Correio do Minho

Braga, sexta-feira

Do gabinete do psicólogo ao diretor de turma

Pecado Original

Escreve quem sabe

2013-12-03 às 06h00

Cristina Palhares

Nos dois últimos artigos acompanhamos a narrativa de uma criança precoce e com caraterísticas de sobredotação desde os primeiros anos de vida aos primeiros anos de escola. Das expetativas frustradas dos primeiros dias de escola ao banco do psicólogo fomo-nos apercebendo de como a escola hoje ainda não tem capacidade para atender a diferença: é o sistema? É a falta de legislação? É falta de formação?

A narrativa continua... Estávamos no 4º ano e a aluna tinha feito uma aceleração do 1º para o 3.º ano. “Mas durante este tempo, voltei a fazer novos exames médicos. Eu devia ter qualquer coisa mas ninguém descobria nada... eram mesmo incultos. Então como é que me doía tanto a cabeça ou a barriga? Aliás, quando saía da sala para tomar chá ficava logo boa... O chá devia fazer mesmo bem à doença que eu tinha, mas ninguém a descobria. As minhas notas foram sempre muito boas, para mim chegava bem, pois havia coisas que tinha que aprender que eram mesmo uma seca...”

Geralmente presume-se que a aceleração educacional implica conteúdo mais complexo, porém pode acontecer que, após ter sido acelerada, a criança pode ainda estar a trabalhar nas mesmas linhas rotineiras, simplesmente encurtando o número de anos na escola. (Freeman, 2000). “E lá vinha na ficha de avaliação sempre, sempre o mesmo. Não eram estas as palavras mas era o que a professora queria dizer: irrequieta, mal comportada, nunca esperava pela minha vez para nada, respondia pelos outros, e... o que me acompanhou durante muitos anos: tem capacidade para ser melhor mas não estuda o suficiente”.

Nem sempre estes são os melhores alunos da turma, nem sempre se sentem suficientemente motivados para realizarem a um nível consentâneo com as suas habilidades (Almeida, 2000). “Enfim, já não valia a pena... Olha, já estou no 5ºano... Aqui é que foi... Era lá possível que estudássemos aquilo tudo? Continuei a vir para a rua, principalmente com o meu diretor de turma, que teimava em não me deixar falar...As minhas notas baixaram... passei a aluna média... o que não gostei muito, mas também não podia ter muito trabalho!”

Se as notas escolares do rendimento dos alunos forem substancialmente inferiores à aptidão prevista, poderemos classificar estes estudantes de “alunos de baixo rendimento”. Algumas das suas caraterísticas apontam para inabilidade para perseverar, sentimentos de inferioridade, falta de integração de metas e, falta de autoconfiança (Gallagher, 1994). “Estar a fazer muito tempo os mesmos trabalhos, não era para mim. Era lá possível fazer duas páginas inteirinhas de exercícios de matemática? Eu nem tinha feito a matemática do 2º ano... Como é que podia perceber a do 5.º ? Esta era uma boa desculpa... mas para mim resultava! Ah, mas também fiz alguns amigos importantes... que continuaram pela minha escolaridade fora... a senhora do telefone, o porteiro, a empregada do ginásio, e... quando comecei a ficar mais tempo na escola, a cozinheira”.

Os sobredotados tendem a evidenciar falhas nas competências sociais, tantas vezes por não aprenderem a ser e estar com os outros, naquilo que, numa bola de neve, e por ausência de contacto e oportunidades de treino, se transforma na causa e na consequência. Frequentemente integram-se bem no mundo dos adultos, onde formas de pensar mais semelhantes às suas os protegem e lhes dão segurança (Marujo, 2000). “Foram anos em que chorei muito. De raiva...primeiro! Depois, de incompreensão. Em casa contava tudo... o que de bom e mau se passava. Não era capaz de calar nada! E fazia sempre os meus juízos. Os meus pais, ouvintes de início mas impacientes depois já sabiam que eu nunca esconderia nada! Bom, tenho que me despachar... Vês tu como afinal os 6 primeiros anos de escolaridade foram difíceis? Já no 7º e 8º, com ajuda de explicações e “obrigarem-me a estudar” tudo se foi tornando mais fácil.

Os meus pais foram até aqui um pilar importante: exigentes, mas sobretudo compreensivos. A minha diretora de turma foi excelente. Tive com ela conversas intermináveis, e ela valorizava tanto tudo o que eu fazia... E ensinava com tanto gosto... Via-se mesmo que adorava estar connosco. E ensinava muito também. Tínhamos mesmo que nos aplicar. Nunca trabalhei tanto.... ufa! Na sala, todos gostávamos do que fazíamos... Não fazíamos todos o mesmo...Passei a ter disciplinas diferentes: teatro, e oportunidade para contactar com alunos mais velhos, em filosofia. Os professores compreendiam-me melhor... E mais... Agora queriam que eu falasse... As minhas intervenções este ano, no 9º ano, foram de mestre... Ah... já estava a esquecer-me...

Lembram-se da minha mão? Aquela que eu tanto mirei em pequena, que cedo começou a escrever e que durante uns tempos parou para fazer apenas aquilo que queria, pois agora tornou-se outra vez o meu centro... eu era a redatora da escola. Adorava as entrevistas a alunos, pais, professores, encarregados de educação, e passava tudo para o meu jornal. Conquistei montes de amigos que me ajudavam nesta tarefa. Claro que o mérito foi todo da minha diretora de turma, que apostou em mim!” Relembrando o pensamento humanista que referencia a diferença entre os professores não no que eles sabem sobre a educação, mas no que fazem, na maneira como agem. (Guenther, 2000). No ambiente de aprendizagem o maior recurso que se nos oferece é a pessoa do professor: assim ele o perceba.(Palhares, 2009).

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