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Dianoia

Como vai ser a proteção do consumidor europeu nos próximos anos

Dianoia

Ideias

2020-03-29 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Divago entre títulos, texto que não se condensa. Poderia designá-lo como “o beco”, o “não sei”, “o labirinto”, “o fim”, fórmulas em que se cristaliza o meu estado de espírito, possivelmente o de muitos leitores que pensam e se angustiam, independentemente do que eu escreva, de me creditarem ou não alguma da sua atenção.
Descubro que não me serve “o beco”, porque paredes tais tivéssemos diante do nariz, vedando-nos avanço, dessa constrição bem nos livraríamos com marcial meia-volta volver, prosseguindo vidas, mesmo a risco de novos impasses e consequentes retiradas, visando mundos atractivos por diante.
Mal me serviria “o labirinto”, porque a mãos empobrecidas, quais as minhas, e rompidos bolsos, quais os meus, não convocaria espiga milheira de mil bagos e jogo inesgotável de godos miúdos que me permitissem denunciar caminho que palmilhasse em círculo vicioso, infernizando-me em não-soluções. Talvez acabasse por me resgatar, a despeito da ausência de estratagema mapeante; talvez conseguisse vergar um minotauro roído de ódios, heroizando-me. Quiçá me perdesse com cegueiras de Ícaro.
Nunca me serviria um “não sei”, porque em título tenho por norma espelhar o texto que me projecta, e muito me custaria confessar um aturdimento, uma exaustão, um desespero. E, que por mim os vivesse, dever meu seria o de não semear torturas como vírus malsão, que onde quer acampa e prolifera, pelo correr consome e aniquila.
Jamais tomaria por emblema “o fim”, embora não seja porque de mim não caia em negrumes, por lusitana depressão, por apocalíptica alucinação, por escatológico pulsar de esqueleto e musculatura. Sou das sombras, mais do que da luz, pessimista por cima de optimista, mas tenho as vacinas em dia. Organizo-me a partir de defeitos que tenha, desvitalizáveis com os antibióticos de solitária virtude, desde que os que estão acima de mim não derrubem as abóbadas das catedrais em que rezo, não lavrem a sal a minha Cartago interior. A despeito de escrever para este jornal, e de escrever, em geral, como por terapêutica insulínica, vivo do dia-a-dia, na expectativa de que os amanhãs não distem de onténs dobrados, na esperança longínqua de que tudo genericamente se componha e de que um pão nosso de cada dia não nos falte, por trabalho, por caridade. No entanto, por mal que calhe confessá-lo, nunca eu estive tão des- crente do rumo que as nossas vidas levam. Não resisto à ironia: o mundo suspenso das vadiagens de um micróbio. Paramos, para que um vírus amouxe por falta de pasto, para que outro não me dê aquilo que não sabe que carrega, e que eu declino receber. Taxa de letalidade muito abaixo do pânico que infunde, mortalidade que o não seria se os serviços de saúde funcionassem de cabeça levantada, se a sociedade se estruturasse em torno do cidadão. Repito-me, mas nunca é demais apontar as distorções que nos tolhem. Nem a boa da ameaça nuclear nos auges da guerra fria teve tamanho impacto no quotidiano, na quebra da economia, na potencial desagregação social. Que é do perigo russo!? Saudades!
Recuo mais: que Platão me valha! Que torto o recorde, mas vem-me à memória o conceito de dianoia, de um pensar para além do que irrompe na sua imediatitude, de um discorrer progressivo e exaustivo sobre um assunto, recurso intelectual distinto de um arrebatar intuitivo dos fenómenos, operação que justa pode ser e assertiva, mas nunca a única ou a mais relevante. Precisámos quem pense amanhãs distantes, de quem nos subtraia às tiranias do imediato. Só assim faremos sentido. Muita dianoia lá para cima.

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