Correio do Minho

Braga, sábado

Dom Costa I, o Educador

Investir em obrigações: o que devo saber?

Ideias

2017-01-15 às 06h00

José Manuel Cruz

É sabido que as palavras de um político são um boomerang e que, iludida, não há promessa que não volte para o assombrar. Contrariamente a medidas radicais no emprego, no rendimento e bem-estar, na saúde, as promessas que se fazem no campo da Educação são de ciclo mais longo, no mínimo a três mandatos, senão mais, razão pela qual nenhuma cabeça de governo corre o risco de ser chamada à pedra por algo que fique por fazer no espartilho de uma legislatura.

Diz, Costa, que o nosso ‘maior e verdadeiro défice’ é o da Educação. Não será debelado até 2019, como percebemos. Farão o quê, os ministros do seu gabinete? Aumentarão uns zeros nos orçamentos? Baixarão o índice de alunos por professor? Caiarão de fresco umas paredes? Quando por cá andou, Guterres, o Emigrante, também paixões confessou pela mesma dama. Ora, que não se reprove a moça charmosa a infusão de amores levianos, nem se desconte a amantes ardorosos o facto de lhes faltar peito para veneração de tamanha exigência.

Por lá transitasse, eu, e em algumas de iguais esparrelas cairia. Tentaria perceber, no entanto, se são pedagogicamente mais indicadas as aulas de 90 minutos, do que as de 50 minutos que em tempos conhecemos; tentaria perceber, do repúdio e indisciplina que ensombram a Escola, quanto dele é fruto de metas e organização de processos que nenhum eco encontram nos que resvalam no plano inclinado do insucesso escolar.

Talvez haja uma psicopedagogia que legitime o inverso daquela que eu aprendi. Talvez eu esteja obsoleto. A Psicologia que cursei, contudo, falava-nos de parâmetros consideravelmente estáveis para o estado de consciência e atenção concentrada, guiava-nos pelos meandros do desenvolvimento da linguagem e da estruturação do pensamento, desenhava-nos perfis múltiplos de personalidade, temperamento, inclinações, poder motivacional. Não somos iguais, e o denominador comum é uma ilusão perigosa em Pedagogia.

Não se depreenda que a Psicologia é um meio-saber, pusilânime arenga restringida a um cruzar de braços, identificado um perfil e os obstáculos que impendem sobre um processo. A Vida, a Escola, é um ir de cá para lá, é um ultrapassar de fragilidades e um consolidar de aptidões. Com tensões, certamente, com frustrações e sofrimento à mistura. Não deseja um governo outro que nós não desejemos: que a Escola seja uma arena de realizações, que o insucesso escolar seja uma reminiscência longínqua, um atavismo de sociedade incompleta.

Consumimo-nos com programas e professores, com orçamentos e equipamentos, esquecendo que a pedra angular da Educação é o aluno. Segundo erro se comete quando se escamoteia uma verdade crucial: o aluno é o objecto primeiro da Educação, mas não o final. A Educação é um processo intrínseco à reprodução da Sociedade. Falhai a educar, que falhareis a reproduzir valor social! Assim, educar - educar bem, educar todos - é um imperativo.

É sabido que nossos bons alunos não marcam passo no confronto com colegas de outras longitudes, de onde não ser tão mau quanto isso o nível geral da educação em Portugal. Algo falta, sim, porventura para todos, mas visivelmente para os da metade inferior da tabela classificativa.
Muito terá em mente, o primeiro-ministro. De todo se espera que, na sua boca, a Educação seja mais do que uma sonoridade. Assim lhe assista equipa que ouse ir além de fórmulas gastas e rame-rames desinspirados. Por mim, dou uns palpites: que poderia eu mais fazer?

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