Correio do Minho

Braga,

Do bom aluno à ‘ilha desonesta’

Amigos não são amiguinhos

Ideias

2011-09-20 às 06h00

Jorge Cruz

Por muito que nos custe admitir, a verdade é que estamos a ficar cada vez mais parecidos com os gregos. E não se pense que as semelhanças têm exclusivamente a ver com o facto de os portugueses se defrontarem diariamente com dificuldades maiores, com crescentes complicações no quotidiano, a infernizar a vida de cada um. Não. É certo que sob esse ponto de vista também nos estamos a ver gregos, tantas e tão grandes são as penalizações que nos impõem, e que têm como consequência para a maioria dos portugueses a impossibilidade de esticar o ordenado até ao final do mês. Ou seja, sobra mês para tão reduzido salário. Mas não era apenas a essa similitude que me referia.

Em tempos idos, as instâncias internacionais até já apresentaram o nosso país como um bom aluno, como um exemplo a seguir pelos restantes países em dificuldades.
Isso mesmo foi recordado pelo presidente da República no discurso das comemorações dos 25 anos do tratado de adesão de Portugal à CEE, quando se referiu aos anos da década de 90 do século passado, quando ele era Primeiro-Ministro e o país foi classificado com bom aluno.
“Quando Jacques Delors, figura maior da construção europeia, designou o nosso país como ‘o bom aluno’, quis evidenciar que Portugal soube superar as desconfianças e conquistar o res-peito dos outros parceiros e das instituições comunitária”, disse na altura Cavaco Silva.

É um facto que nessa altura, num período relativamente curto, de meia dúzia de anos, conseguimos erguer o título de ‘bom aluno’ que, aliás, até chegou a inebriar alguns dos governantes da altura, em Portugal e no exterior. A verdade crua e dura sobre essa época não é totalmente condizente com as loas que então foram espalhadas.

O que sucedeu nesse curto “período de ouro” foi o facto de termos beneficiado do grande afluxo dos primeiros fundos europeus, de resto nem sempre bem aplicados, como se veio a confirmar anos mais tarde, e da brutal redução dos preços dos combustíveis. A conjugação destes dois factores teria forçosamente que dar excelentes resultados no imediato, como aliás se verificou.
Esses eram, pois, os anos em que Portugal era apresentado como um bom aluno da União Europeia. Infelizmente o estado de graça durou pouco tempo.

Aparentemente, nos últimos tempos novas tentativas foram feitas para recuperar esse título. Primeiro com Sócrates, agora com Passos Coelho, este a pro-curar ir bastante mais além do que lhe é exigido, atitude que lhe granjeou algumas palavras simpáticas dos seus pares e de outros dirigentes europeus e vastas críticas a nível interno, e não apenas das oposições.

A questão, contudo, é que a situação internacional que hoje se vive é substancialmente diferente daquela com que nos defrontamos na primeira parte da década de noventa do século passado. E, naturalmente, nessas circunstâncias os resultados terão que ser bem diversos.
Bem pode o presidente da República clamar, como fez há tempos, que não cabe a Bruxelas impor reformas a Lisboa e assegurar que Portugal sempre acompanhou “o exigente ritmo de integração revelando não só vontade política mas também capacidade reformista”. O problema é que quem paga manda e não acredito que os nossos credores se comovam com os discursos dos políticos de turno.

Como quaisquer outros, os nossos credores também preferem as acções concretas no terreno às promessas de intenções e convivem muito mal com desonestidades como aquelas que o ‘Financial Times’ denunciou há dias e que ocorreram no ainda portuguesíssimo arquipélago da Madeira.
Aliás, o comissário europeu dos Assunto Económicos, que não ignora que esta nova ‘habilidade’ de Jardim pode constituir um duro golpe na credibilidade de Portugal, classificou as omissões nas contas da Madeira como “surpresa que não é, de todo, bem vinda”.

Para já, sabe-se que o Instituto Nacional de Estatística e o Banco de Portugal detectaram 1.113,3 milhões de euros que escaparam às contas públicas e que vão obrigar à revisão dos défices de 2008, 2009 e 2010. O impacto das dívidas escondidas é estimado em cerca de 0,3 por cento do PIB. Recorde-se que as dívidas da Madeira relativas ao primeiro semestre deste ano, mais de 560 milhões, e que ajudaram a explicar o tal desvio “colossal” nas contas públicas, também vão ter impacto no défice de 2011.

Mas o mais curioso de tudo isto é que Jardim assume a aldrabice, colocando-se à margem da lei, em nome de uma proclamada “resistência legítima democrática”, ou seja, assume que violou a lei para continuar as obras, “mesmo à custa da dívida pública”.

Claro que o facto de faltarem cerca de três semanas para as eleições regionais e de as sondagens admitirem, pela primeira vez, a hipótese de perda da maioria, não será alheio a todas estas movimentações do presidente do Governo Regional. De resto face às posições do INE, do Banco de Portugal e da Pro-curadoria-geral da República, que anunciou a realização de um inquérito, a criatura não deixou de se “agarrar” desesperadamente a Cavaco Silva com um apelo lancinante: “está na altura de intervir para evitar que entidades do Estado estejam a intervir nas eleições da Madeira”.

Ou seja, Jardim quer que o presidente da República mande calar todas as entidades que têm por missão fiscalizar as contas públicas e o cumprimento das leis. É preciso ter lata!

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