Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Devagar, para ir ao longe

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Ideias

2011-12-30 às 06h00

Margarida Proença

Nesta data é normal olhar para trás, fazer a revisão do que se passou durante o ano. 2011 foi complicado, mesmo muito complicado, mesmo em termos mundiais já que acabou pior do que tinha começado.

Num texto muito recentemente publicado num blogue, um reputado economista chamado Olivier Blanchard, adianta que retirou quatro ensinamentos do que se tem vindo a passar. Em primeiro lugar, os problemas de liquidez não atingem só os bancos, mas também os governos.

Nos mercados de capitais, se os investidores não acreditarem que os governos conseguem de facto, mesmo, vir a receber no futuro suficientes receitas de impostos, então os empréstimos necessários serão feitos a taxas de juro mais elevadas. Um pouco de forma análoga aquela que ocorre connosco quando solicitamos um empréstimo bancário - temos de fazer prova do rendimento atual, e com base nisso e na expectativa de rendimento futuro, o banco empresta a uma taxa mais ou menos favorável.

Quanto mais elevada for a dívida, quanto mais frágil for o nosso contrato de trabalho, quanto mais instável for a situação familiar, pior. Como quanto mais perto estiver a dívida pública da insolvência, mais elevados vão ser os juros que temos de pagar, e mais difícil será convencer potenciais investidores a emprestarem de novo.

Na Europa, os países mais frágeis do ponto de vista da sua estrutura económica foram apanhados por esta “lição” durante 2011, e estão portanto a pagar o preço. Mas o problema não atinge só a Grécia, Irlanda, Portugal, ou a Itália; conforme Blanchard chama a atenção, sem suficiente provisão de liquidez para garantir taxas de juro relativamente baixas, muitos governos estão, e estarão no futuro, expostos.

A segunda lição é que falar, falar, falar apenas, não só é insuficiente, como pode mesmo piorar as coisas. Todos nós gostamos de fazer promessas; aliás, nesta altura do ano isso é o mais comum: vou gastar menos, ter uma alimentação saudável, deixar de fumar, estudar o dobro, trabalhar mais, etc., etc.

E na generalidade, não as cumprimos… Vejam-se as promessas feitas nas campanhas de Passos Coelho e de Alberto João Jardim, onde já vão… E nem a desculpa da troika serve, porque quando as fizeram, em sede e campanha eleitoral conheciam bem os textos dos acordos, já assinados aliás, e os compromissos assumidos.

Na Madeira, ficaram agora a saber o valor real das tais promessas feitas, como aliás nós já bem sabemos aqui pelo “continente”. Mas aquilo a que Blanchard se refere é na verdade a inoperância ou insuficiência das medidas de políticas implementadas de forma incompleta. Os investidores são já muito sensíveis a isso, e antecipam as probabilidades de tal vir a acontecer.

O que se tem vindo a passar na Europa, nas altas instâncias da Comissão Europeia, os constantes avanços e recuos da dupla Merkel-Sarkozy, a incapacidade manifestada de aprofundar politicamente a União Europeia para permitir de facto a sustentabilidade do euro, é muito mau e foi agravando os problemas ao longo de 2011. Todo este clima de incerteza que se foi avolumando ao longo de 2011 justifica, por exemplo, que os depósitos, a um dia, dos bancos da zona euro no Banco Central Europeu tenham vindo a aumentar, tendo pela primeira vez ultrapassado a barreira dos 400.000 milhões de euros esta semana, o que revela uma significativa desconfiança entre as instituições financeiras.

Apetece dizer que precisamos acima de tudo, e urgentemente, de novos líderes - em todo o lado. Estes não. Não mesmo.
A terceira lição a que Blanchard se refere é quase uma bomba. Meteu-se agora na cabeça das pessoas que a consolidação fiscal é tudo, e resolverá por si mesmo todos os problemas, e portanto já que o dente dói, dói mesmo muito, mais vale arrancá-lo de vez. Vamos ser bons alunos e mostrar que conseguimos fazer consolidar e reduzir de forma significativa a dívida pública em dois anos, e depois o céu será azul e as estrelas brilharão e vamos ser todos felizes.

