Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Direita cumpre sonho de Sá Carneiro!...

Prémio Nobel da Medicina

Ideias

2011-06-13 às 06h00

Artur Coimbra

Trinta anos depois, a direita portuguesa cumpre o velho sonho de Sá Carneiro. O de ter, em simultâneo, no poder, uma maioria, um governo e um presidente.
Nas eleições de há uma semana, a direita selou um triunfo iniludível. O PSD venceu claramente um PS que averbou uma derrota estrondosa, embora esperada. Em conjunto com o CDS-PP, a direita passa a deter a maioria dos assentos no Parlamento.

Aproveitando uma conjuntura histórica altamente favo-rável, por virtude de uma “saturação” e esgotamento do projecto político corporizado quase pessoalmente por José Sócrates, Pedro Passos Coelho logrou obter o direito a ser o próximo primeiro-ministro, que terá certamente como parceiro privilegiado Paulo Portas, o segundo vencedor da noite eleitoral.

Em democracia, felicitam-se os vencedores e respeitam-se os resultados. Porque se assume que o povo é sempre sábio, sobretudo quando vota no sentido que nós gostamos. É dos livros.
O povo votou inequivocamente, em 5 de Junho, no sentido da mudança, da alteração profunda do paradigma que vinha sendo seguido nos últimos anos pelo governo socialista. Como sufragou, de modo convincente, a necessidade da estabilidade política, neste caso, não através de um único partido, mas da presumível coligação das duas maiores forças da direita.

São sinais do eleitorado que não podem deixar de ser claramente evidenciados.
Por outro lado, José Sócrates foi o grande derrotado deste sufrágio, pagando a factura de seis anos de uma governação controversa: os quatro primeiros anos, em que foram protagonizadas algumas fundamentais reformas políticas, económicas e sociais, mas baseadas numa arrogância que causou demasiados anti-corpos, enquanto nos dois últimos tentou até ao limite afrontar uma inultrapassável crise económica, começada nos Estados Unidos e que haveria de o arrastar para o abismo, inapelavelmente.

Como consequência do desaire, e num discurso de enorme dignidade política, acabou por apresentar, louvavelmente, a sua demissão de secretário-geral do Partido Socialista. Por culpa própria e por contingências da crise internacional, que tem sacrificado sucessivamente quem “está” no poder, foi apeado pela maioria dos eleitores. A avaliação negativa da sua acção governativa por parte do eleitorado não deixa margem para qualquer dúvida, como se verifica pelos resultados destas eleições...

A partir de agora, o xadrez político em Portugal vai alterar-se profundamente, por vontade da maioria do eleitorado. O PSD regressa ao poder, coligado com os populares e Sócrates desaparece da cena pública, para “descanso” de muitos. Este o resumo possível de uma situação em que, como costuma dizer-se, os “ovos” da política acabam de ficar todos no mesmo cesto.
A partir de agora não há desculpas, nem evasivas, nem justificações para qualquer falhanço. Não há mais margem para o erro. Não há condicionamentos políticos a obstaculizar a decisão dos próximos governantes.

Não são admissíveis as habituais lengalengas da “pesada herança” para a incapacidade de cumprir um programa eleitoral, conquanto a acção governativa vá ser fortemente condicionada pelos compromissos decorrentes do memorando internacional que o PSD e o CDS assinaram (e muito bem), sem pestanejar.

A partir de agora, terá de haver trabalho, responsabilidade, res-peito, se possível, sem o costumeiro “revanchismo” que leva a “varrer” todo o aparelho de Estado, substituindo os “boys” anteriores pelos da “nova vaga”. Tem sido prática indeclinável sempre que muda um governo, dando a ideia de que a competência e o mérito estão no cartão partidário, o que é lamentável!...

Já agora, aplaudimos, obviamente, a intenção de Passos Coelho, no seu discurso de vitória: “não descansaremos enquanto não pusermos Portugal a crescer. Sabemos bem que essa é a única forma verdadeira e duradoura de defender o nosso Estado social, de poder realizar a justiça social para quem dela precisa e para poder garantir uma melhor distribuição do rendimento e da riqueza no nosso país”.
Oxalá assim seja!... Esperamos para ver!...

É curioso que pouco ou nada tenha falado dos trabalhadores, públicos e privados. Porventura, terá acesso a alguma varinha mágica que faça criar riqueza e crescer o país, sem a interven-ção laboral. Até agora, pensava-se que quem construía pontes e auto-estradas, quem produzia tecidos e móveis, eram os traba-lhadores. Talvez estejamos numa altura de mudança do paradigma: a riqueza vai aparecer por geração espontânea.

Enfim, a democracia tem essa vantagem sobre as ditaduras: periodicamente, o sábio povo pode mudar as lideranças, os programas e os governos, como acaba de ser feito. E ainda bem que a democracia funciona e que a alternância tem sentido!...

Que Passos Coelho seja feliz no seu mandato, porque se o for também o serão os portugueses!...
A terminar, duas notas impressivas: a primeira para lamentar a elevadíssima abstenção registada nestas eleições (mais de 41%), num momento particularmente grave da vida nacional e que não é minimamente justificável, sejam quais sejam as razões; a segunda para referir que o Bloco de Esquerda começa a ser reduzido à sua real dimensão de 'cavalgador de descontentamentos' e não de partido responsável. Desceu para metade dos seus deputados, e merecia que o seu responsável maior apresentasse a respectiva demissão, após o estrondoso desastre eleitoral, se tivesse algum sentido de dignidade!... Pelos vistos, o apego ao poder fala mais forte!...

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