Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Do rescaldo eleitoral à luta de todos os dias

A ditadura do automóvel

Ideias Políticas

2019-05-28 às 06h00

Carlos Almeida

Escrevo ainda no rescaldo das Eleições para o Parlamento Europeu. Faço-o num momento em que os resultados oficiais em Portugal, apesar de não estarem apurados na totalidade, confirmam a eleição do segundo deputado da CDU. Em comparação com as eleições de 2014, verifica-se na CDU uma redução de 3 para 2 no número de mandatos alcançados, os mesmos que havia conseguido em 2009. Sem rodeios, é preciso reconhecer um mau resultado, nada animador. Mais do que isso, é um resultado injusto, que não reflecte o trabalho, a dedicação e o esforço desenvolvido pelos deputados da CDU no Parlamento Europeu em defesa de uma política ao serviço do povo e do país. É, ainda, um resultado que, inevitavelmente, trará consequências negativas, não apenas para as forças que compõem a CDU, mas, acima de tudo, para a luta que é necessário continuar a travar nas instituições europeias por avanços nos direitos sociais e laborais, na defesa da soberania nacional, pela exigência de uma outra política mais justa e solidária. É uma voz que se perde e que certamente fará muita falta.

No plano nacional, analisando o resultado global, confirma-se também um cenário por muitos esperado, com o PS a destacar-se como a candidatura mais votada, ganhando um deputado em relação a 2014, e o BE a sair também reforçado, passando de 1 para 2 deputados, assim como o PAN, que passa a ter um representante no Parlamento Europeu, significando a maior surpresa na noite eleitoral, à semelhança do que havia ocorrido em 2014 com a eleição de 2 deputados pelo MPT, que viu, desta vez, o seu anterior cabeça de lista, o inenarrável Marinho e Pinto, concorrer por outro partido, o que nem assim lhe valeu a eleição.
Neste quadro, objectivamente, a CDU perde um deputado, PS, BE e PAN ganham um cada. Não é positivo, é um facto, mas daí ao vaticínio que anuncia, pela enésima vez, o desaparecimento do PCP e da CDU vai um passo do tamanho da aversão que muitos comentadores nutrem pelos comunistas portugueses.

Num exercício meramente comparativo, recuemos até às eleições de 2014, também para o Parlamento Europeu, em que o BE passou de 3 para 1 deputado e a CDU de 2 para 3. Posso garantir-vos que nessa altura ninguém se atreveu a falar do desaparecimento do BE, muito menos da estrondosa vitória da CDU.
É certo que isto não explica tudo, mas é bem demonstrativo da animosidade com o PCP/CDU que grassa pelos diferentes meios de comunicação social. E desengane-se quem pensa que isso não é decisivo na construção da imagem de uma CDU "velha", "gasta" e em "definhamento".
Do outro lado, PSD e CDS, que agora concorreram separados, elegem 6 e 1 deputados, respectivamente, tratando-se de um resultado muito aquém das expectativas que ambos criaram. Os partidos de direita não só não conseguem ganhar terreno, como ficam mais distantes do PS, o que é também revelador da rejeição à política de má memória do governo de Passos e Portas, e uma demonstração de que uma ampla maioria dos portugueses não aceita voltar a esse tempo.

Uma nota, por fim, para a abstenção, que vinha já de valores muito elevados em 2014 (cerca de 66%) e agora sobe mais de 2%. Não deixa de ser curioso o facto de, durante a campanha eleitoral, termos assistido a uma absoluta desvalorização destas eleições, com o contributo de muitos comentadores televisivos, que agora fingem uma grande preocupação com o alheamento e desinteresse dos eleitores. O elevado nível de abstenção é, sem dúvida, um problema para a democracia, mas não encontrará todas as suas causas nos partidos políticos, porque muitas estão também do lado dos cidadãos, que se demitem do seu dever de participação na vida pública, e não me refiro apenas aos actos eleitorais.
Sendo verdade que dos resultados eleitorais se determinam as opções políticas, é também verdade que nem só de eleições se faz o combate político. A participação regular na vida colectiva e a acção diária por mais direitos, conquistas e avanços nas mais diversas áreas de governação são factores indispensáveis à consolidação de uma verdadeira democracia, fundamentais para que os cidadãos se sintam representados e sintam que vale a pena acreditar no exercício da eleição e credibilizar a vida política.

Da parte da CDU, estou convencido que será dado o exemplo, como sempre, e poderemos contar com o empenho dos dois deputados agora eleitos, o João Ferreira e a Sandra Pereira, para continuarem o excelente trabalho que tem vindo a ser desenvolvido.
Não é momento para recuos, é muito importante reflectir, mas mais importante ainda é permanecer junto de quem mais precisa e onde mais falta fazemos, dada à proximidade de outras batalhas políticas que serão decisivas para o futuro do país. Para lamento de alguns, lá estaremos na luta por dias melhores para todos.

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