Mas parece que pode são ser essa a história. Na verdade, os investidores, nos mercados financeiros, são um bocado “esquizofrénicos”, como se lhes refere Blanchard. Gostam das notícias da prática efetiva das medidas de austeridade, mas se a consolidação não permitir o crescimento económico, ou for baixo, o risco associado á dívida emitida pelos estados vai aumentar e aí os tais mercados ainda vão gostar muito menos.

Ou seja, baixar a despesa pública de uma forma muito rápida, quando a economia está em recessão ou anda por lá perto, acabará por conduzir a um défice mais elevado. Para além dos investidores não gostarem, parte do desemprego gerado vai transformar-se em desemprego estrutural (que tende a não desaparecer), o capital humano tende a diminuir, e as receitas fiscais futuras também.

Ah, esqueci-me de referir que Blanchard é, nada mais, nada menos o economista chefe do Fundo Monetário Internacional, e que neste contexto se está a referir a resultados preliminares de estudos do FMI. A lição é mais ou menos - devagar se vai ao longe e se evita deitar fora o bebé com a água do banho...

A última lição a que Blanchard se refere cabe-nos que nem uma luva. Argumenta ele que aprendeu que as perceções mudam a realidade, e que depois não há volta atrás. Em Portugal, fomos nós próprios que, durante o ano que agora termina, fomos gritando por todo o lado que a economia estava de rastos; os jornalistas estrangeiros mais do que uma vez chamaram a atenção para este estranho comportamento, e depois admiramo-nos imenso porque os mercados consideraram o investimento em Portugal como sendo de risco elevado.

A Europa, Portugal claramente, nós todos por cá, terminamos 2011 bem pior do que o iniciamos. Paz à sua alma, ainda bem que acaba; mesmo com pouco dinheiro, apetece-me como nunca ir festejar o seu fim.

Para 2012, é melhor ir olhar para as previsões dos diversos horóscopos que se multiplicam na Internet. Parece que o ano será de mudança ao nível dos comportamentos, tornando as pessoas mais compreensivas e tolerantes. Gostei particularmente da previsão de um deles, que me diz que vou conseguir resolver todos os meus problemas, presentes e passados…

Dada a atual complexidade do mundo em que vivemos, prever a evolução da economia para 2012 é também muito difícil. O mercado de trabalho é cada vez mais global, uma tendência que virá cada vez mais a reforçar-se para qualificações mais elevadas.

Como sempre ocorreu aliás, ao longo da história, os trabalhadores tendem a deslocar-se para onde as remunerações, são mais elevadas. Mas a emigração só resolve problemas individuais, não os do país, e nessa medida não compete de forma alguma, a qualquer governo, a sua recomendação. O desemprego tenderá a manter-se ou mesmo a aumentar ao longo de 2012; os custos com a saúde, a educação, a utilidades públicas como a eletricidade, a água e o gás e os transportes também aumentarão.

A trajetória de privatização vai ser prosseguida, com maior ou menor sucesso. As exportações dependerão, fundamentalmente, da evolução da economia europeia, e já agora do que se passar aqui bem ao lado na Espanha e na Alemanha. No fundo, grande parte do que se está a passar agora já era de esperar; o sistema de bem-estar a que nos habituamos, com a saúde e a educação pagas e ao pé da porta, com reformas a 100% ou quase, férias pagas e horários de trabalho razoáveis, justifica-se e é excelente, mas não é sustentável a longo prazo, tanto mais num mundo que é cada vez mais competitivo, com a China a tornar-se rapidamente na primeira potência mundial.

Há portanto razões para preocupação neste virar de ano. Apesar de tudo, as lições que Blanchard diz que retirou de 2011, principalmente a terceira, fazem crer que nas instituições supranacionais como o FMI, até mesmo nas afirmações mais recentes de A. Merkel, alguma coisa está a mudar. Em favor da necessidade objetiva do crescimento económico, da cooperação, e da solidariedade.

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