deverá reconhecer. E se tal fosse verdade, teriam que ser todos os professores a submeter-se à famigerada prova. E não é o que vai acontecer, e muito bem. Não deveria é suceder com nenhum docente, porque a prova não faz qualquer sentido, é um perfeito absurdo e apenas dá a medida do desnorte e da prepotência que reina pelos lados da coligação de direita que nos coube em desdita. Ainda se fosse uma medida para o futuro e com regras universais, como acontece com o ingresso em carreiras como a medicina, a engenharia ou a advocacia, se admitiria. Assim, não!
Desde logo, não passa de um disparate obrigar a fazer a designada “prova de acesso à carreira” docentes que já estão a trabalhar, embora como contratados, há 10, 15 ou 20 anos, em muitos casos com avaliações de “bom” ou “muito bom”. Por isso, é “uma prova que não prova coisa nenhuma”, como referem professores à comunicação social, e com toda a razão.
E deveria ser proibido ter professores naquelas condições tantos anos, quando o Estado obriga os privados a admitir os funcionários nos quadros a partir de um determinado número de anos de contratados. O Estado é um mau exemplo e um explorador, com todas as letras. Como deveria ser interdito alguém vir questionar a preparação ou as competências de um professor para a carreira, depois de leccionar anos e anos… Estamos no alegre reino do delírio!...
Falamos de professores que se formaram nas universidades creditadas pelo Estado para o efeito, com quatro ou cinco anos de estudos; que fizeram os seus estágios curriculares como mandam as regras; que se prepararam e cumpriram todas as etapas da sua formação pedagógica para exercerem cabalmente a sua actividade numa sala de aulas.
Por isso, o que está em causa, inequivocamente, é a falta de respeito do Governo pela situação dos professores que já leccionam há anos e que se permite dispor a seu bel-prazer da sua vida e destino. Chama-se a isso prepotência.
Como é também falta de reconhecimento da qualidade científica e pedagógica das universidades esta opção de Nuno Crato, que assim põe em causa de uma penada e com a maior desvergonha e pedantaria a credibilidade do ensino superior deste país, que ele quer asfixiar financeiramente.
Obviamente que, por detrás do folclore verbal do Ministro da Educação, está o propósito de afastar milhares de professores do sistema, com fins estatísticos. Para afirmar à Europa que o desemprego no professorado é residual.
Estamos a falar de uma sacanice de Nuno Crato aos professores, que pretende arrasar a vida e o futuro de mais de quatro dezenas de milhares de professores, numa prova de 120 minutos.
Outro aspecto a considerar é o do esbulho que o governo faz aos professores. Uma prova obrigatória e a pagar (20 euros) não passa de um infame saque aos concorrentes, por parte de um governo sem escrúpulos, que o que pretende é eliminar professores do sistema, obrigando-os a contribuir para o “ajustamento”, em mais de 1 milhão de euros (contando a prova geral e a específica, a 15 euros por cabeça, ao que se anuncia), sem a garantia de que venham a entrar na profissão. E tantos deles nem sequer estão a trabalhar…
O mesmo Crato que inferniza a vida aos docentes e desinveste claramente no ensino público, para o menorizar e descredibilizar, não se coíbe de acenar com os melhores apoios ao ensino privado.
Porque é disso que estamos a falar. Esta gente que nos governa nestes anos de chumbo quer acabar com tudo o que é público, para entregar os sectores fundamentais da educação, da saúde, da economia, aos privados.
Não estamos a falar de questões conjunturais, ditadas pela crise. Estamos a falar de uma estratégia ideológica que está a ser posta em prática pela direita ultraliberal para privatizar o melhor do país. Da energia aos correios.



2. É nessa lógica distorcida e algo satânica que se insere também a alienação dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo.
O secretário-geral da CGTP, Arménio Carlos, exigiu no fim-de-semana um inquérito à subconcessão dos Estaleiros ao grupo Martifer por suspeita de «favorecimento» ao sector privado com este negócio.
Na verdade, há coisas nebulosas no meio deste negócio, que deveriam exigir a intervenção e investigação das autoridades, para aumentar a sua transparência e clareza.
Não se entende o afã da privatização dos estaleiros e o despedimento de 609 trabalhadores. Como bem afirma o líder da CGTP, em 2012 o mesmo Governo «não teve» três milhões de euros para adquirir matéria-prima para começar a construir dois navios asfalteiros encomendados pela Venezuela, mas dispõe agora de 30,1 milhões de euros para despedir seis centenas de trabalhadores.
Como não se compreende que se passe a gestão daquela empresa para a Martifer, que tem um passivo maior, da ordem dos 370 milhões de euros, quando o dos ENVC rondará os 300 milhões de euros.
Sejam os governantes pelo menos sérios a defender o interesse público, o que, neste como em outros negócios, está muito longe de suceder.
E, como se sabe, à mulher de César não lhe basta parecer!...

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