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Ódios à francesa

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Ódios à francesa

Ideias

2023-03-29 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Presumo que nos interesse o que se passa em França. Presumo, também, que algum incómodo pessoal nos fique, por lá se revoltarem contra um aumento da idade de aposentação, que nós engolimos como um xarope, posto que soubesse mal, mas fizesse bem, tão arruinados estávamos, e tanto ano a mais íamos vivendo, que de crescer não cessa a esperança média de vida. Tudo sendo verdade, só devemos estranhar que não salte tão prontamente a verdade que nos venha em benefício, como a das enormes desigualdades de rendimento e condição de vida do português por comparação ao europeu, começando logo a saída da primeira fronteira com o espanhol. Seremos tíbios ou de boa-fé, por herança perdurante do tio-avô Salazar.
Talvez a Democracia não se ensine ou induza. Talvez vivamos sob a ilusão de que a Democracia seja um estado ou acção natural, como o respirar, e aceitemos nós como que uma bronquite crónica, ou uma asma, e diminuídos concordemos acomodar uma existência sob lema de “correr não corro, mas cá vou andando e a deus louvando”.
Não abraçaremos nós a Democracia, pelo que abdiquemos de reivindicar com veemência. Não abraçarão os franceses a Democracia, pelo que do benquisto regime exijam o que de acto próprio não lhe consagram. Um, ou dez, ou mil e quinhentos arruaceiros “casseurs” de rua, segundo a contabilidade do Ministro do Interior Armanin, referindo-se às pilhagens, incêndios de degradações de 23 de Março. Caras tapadas, identidades dissolvidas na turba e nas diluições da noite: quem partiu? Quem queimou? Eu não! Ele não! Eu passava! Eu filmava!
Assenta a Democracia na responsabilidade individual. Assenta, a Democracia, que ninguém é réu ou condenado por simples contiguidade ou parentesco. Tem dias, aliás, uma decisão da Relação francesa sob cortes de subsídios municipais facultativos a famílias de jovens delinquentes. Que não, que o Município não pode retirar nenhum apoio, quão degradado não seja o património público por um aluado de rua, renitente a toda autoridade, começando pela parental.
Exacções de rua, sim, a rodos, pelo frisson ou pela eventual rapina que venha a calhar. Mas ódios com respaldo parlamentar, também. A actual assembleia francesa tem uma forte representação da France Insoumisse. Serão mais radicais que o BE de cá, e bem menos polidos em toda a linha. Primeira sessão com os novos eleitos, vota-se para a composição da Mesa da Assembleia, para a sua presidência. Louis Boyard, mocetão de 21 anos, ele também deputado, faz guarda à urna. Philippe Ballard, segundo recordo, o mais idoso dos parlamentares, deposita o voto e estende a mão para um cumprimento. O garoto volta-lhe a cara e argumenta, no dia seguinte, instalado o sururu, que se recusara cumprimentar o eleito do Rassemblement National como reacção à «pandemia de racismo, antissemitismo e islamofobia», tudo do que o Ballard seria odioso representante.
Publica o mesmo Boyard, há dias, na sequência da votação da moção de censura, os nomes dos deputados LR que não sufragaram a iniciativa do grupo LIOT. O governo de Borne aguentou-se por nove míseros votos, em Câmara de 577 eleitos. Nada de estranho, porque os próprios serviços parlamentares o notificam. O grave é o discurso de ódio associado e, mais grave ainda, porque nos dias precedentes vandalizadas e pichadas com ameaças claras haviam sido as permanências locais de eleitos dos Les Republicans, formação que se cindiu no apoio e rejeição da moção de censura.
Na rua francesa é difícil ter mão, no parlamento francês, pelos vistos, idem. E é claro que os logros e mentiras de Macron – isto porque Borne e Dussopt para pouco contam – a nada ajudam. É homem sem carisma, e natural, como o respirar, é a rejeição que suscita.

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