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Dia de todos os santos

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Dia de todos os santos

Voz aos Escritores

2019-11-01 às 06h00

Fernanda Santos Fernanda Santos

O dia em que a terra tremeu…

Eis que Deos descarrega de repente
Sobre nós hum tal golpe, taõ pezado,
Que bem vimos ser braço omnipotente,
E por justos motivos irritado.
Toda a terra então treme, e justamente
Na presença de Deos, qu estava irado:
Estremecem do monte os fundamentos,
E perturbaõ-se os mesmos Elementos[…]
Teodoro de Almeida

Naquela manhã de 1 de novembro de 1755 tinha havido sinais, mas ninguém os soubera ler. A crosta terrestre rompeu-se no mar, ao largo de Lisboa, e a terra tremeu com uma tal violência que grande parte da cidade ficou reduzida a escombros. O tsunami, gerado pela deformação no fundo do mar quando se deu o sismo, inundou toda a zona ribeirinha da capital. O facto de ser dia de Todos os Santos também não ajudou, uma vez que todas as igrejas estavam iluminadas à luz de velas e atearam vários fogos que cobriram a cidade de negro. Foi a maior tragédia coletiva que atingiu o povo português.
O terramoto mexeu com questões políticas e religiosas de Portugal. Os cristãos acreditavam que a capital, onde residia o poder, havia sido punida, como aconteceu em Sodoma, na Bíblia, tal como podemos ler em Judas 1:7- Violência e imoralidade sexual, homossexualidade e estupro; Falta de vergonha, Isaías 3:9; Arrogância e desprezo pelos necessitados, Ezequiel 16:49-50. Acredite-se ou não na justiça de Deus, a verdade é que como resultado deste tremendo terramoto muito se perdeu. Desapareceu, por exemplo, o Hospital de Todos os Santos, no Rossio, onde morreram bastantes pessoas que estavam aí internadas.
Nesta linha de pensamento e acreditando que “quem de uma escapa, cem anos vive”, um ano depois, inicia-se em Braga a construção da Capela de Nossa Senhora da Torre, como ação de graças à Virgem por ter protegido a cidade durante o devastador terramoto em Lisboa.
Apesar da crença no divino ser, no século XVIII, generalizada, fora a atitude pragmática bem ao estilo do Marquês de Pombal de procurar causas palpáveis e não interpretando o problema pela via espiritual, que fez renascer das cinzas muitos dos vestígios da antiga cidade medieval, descrita nos textos da época como caótica, cujas ruas e becos não obedeciam a qualquer plano prévio. É a Marquês de Pombal que se atribui a célebre frase “Agora enterram-se os mortos e cuidam-se os vivos”. Para além da reformulação da arquitetura, construindo os edifícios todos da mesma altura, é pela mão do Marquês de Pombal, primeiro-ministro do rei dom José, que a escravidão é abolida, passando Portugal a ser o pioneiro no abolicionismo. Também é com ele que se reorganiza o sistema de educação, se inicia a Sismologia enquanto Ciência e se institui a Mesa Real Censória, com o intuito de transferir das mãos da Igreja para o controlo direto do Estado a censura dos livros e publicações consideradas perturbadoras em matéria religiosa, política e civil que dessem entrada em Portugal, função esta que até aqui cabia à Inquisição, aplicando penas pecuniárias e corporais contra os que transgredissem as regras.
Segundo o historiador bracarense Joaquim da Silva Gomes, os anos seguintes ao atentado, de que o rei Dom José fora alvo, foram marcados pelo clima de medo que se instalou em Portugal, fruto das perseguições de Marquês de Pombal ao Clero (especialmente aos Jesuítas) e aos Nobres. Contudo, o respeito de Marquês de Pombal pelo Arcebispo de Braga era notório, como se pode ler no seguinte excerto:” Em todas as ocasiões, que se me presentearem de servir a Vossa Alteza, me empregarei sempre com a mais fiel e gostosa obediência. Deus guarde a Vossa Alteza por muitos, muito felizes e muito dilatados anos[…]. De Vossa alteza, o mais reverente creado – Conde de Oeiras”.
Ainda a propósito da simbologia dos nomes e das crenças nos milagres, foi precisamente a biografia de um grande homem, o conquistador dos mares Fernão de Magalhães, que nos chamou a atenção para o nome atribuído ao estreito que se lhes abriu à frente quando estavam a um passo da sua destruição contra umas rochas e só um milagre os poderia salvar: Estreito de Todos-os-Santos. Para a posteridade, porém, viria a designar-se por Estreito de Magalhães. A primeira travessia constituiu assim um dos feitos mais notáveis do homem, mas Fernão Magalhães acabara por ser morto, apesar de ter combatido corajosamente.
Relembramos aqui o poema “FERNÃO MAGALHÃES” de Fernando Pessoa: No vale clareia uma fogueira./Uma dança sacode a terra inteira.[…] Dançam, nem sabem que a alma ousada/Do morto ainda comanda a armada/ Pulso sem corpo ao leme a guiar/ As naus no resto do fim do espaço:/ Que até ausente soube cercar/A terra inteira com seu abraço./ Violou a Terra. Mas eles não O sabem, e dançam na solidão;/ E sombras disformes e descompostas, / Indo perder-se nos horizontes,/ Galgam do vale pelas encostas/ Dos mudos montes.
O sujeito poético, neste poema, não se refere diretamente aos feitos de Fernão de Magalhães, mas aborda apenas um momento da sua vida, a sua morte. Trata-se da materialização da ideia de Fernando Pessoa - uma vida sem sonho não vale a pena e só no momento da morte é que se podem contabilizar as valias de cada vida. Refere-se a dança, o ritual em “honra” da morte de um marinheiro que merecia ser glorificado, Fernão de Magalhães. Este destemido marinheiro ficou na memória de todos. O seu espírito nobre e heroico, os seus grandes feitos fizeram com que ficasse na História. Afirma-se que Fernão de Magalhães “Violou a Terra” com a sua bravura, determinação e coragem rompeu todas as barreiras, uniu o que estava separado, encheu-se de conhecimento e deu-o ao mundo. A Terra vingou-se da violação, através dos seus "filhos", com a morte do navegador. Mas eles não sabem que aquele que mataram acabou com o seu isolamento geográfico e porque não o sabem mantêm-se na solidão da ignorância.
A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam, diz José Saramago:
Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,/ manhãs e madrugadas em que não precisamos de morrer./ Então sabemos tudo do que foi e será./ […] Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres/como a água, a pedra e a raiz./Cada um de nós é por enquanto a vida./Isso nos baste.

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