Correio do Minho

Braga, terça-feira

Do Entrudo ao Carnaval

O conceito de Natal

Ideias

2016-02-07 às 06h00

Artur Coimbra

1. Estamos em plena época hoje designada carnavalesca, e não me refiro sequer às peripécias da política ou do futebol, que as mais das vezes dão para chorar a rir, tão ridículos e apalhaçados são alguns personagens que quotidianamente se cruzam com a nossa capacidade de os suportar, nesta como em outras alturas do ano.
O que hoje apelidamos de Carnaval foi durante muitos séculos designado como Entrudo, impondo-se a primeira designação, um pouco à semelhança da transformação que levou o simbolismo do Natal do Menino Jesus para o velho das barbas brancas e vestimenta vermelha imposto ao mundo pela Coca-Cola.
Em substância, estamos a falar de um conceito que tem origem no latim 'carnis valles' e que significa o “prazer da carne” mas também o 'adeus à carne'. Será assim o último dia de excessos antes da entrada no jejum quaresmal.
O Entrudo é uma antiga celebração colectiva que acontecia nos três dias de festa que precedem a quarta-feira de cinzas, ou seja, do Domingo Gordo a terça-feira, e que foi substituída mais tarde pela designação única e universal de Carnaval, sobretudo devido à expressão brasileira que se espalhou no imaginário dos desfiles populares.
Desde a Idade Média, comemorava-se o Entrudo em Portugal com uma série de brincadeiras que variavam de aldeia para aldeia.
Em algumas dessas comemorações, existiam grandes bonecos feitos de madeira, chamados “entrudos”, que foram os responsáveis por originar o nome da celebração. Porém, os “entrudos” não significavam apenas os bonecos, mas toda a festa em si e as brincadeiras associadas, como acontece em outras situações de alargamento do sentido do objecto para a manifestação que se teceu em seu redor. Curiosamente, o Entrudo foi levado pelos portugueses para o Brasil, tendo chegado em 1641 ao Rio de Janeiro. Desde o início, participavam na comemoração todas as famílias cariocas e também os escravos que por essa altura eram parte integrante da sociedade brasileira.
Mais tarde, e sobretudo nos nossos dias, são os brasileiros a exportarem os “reis do Carnaval” para as comemorações no nosso país…

2. No ciclo das festividades anuais, o Entrudo era comemorado nas aldeias, há algumas décadas, com imensa alegria, envolvendo as populações, num ambiente de crítica social, de sátira e de grande diversão. Era o esplendor da mascarada, da inversão da normalidade, da permissão dos interditos. No reino do disfarce consentido, as mulheres vestiam-se de homens e os homens de mulheres, para que ninguém se reconhecesse e todas as proibições fossem desculpadas neste dia, dando azo à maior licenciosidade autorizada pelos costumes. Como hoje se afirma, “é Carnaval, ninguém leva a mal”…
Além de desfiles e exibições de mascarados pelas ruas das aldeias, acompanhados do lançamento de confettis de múltiplas cores e até de outros objectos menos próprios, de realçar uma tradição do norte (e de freguesias de Fafe, em particular) que era o forçado “casamento” de viúvas e viúvos ou de solteirões empedernidos, feito por “compadres” que utilizavam funis para a sua conversação, porque instrumentos de ampliação dos sons, sobretudo em ambiente nocturno, como era o caso. Acontecia que alguns moços das aldeias, mais espevitados e divertidos, os “compadres”, colocavam-se em locais estratégicos sobranceiros aos lugares mais populosos, em montes ou até em árvores de alto porte, munidos de funis habitualmente utilizados nas fainas vinícolas e dali anunciavam, aos outros “compadres” que fulano (normalmente viúvo ou solteirão) ia casar com beltrana, num diálogo que poderia ser como o que se segue:
- Ó compadre…
- Que é, compadre?
- Sabe quem vai casar?
- Quem, compadre?
- Fulano (nomeava o pretenso casadoiro…).
- Com quem, compadre?
- Com sicrana (nomeava a fictícia “noiva”…).
- Ah, vai bem, vai bem, vai bem…
Pela noite fora, passavam pelo crivo da sátira, do escárnio e do mal dizer os nomes de homens e mulheres “encalhados” e que nessa altura eram objecto de “casamentos” combinados pelos “compadres”, a coberto da escuridão, do anonimato e da libertinagem dos dias carnavalescos… E “iam sempre bem” os alegados consórcios assim cozinhados, para divertimento da malandragem.
Obviamente, as coisas nem sempre corriam de feição para os “compadres” que, algumas vezes, eram denunciados às autoridades, que os surpreendiam em pleno delito, e outras arriscavam um bom arraial de porrada pelos “ofendidos” ou seus familiares.
Mas o Entrudo de outros tempos tinha incorporada essa tradição, inseparável das manifestações mais características da época.
Obviamente que nos meios mais desenvolvidos, nas vilas e cidades, já se organizavam desfiles carnavalescos, com carros alegóricos, crítica social e bandas de música (há notícia deles em Fafe já em 1911, há mais de um século), como também bailes em salões nobres, pela noite fora.
Sempre com a marca da folia, da brincadeira, da diversão, da libertação do corpo e do espírito, antes da entrada nos rituais de proibição, de jejum e de abstinência, dos 40 dias que antecedem a Páscoa, a partir da Quarta-feira de Cinzas…

3. O Entrudo ou Carnaval, “situado no início do ano agrário, no limiar da Primavera, aparece como resíduo das remotas cerimónias de purificação e expulsão das forças malignas do Inverno, em vista do renovo da vegetação” (Ernesto Veiga de Oliveira).
Época de liberdade licenciosa e de excessos autorizados, tem a sua própria gastronomia, sempre em demasia, porque “no Entrudo come-se tudo”, significando a ausência completa de restrições alimentares, do ponto de vista qualitativo e quantitativo.
Habitualmente, estamos na época do “esplendor da carne”, de toda a espécie mas em particular de porco. Em algumas regiões, e mormente no Minho, sobretudo a orelheira de porco, acrescentada ao “cozido à portuguesa”, que inclui o focinho, o rabo e o pé de porco, presunto, toucinho e salpicão, acompanhado de batata e hortaliça. É o prato típico da terça-feira de Carnaval, a Terça-feira Gorda. Sempre uma refeição farta.
Em meados do século passado, em Fafe, comia-se também o “bucho”, que é o estômago do porco recheado de sarrabulho com mel, guardado para essa ocasião e assado nesse dia.
No final do dia, após toda a animação, o povo era convidado para a “queima do pai das Orelheiras”, como símbolo do final dos prazeres da carne e da entrada num novo ciclo, de limitações, interditos, privações, abstinência, que é, no fundo, toda a época quaresmal. A Páscoa será daí a 47 dias!

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