Correio do Minho

Braga, terça-feira

Dia ao contrário

“Novo tabaco” mata 600 mil crianças por ano

Conta o Leitor

2015-07-10 às 06h00

Escritor

Graça Santos

Há muito tempo atrás, quando jovem, fiz um curso de monitora de colónias de férias infantis e pratiquei-o com algumas crianças e adolescentes em ambiente de montanha. Na filosofia de então, as colónias ocupavam, cuidavam, acompanhavam, divertiam, ensinavam e davam regras às crianças… A convivência social, a higiene, a alimentação, os cuidados com todos e com cada um eram exímios, deixando de “língua de fora” os monitores. Após os dias de integração estarem cumpridos, as lágrimas secas, as dores de barriga caladas, isto é, quando tudo já era rotineiro e normal, aparecia o Dia ao Contrário para desestabilizar e verificar até que ponto tinha havido, ou não, assimilação das vivências e aprendizagens realizadas.

O Dia ao Contrário primava pela ausência de regras: ninguém acordava ninguém, não lembrava a higiene matinal, o lavar as mãos às refeições, a hora das mesmas, nem havia ementa exposta na entrada do refeitório (ou antes uma não-ementa, atroz, com pratos fictícios como:“sopa de moscas”, “lagartixas fritas” e “maçãs podres”). Não havia plano de actividades diárias… Tudo isto e muito mais causava uma grande confusão na cabeça das crianças e jovens. Tanta liberdade, tanta ausência de direcção atordoava-os e desse dia por diante, até ao fim da colónia, acabava a vontade de refilar contra a hora de dormir, a necessidade de lavar os dentes após as refeições, as tarefas a realizar, etc. … porque a vontade de ter regras e de conhecer o destino dava segurança e passou a ser desejável!

Assim esteve o meu dia de hoje: ao contrário.
Comecei o dia bem cedo, com lista de tarefas organizada previamente, ordenada e bem encadeada. Entre as oito e as nove horas tinha agendado ir ao Multibanco resolver três assuntos. Logo ao primeiro a máquina não tinha disponível a função que eu precisava, procurei outro terminal, e outro, e outro, … ufa! Passei para outro assunto, esqueci um dos três e fiquei com outro por resolver. É preciso ir ao balcão, olhei para as horas e corri para o cabeleireiro onde tinha marcação às nove. Cheguei ligeiramente atrasada e sem ter ido ao mercado.

No cabeleireiro havia já outra tarefa em movimento, tive que remarcar a minha vez. Liguei ao meu filho para ir ele ao Banco resolver o problema. Estava a dormir e só se pôs pronto já depois de eu ter saído do cabeleireiro. De novo disponível e jeitosa para continuar a incursão pela minha lista de tarefas, recebo um telefonema do Hospital por causa da antecipação de uma consulta de rotina do meu pai, para daí a 2 horas.

Como ele não estava em casa, nem usa telemóvel (ou antes, tem mas não lhe liga ou deixa-o esquecido em qualquer lugar), parti à sua procura por sítios prováveis. Encontrei-o. Este assunto resolveu-se com outros telefonemas e o saldo do telemóvel a esgotar-se. Segui com o filho para o banco. Outro problema resolvido. Agora era o mercado e mais outras voltas na cidade. Acrescentam-se gastos com o aparcamento da viatura e com o tempo, porque nesta hora o trânsito aumentou. Porém, outra tarefa foi riscada da lista.

Chegada a casa pousei as compras, lavei o carro que tinha sido borrado pelos pássaros num dos estacionamentos e… fui-me arranjar, rapidamente - sem tempo para dar um jeito de pormenor ao meu visual, porque ia ter o Almoço do meu Curso e faziam-se horas de sair. O almoço previsto para o filho ficou por adiantar - ele safou-se com qualquer coisa. Mas, mesmo à saída, entregaram-me um orçamento urgente que ainda levei à agência seguradora (não sem antes reentrar em casa para providenciar uma fotocópia do mesmo).
Vou, cá vou eu feliz, com o stress acalmado, disposta a desfrutar do almoço-convívio. E assim foi. Tudo e todos muito bem.

