Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Doces caras de pau

Pecado Original

Conta o Leitor

2018-07-04 às 06h00

Escritor

Autor: José Cruz

Vilarelho não consta de guia turístico, e mal vai quem conta comigo para marcar caminhos que outros devam seguir: não sou a pessoa indicada. Chego aonde me levam as deambulações que empreendo, e esqueço no próprio momento as contravoltas e as vias secundárias que tomei por lúcido desvario.
Quero dizer, que me levariam a enveredar por sentido diametralmente oposto, hoje, as errâncias que belo dia me levaram a franquear os limites de Vilarelho, pelo diferente que sou, e por mais harmonioso ser o rumo intuído que o destino procurado, já que ninguém nos espera em lado algum ou, se disso temos a enganosa sensação, mais não é por alguém julgar que em nós encontra como dar corpo às suas miragens e fantasias. A atitude é sabidamente simétrica. Diria, para arrumar a questão, que Vilarelho é uma descoberta, que cresce em densidade com o imprevisto, isto é, que melhor dela tira partido o incauto de boca aberta, que o caçador de curiosidades em segunda mão.
Passei por Vilarelho, e por lá poderia ter fixado residência, que é localidade que tudo empresta às ilusões da felicidade terrena. Vilarelho é um paraíso construído a meias, pelo Homem e pela Natureza, com os deuses de boas graças, ora com um, ora com outro. A afabilidade é geral, e concorre com as blandícias do terreno, que oferece sombras e cursos de água, e férteis são as terras e de fácil amanho. Homem ou mulher obesa por lá não se encontra, nem cão vadio coberto de carraças, nem pessoa de fracos dentes ou rosto sulcado por agruras. E, ao que me apercebi, é póvoa sem bêbado oficial ou louco de estimação.
Sendo pessoa que observa, mais do que pergunta, fiquei a meio passo da certeza, já que não vi igreja ou silhueta imponente de torre sineira. Assinalo, no entanto, que a praça principal é dominada por um edifício magnífico, de dois andares de soberbo pé direito, dando a entrada para um peristilo, rematado a meio, no ajardinado central, com um canal rectangular, recoberto de azulejos vidrados, com repuxos regulados e fiéis. Fiquei com a ideia de que o edifício constituiria o centro cívico do povoado, e que nos salões, que de cada lado abriam para a colunata dórica, se jogariam os momentos de maior relevo da comunidade.
Pouco se aventura nos pedidos de esclarecimento, quem num dia chega, para no dia imediato partir, mas pareceu-me que tinha caído no território de uma seita esotérica, de inspiração semipositiva, semitranscendente, que igual realce conferisse aos tratos com vizinhos e com o divino.
Parei para merendar, para averiguar onde melhor se jantaria e perguntar por hospedaria onde pudesse passar a noite, e fiquei surpreendido com o conselho, ou convite, para que passasse prontamente ao cemitério, uma vez que por lá se encontrava já a totalidade do povoado, à excepção do meu anfitrião, ficado para trás, para garantir que um incauto não ficasse com a impressão de ter desembocado em terra assombrada.
Segui a sugestão, depois de um café e águas rasgadas de mina granítica.
- Esperávamos por si, - disseram-me, assim que franqueei o portal de ferro forjado do prado do eterno repouso.
Admiti que lavrassem em equívoco, que me tomassem por parente convocado para infausto acontecimento. Tentei balbuciar uma incredulidade, uma desculpa, mas prontamente me vi a uma das estremas do ataúde.
Não fui difícil de conduzir. Tomaram por comoção a minha incredulidade geral, e tanto o comovido como o aparvalhado se prestam a ser levados sem sobressalto de maior. O menos que posso dizer, é que estava em choque estético. Aparte umas lápides brancas de cabeceira, o cemitério era um campo de papoilas vermelhas, que de outras flores selvagens seria noutra maré. Campo como campo, com grilos atrevidos a incitar companhia, com bailados de borboletas, e primeiros gorjeios de passaredo, na antevisão do cair da tarde. Igualmente inaudito era o caixão, se assim o posso dizer, uma caixa de barro tosco, esburacada, como bom pote de assar castanhas, para que sem grandes obstáculos a terra reclamasse o pó em tempos encarnado.
- Terra em estojo de terra, - não contive uma exclamação.
- Ámen, irmão, - responderam-me em coro.
- Sábio, como os sábios, - alguém comentou, seguido de novo «ámen» geral.
Seria para mim? Seria por sumário de vida do finado?
- Quererá ver a oficina, - lançaram-me, concluído o rito piedoso.
- A oficina, - repercuti, eu, como se nas ressonâncias procurasse a solução para o enigma.
Deixei que me guiassem a um atelier de marcenaria, percebendo que ali se produziriam máscaras e marionetes, pescando palavra aqui, palavra ali, posto que ninguém se dava a longas explicações, sendo assumido que de tudo o falecido me houvesse posto a par.
- Tomais-me por outra pessoa, - digo.
Desfaço mal-entendidos – vulgar viandante, nunca talhador de máscaras encartado. Alguém me rebate, ou tenta convencer; dizem-me que o mestre se faz, e que o melhor de todos, o irrepetível, é aquele que por si avança, sem escola ou mentor que imponha estereótipos. Uma onda de concordância se eleva do grupo. Que o meu antecessor, - dizem, carregando enfaticamente no pronome -, tomara bancas e ferramentas sem nada saber, e que revolucionara a arte. E contam-me das máscaras que envergam uma vez por mês, na lua nova, máscaras que sendo iguais, como gémeas indistintas, diferentes se fazem nos rostos que enfeitiçam.
Estranha metafisica: o igual que o diferente decanta. Quase me sinto tentado.
- Faço filmes, escrevo, - digo, pretendendo, com as minhas explicações, tornar claro que jamais poderia assumir responsabilidades por algo de tão distinto.
- É quase a mesma coisa, - desconcertam-me. – A devido tempo chegaria lá.
- Quem sabe não inaugurasse uma nova etapa.
Um uníssono de entusiasmo varreu a comissão de boas-vindas.
Sorri, enquanto passava os olhos por obra em distintas fases de execução, pendente das paredes, enquanto folheava sebentas de desenhos e instruções para tintas e vernizes. Hesitei no capítulo dos perfumes: que a alma da máscara era o seu perfume, escrevia o alquímico das identidades.
- Sempre fica, - perguntam-me.
- Não posso, - respondo. – Mal sei quem sou, - digo -, como poderia eu projectar o ser de outrem, sem equívocos?

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