Correio do Minho

Braga, terça-feira

Diversificar exportações para crescer

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2016-02-27 às 06h00

António Ferraz

A procura interna (consumo e investimento) e a procura externa (exportações) são as componentes da riqueza (bens e serviços) produzida por um país num ano, ou seja, do produto interno bruto (PIB) numa óptica da despesa. O governo Passos Coelho ao aplicar o programa de ajustamento/austeridade imposto pelos credores externos fê-lo com demasiado zelo tendo restringido e muito a procura interna portuguesa através da baixa acentuada do rendimento disponível das famílias (cortes salariais e de pensões, diminuição de apoios sociais, “enormes” aumentos de impostos, etc.) e, também, através da forte contenção dos gastos públicos (correntes e de investimento).

Por sua vez, tentou compensar estas restrições pelo aumento das exportações, porém, numa lógica de melhoria da competitividade externa via baixos salários. Pese embora a relativa melhoria das vendas ao exterior com o mercado interno altamente deprimido o resultado final foi uma severa e persistente recessão económica e elevado desemprego.

À actual governação embora condicionado pelas regras orçamentais europeias (e enquanto estas não se flexibilizarem) espera-se que adopte uma lógica de acção diferente, balizando- se por menos austeridade, mais crescimento económico e emprego. Para isso deverá tomar medidas que, por um lado, aumente a procura interna quer pelo aumento do rendimento disponível das famílias (reposição de salários da função pública, descongelamento de pensões, redução da sobretaxa do IRS, etc.), quer pelo estímulo (fiscal e outros) ao investimento privado e pelo recurso aos fundos de investimento comunitários no investimento público essencial.

De igual forma, deverá promover o aumento das exportações e uma maior diversificação dos mercados das nossa vendas ao exterior, contudo e ao invés do passado melhorando a nossa competitividade pela incorporação produtiva de alta tecnologia, inovação, qualificação profissional, métodos modernos de gestão, etc.. Importante será reter que o dinamismo da procura interna deverá sempre funcionar tanto como um factor de crescimento económico como de uma almofada no caso da emergência de crises económicas europeias e mundiais inesperadas.

Que dizer então da evolução recente das exportações portuguesas e do grau de diversificação de nossos mercados externos? Ora, de acordo com a publicação do INE “Estatísticas do Comércio Internacional, temos a enfatizar o seguinte:

(a) As exportações no conjunto do ano de 2015 aumentaram 3,6% face ao ano anterior (as importações aumentaram 1,9%);
(b) Porém, e mais importante, deu-se um relevante abrandamento das nossas exportações no 4º trimestre de 2015 face ao período homólogo, em que as exportações diminuíram 0,2% (em Dezembro de 2015 o panorama foi mesmo pior com uma quebra das vendas ao exterior de 2,8% face ao mesmo mês do ano anterior);
(c) Este abrandamento deveu-se, sobretudo, a forte contracção das exportações para países fora da União Europeia/EXTRA-UE, de 12,2% no último trimestre de 2015 e de 3,0% no conjunto do ano), como resultado da crise económica dos países emergentes (em grande medida devido a quebra do preço mundial do petróleo), para onde vendemos em especial metais comuns, máquinas e aparelhos e veículos e outro material de transporte;
(d) Angola deixou de ser o nosso principal parceiro comercial EXTRA-UE sendo ultrapassado pelos Estados Unido, para quem vendemos, mormente combustíveis minerais, medicamentos, calçado e produtos agrícolas;
(e) Continua a existir uma forte concentração do nosso comércio INTRA-UE (com países da UE), cerca de 70% do total exportado. As vendas de bens INTRA-UE cresceram 6,3% em 2015 face ao ano anterior, enquanto no 4º trimestre de 2015 o aumento foi de 5,2%, sobretudo, em combustíveis minerais (gasóleo). Tal concentração INTRA-UE das nossas exportações sendo compreensível não deixa contudo de ser excessivo e, logo, apresentar elevados riscos para Portugal.

A economia portuguesa só beneficiaria com a expansão das vendas de bens para novos mercados, fora da UE, nomeadamente para os chamados mercados exóticos (sem esquecer nunca a importância dos PALOP’S). Barras de ferro ou aço não ligado e fio-máquina dos tipos utilizados para armaduras de betão, máquinas, aparelhos, veículos e outro material de transporte são muito procurados pelos mercados não tradicionais do país. Assim, uma maior diversificação do nosso comércio externo permitiria atenuar e muito a grande dependência de Portugal face ao comércio INTRA-UE, permitindo aliviar os efeitos negativos internos (recessão e desemprego) de eventuais crises no contexto da União Europeia. Ou seja, como diz o velho ditado popular “não se devem pôr os ovos todos no mesmo cesto”.

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