No regresso, ao final da tarde, passei pelo supermercado para comprar os frescos de última hora, para fazer o snack do meu filho que voaria nessa madrugada para o estrangeiro, onde trabalha. Depois teria de fazer o jantar com o polvo que havia deixado para o almoço, e a malas também estavam por fechar de acordo com os produtos de mão ou de porão (e eram muitos porque se avizinha o Natal, o filho estará ausente do seio familiar e, em consequência, a mãe aprimora os seus aconchegos). Eis que recebo um novo telefonema dum número desconhecido. Era o meu filho a participar que tinha tido um acidente rodoviário, em cadeia, numa via rápida e que estava sem bateria no seu telemóvel, pelo que usou o de outro interveniente no acidente.

Com a pressa de ir ter com ele ao local, esqueci de perguntar se havia feridos. À medida que me aproximava do local do acidente, ao final da tarde, no lusco-fusco de inverno, via as filas intermináveis de trânsito congestionado e ouvia as ambulâncias, o meu coração estremeceu e foi preciso muito sangue frio para agir sem me descontrolar. Naquele momento parecia que a minha vida tinha sido atingida por um tsunami ou uma avalanche de neve que produz, em cadeia, cada vez mais, bolas maiores que nos derrubam. Logo que pude saí da via rápida, estacionei em qualquer lugar e fui a pé, a correr, até ao local. Não, não havia feridos. As ambulâncias estavam a seguir a sua rota normal para o Hospital.

Agora era só esperar a Polícia, acertar os procedimentos com os Seguros. Em cadeia é mais difícil de resolver a quem imputar responsabilidades. Quis telefonar ao nosso agente de seguros, mas como mudei de telemóvel perdi alguns contactos e o seu número tinha de ser um deles! Como tudo estava bem e a ser resolvido, decidi deixar um dos meus telefones ao filho e vim, pessoalmente, à agência seguradora antes do fecho, a fim de tentar obter directrizes formais de como fazer a comunicação do acidente, antes da partida do filho nessa madrugada. E assim foi.

Voltei depois ao local do acidente, mas tive dificuldade em os encontrar, porque os carros haviam sido retirados da via e dispersos por outras bermas onde a policia tomava conta da ocorrência (sem luz, de noite e sem meios a não ser papel e esferográfica), além de que, também todos os envolvidos terem de trocar dados entre si. Nas diversas trocas de informação, escusado será dizê-lo, um dos telemóveis já havia ficado sem saldo, de vez!

E voltamos a casa com três horas de atraso, com a despedida dos avós por fazer e ter o cuidado de não lhes comunicar a ocorrência para não os perturbar, o jantar (adiado do almoço) continuava por fazer, nem havia vontade de o comer. As malas continuavam por organizar, pesar,.. Sobrava um cansaço enorme e diversas preocupações a gerir: levantar às 4 da manhã, ir para o aeroporto, tratar de oficializar a comunicação à seguradora e de tratar do arranjo do carro. Além de ter ainda de informar o pai do facto, como proprietário do veículo, e também ausente, no momento!
Claro que o resto da noite, dada para o descanso, foi passado em claro.

E na madrugada, após ter “despachado” o filho para o aeroporto, a única coisa que via no horizonte era a minha cama, com um sono repousante pela frente … mas, mal parei o carro no estacionamento junto a casa, ao lado, na via rápida, um brutal estrondo me despertava para outro acidente a que fui a primeira pessoa a acorrer. Chamei 112, socorri as vítimas, ajudei a regular o trânsito procedendo, de imediato, às normas de sinalização do sinistro, …
O sono, esse, voltou a desaparecer!

E no final pergunto-me:
- Será mesmo o fim deste dia azado? Será que posso, agora, parar para descansar, baixar a adrenalina que me fez sobreviver sem um colapso nervoso? É, é mesmo? Então que faço agora? Choro ou rio? Tomo este dia como mais um filme cómico, tipo Mr. Been carregado de infelizes coincidências que me divertem (afinal saímos todos sãos e salvos, fora os incómodos e prejuízos materiais) ou choro a bandeiras despregadas por que tudo me saiu ao contrário do meu plano, tão bem elaborado?!
Aqui, senti-me tão atordoada como os miúdos da Colónia de Férias no Dia ao Contrário, mas a tomada de decisão sobre se choro ou rio será, com certeza, o último problema deste meu dia, felizmente!

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