Correio do Minho

Braga, quinta-feira

- +

Do latim ao português

A saia comprida

Do latim ao português

Escreve quem sabe

2020-03-08 às 06h00

Cristina Fontes Cristina Fontes

Licenciei-me em ensino de Português e de Inglês. Não tive a disciplina de Latim nem no ensino secundário nem na licenciatura, uma falha que tentei colmatar com estudo autónomo através de manuais escolares. Sou uma eterna estudante e confesso que é uma lacuna significativa enquanto professora de Português. Valem-me os colegas, de quem me socorro muitas vezes, e, agora, a Internet.
Hoje, quase não se ensina Latim nas escolas secundárias. Segundo dados oficiais, no final do século XX, havia aproximadamente 13 mil alunos a realizarem o exame de 12.º ano de Latim. Se compararmos estes aos 67 que o realizaram em 2018 (agora o exame é feito no 11.º ano), verificamos que o número é quase irrisório no total de alunos que fazem exames nacionais.

Aliás, as Humanidades são o parente pobre do ensino secundário. Na vertigem das Economia e das Ciências, nesta época da globalização, os pais são avessos a que os filhos escolham uma área de estudos com “pouca” saída profissional. Poderia refutar esta ideia, mas não é o objetivo deste artigo. Voltemos ao latim.
Para que serve estudar latim? Estará o leitor a cogitar (“a pensar”, do latim cogit?re,) por esta altura. Uma língua morta, que já não é falada. Ora, o latim está na génese da nossa língua e de tantas outras línguas novilatinas (italiano; castelhano; galego; francês; provençal; catalão; romeno).

É a matriz da nossa identidade. Conhecer a língua e a cultura latina permite-nos entender melhor quem somos e quem donde viemos. Segundo autores como Bauer e Furlan, estudar latim desenvolve as capacidades de análise e raciocínio, para além de nos ensinar a escrever melhor, pois enriquece o vocabulário e ajuda na interpretação na língua materna e até nas línguas estrangeiras. Na Alemanha, por exemplo, o latim ganhou novo fôlego, pois foi reconhecida a importância do seu estudo para a formação dos jovens e para o seu desenvolvimento intelectual.

Vejamos alguns factos curiosos. O nome científico dos seres vivos deve ser escrito em latim e deve estar destacado no texto (em Itálico ou sublinhado). É obrigatório o uso de duas palavras para designar o nome científico de uma espécie, daí a expressão “sistema binomial de nomenclatura” (elaborado por Lineu, em 1735).Tomemos como exemplo “cavalo” - pertence ao género Equus e à espécie Equus caballus (e não simplesmente à espécie caballus). Já o “pinheiro-bravo” pertence ao género Pinus e à espécie Pinus pinaster. A primeira palavra, com inicial maiúscula, indica o género a que pertence a espécie. A expressão formada pela primeira palavra mais a segunda (em minúsculas) designa a espécie. Na esfera do Direito, são várias as expressões latinas utilizadas e que frequentemente ouvimos ou lemos nos órgãos de comunicação social (ex.: Alibi – latim: al?bi, “noutro local”; (Doutor) Honoris causa – latim: honoris causa, “a título de honra, por motivo honroso”; Habeas corpus – latim: habeas corpus, “que tenhas o corpo”), entre muitas outras.

O lema da Universidade do Minho é uma frase latina de Francisco Sanches, insigne médico e filósofo português: “Res ipsas examinare: versus est sciendi modus” (o verdadeiro método de saber está em examinar as coisas em si mesmas). Já agora, o plural de campus universitário é campi universitários. Errou, pois o Jornal Económico quando titulou “Estudantes universitários de Lisboa querem mais polícia e iluminação junto aos campus.” (em https://jornaleconomico.sapo.pt/ noticias/estudantes-universitarios-de-lisboa-querem-mais-policia-e-iluminacao-junto-aos-campus-531929, acedido em 29-02-2020).

Todos nós, mais cedo ou mais tarde, temos de escrever o nosso curriculum vitae (“currículo” em português - documento onde se reúnem os dados biográficos mais relevantes de uma pessoa e a informação relativa ao seu percurso profissional, com referência a habilitações, cargos desempenhados, obras produzidas, etc - definição retirada da Infopédia). O que não devemos fazer é misturar o latim e o português na forma “currículo vitae”. Por isso, não se compreende que na página da Direção Geral de Educação se escreva “EUROPASS - nova versão do currículo vitae” (em https://erte.dge.mec.pt/noticias/europass-nova-versao-do-curriculo-vitae, acedido em 29-02-2020).

Convém lembrar que em latim não existem hífens, pelo que não podemos separar palavras latinas por esse sinal diacrítico, como acontece amiúde com a expressão ex aequo, grafada erradamente *”ex-aequo”, por exemplo aqui: “Prémio da crítica atribuído ex-aequo” (em https://www.cmjornal.pt/cultura/detalhe/premio-da-critica-atribuido-ex-aequo, acedido em 29-02-2020). Também é usual encontrar a expressão pro bono (usada para indicar que algo  é feito sem retribuição) escrita erradamente com hífen, como acontece na página eletrónica de uma Sociedade de Advogados – “Pro-Bono e Responsabilidade Social” (em https://www.pbbr.pt/pt/sociedade/pro-bono-e-responsabilidade-social/ acedido em 29-02-2020).
Em suma, errare humanum est (errar é humano), mas errando discitur (é errando que se aprende).

Deixa o teu comentário

Últimas Escreve quem sabe

28 Junho 2020

Verbos traiçoeiros

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.

Bem-vindo ao Correio do Minho
Permita anúncios no nosso website

Parece que está a utilizar um bloqueador de anúncios.
Utilizamos a publicidade para ajudar a financiar o nosso website.

Permitir anúncios na Antena Minho