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Dia de cumprir a palavra

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Ideias

2014-09-28 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Durante os últimos dias, a sociedade portuguesa tem mantido alguma espetativa em relação a dois acontecimentos: a suspeita de apropriação indevida de dinheiros, por parte de um político, e ainda o processo eleitoral que o maior partido da oposição desencadeou para escolher o candidato a Primeiro-Ministro nas próximas eleições legislativas.

Nestes dois fatos podemos encontrar um paralelo com a ausência dos princípios morais e cívicos que devem pautar a conduta de qualquer figura pública: o primeiro por não revelar publicamente se aquilo que auferiu se enquadrou na legalidade; o segundo, por um deles interromper um percurso do outro, abrindo desta forma um precedente que pode ser imprevisível nos próximos tempos.

Para estes protagonistas, que se julgam não só inigualáveis como inultrapassáveis em princípios e valores, bem como para muitos dos seus seguidores, sugiro-lhes a leitura deste exemplo que a seguir quero recordar.
O caso ocorreu há 82 anos, na freguesia de Manique do Intendente, concelho de Azambuja, e conta-se em poucas palavras:

Felizarda Olinda Morgado era uma mulher jovem e muito bonita, que atraía os cuidados da maior parte da população, principalmente da masculina. Aos 17 anos perdeu-se de amores por um vizinho, Joaquim João Martins, e com ele manteve um relacionamento amoroso, sempre longe dos olhares das respectivas famílias.
Em 1932, quando se encontrava com 23 anos, começaram a surgir, porém, rumores de que Joaquim Martins andava a trair a rapariga com outra mulher, não faltando inclusive quem a identificasse: Alice Assunção Reis Pereira.

Ao saber desta eventual traição, Felizarda Olinda Morgado foi ter com o seu “namorado”, confrontando-o com esta situação. Desesperada, ameaçou Joaquim Martins dizendo-lhe “Se te casares com ela, mato-te!”. (1)
Perante esta intimação, Joaquim Martins reagiu com ponderação, demonstrando toda a certeza neste relacionamento e, como prova disso, decidiu entregar um revólver à jovem, dizendo-lhe “Aí tens esta arma para me matares no dia do meu casamento com a outra. Nunca te servirás dela”, afirmou.

Este gesto de Joaquim Martins acabou por tranquilizar Felizarda Morgado sem, no entanto, a deixar totalmente sossegada.
Quando, aparentemente, ninguém o previa, verificou-se uma reviravolta neste episódio, levando Joaquim Martins a casar com a outra mulher, Alice Pereira.

Assim, no dia 14 de Julho de 1932, foram ao registo civil tratar de todos os procedimentos legais, preparando, uns dias depois, a cerimónia religiosa, que viria a ocorrer no dia 20 de Julho.
Perante a presença de familiares e de amigos do jovem casal, o ato ainda se iniciou, mas viria a ser interrompido de forma abrupta, pois a jovem traída surgiu na cerimónia religiosa e, com um revólver em punho, precisamente aquele que lhe tinha sido entregue por Joaquim Martins, a ele se dirigiu, perante todos os convidados, agarrou-o no braço e gritou-lhe:
- “É assim que cumpres a tua palavra? Pois eu vou cumprir a minha”!

Puxou, seguidamente, do gatilho da arma e disparou três vezes contra o homem, deixando-o caído no chão, a esvair-se em sangue, entre a vida e a morte.
Semanas mais tarde, soube-se que Joaquim Martins acabou por se salvar, tendo Felizarda Morgado ido parar à prisão, por ter cumprido com a sua palavra!

O episódio que aqui foi relatado, revela-nos o quão importante é a palavra e a honra entre as pessoas. Foi assim há 82 anos, tal como é agora: não falta na nossa sociedade quem cumpra a palavra, quem viva com honradez e dignidade, mas ocasionalmente seja intercetado por personagens marcadas pelo oportunismo e pela ambição desmedida, sem olhar a meios para atingir os seus objetivos.

No meio desta sociedade, e por mais estranho que possa parecer, a vida ainda vai sorrindo a muitos que, tal como refere o nosso dicionário, “sabem tirar proveito das circunstâncias em dado momento em benefício de seus interesses”, vencendo aqueles que revelaram caráter e virtualidades. E assim vão levando a vida, mas deixando sempre a questão em aberto: até quando a nossa sociedade vai continuar a premiar este tipo de agentes?

1) Jornal “Correio do Minho”, de 16 de Maio de 1933

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