Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Deus não faz milagres

Um pacote de bolachas

Conta o Leitor

2017-07-02 às 06h00

Redacção

David Lima

A minha cunhada é que veio com aquela ideia de irmos, no domingo seguinte, a Vigo.
- Ok, tudo bem…
- Mas é para ir cedo, não é como das outras vezes, saímos daqui tarde e depois o dia não rende.
- O que é cedo? Dez horas? Pois sim, combinado, às dez!
Só umas horas depois me lembrei que não podia passar sem ir à missa. Eu ia sempre à Eucaristia das onze, ali ao lado, na Quinta da Capela. E foi precisamente na vitrina da Igreja de Santo Adrião que vi, no horário das celebrações da cidade, que podia ir a São Vicente, ou a São Vítor, cedinho, a tempo de partir na hora combinada. E, no domingo, lá fui a uma dessas igrejas, no centro da cidade.

Já na Igreja, eu olhava para aquele sacerdote e parecia-me mesmo estar a ver um famoso e excelente ator, (recentemente falecido), que, na época, aparecia amiúde no canal público, com as suas comédias bem humoradas. Mas isso é um detalhe que não interessa para esta narrativa.
O que importa é que entretanto chega a altura em que o padre lê o Evangelho, que era o episódio da multiplicação dos pães, talvez Mat, 14-13 ou Lc, 9-10… Jesus, com cinco pães e dois peixes, alimentou uma multidão de mais de mil pessoas.
E o que é que se segue, o que é? A seguir vem o quê? A homilia, claro.
E qual foi a dissertação, a catequese, do presbítero? Que aquilo não se deveria chamar “milagre” da multiplicação, que deveria ser simplesmente “distribuição” dos pães… Porque Jesus não fez milagres, Jesus não podia fazer milagres. Que Deus não faz milagres, Deus criou as leis da física e “nem Ele” as pode contrariar !!!
Conheço uma pessoa que uma vez disse que “Deus às vezes sabe o que faz”! Será que, às vezes, não sabe? Facto é que nós estamos sempre a aprender… E, eis-me aqui, diante de um representante de Cristo, inflado de sapiência oca, com quem aprendo uma coisa nova, dita do alto do púlpito: DEUS NÃO FAZ MILAGRES! Será que os santos fazem? (Os de ao pé da porta já sabemos que não…) Mas será que alguma vez algum santo fez algum milagre? Se sim, o Senhor me perdoe!, devem ser mais que Deus. Parece que Deus não… Não é assim tão omnipotente.

Pois eu nem queria acreditar no que ouvia! Então Jesus não transformou água em vinho? (Todos sabemos que até as videiras fazem isso)! Jesus não caminhou sobre as águas? Jesus não curou a orelha de Malco, que Simão Pedro cortou com a espada? Não terá ressuscitado a Lázaro? Jesus não expulsou demónios? Mas há vozes da Igreja a dizer que o demónio não existe! Os tais, que sabem mais que Jesus e que os evangelistas.
Estaria aquele sacerdote a querer dizer que os evangelhos são um rol de mentiras, patranhas e falsidades? Mas por que será que, percorrendo a hagiografia, todos os santos o confirmam? Estariam enganados ou eram uns ignorantes de primeira apanha, comparados com os modernaços doutores servidores do altar dos nossos dias?
Já não bastava que muitos padres contradigam, neguem e corrijam, todos os dias, com a sua infinda sapiência oca, o que diz a Sagrada Escritura, “que não é bem assim, que é simbólico, que não podemos levar à letra…” (Parece que não devemos dar muito crédito ao que, de fio a pavio, “diz” a Bíblia. Afinal o Espírito Santo não inspirou os autores? Isso não é dogma? Se inspirou, parece que não inspirou assim tão bem…). Perpasse quem quiser os olhos pela hagiografia e é ver; nunca os canonizados contrariaram os textos sagrados… (Quiçá estejam enganados, deviam ter tirado mais mestrados). Bendito seja São João Maria Vianey!
Mas não foi aos santos, a muitos deles, a quem Jesus aparecia em visões, aparições e êxtases, que foi revelado, (há quinhentos anos, há cem anos…), que no fim dos tempos os padres deixariam de usar hábito e seriam quase todos fúteis e frívolos, incapazes de ensinar e de corrigir os fiéis e só interessados no dinheiro e no comodismo? (É ver na net, “profecias de santos e místicos”).

Mas onde é que eu ia? Onde é que eu estava? Ah, pois, na igreja, na missa. Ora, eu é que não podia aturar mais aquilo, dislates e disparates… Então levantei-me e, nave central do templo abaixo, toca a andar… A abanar a cabeça, em sinal de contestação.
Mas sem missa não havia eu de ficar! E, dado que na Capela de São João da Ponte estaria para se iniciar outra celebração eucarística, para ali me dirigi… Cheguei mesmo a tempo do início! E chega aquele momento em que o celebrante lê aquele trecho do evangelho, “a multiplicação dos pães”.
E a seguir, o que é, o que é? A seguir vem o quê? Claro, a homilia.
E o padre Mota (paz à sua alma!) ocupou toda a prédica catequética a sublinhar, a defender, a corroborar, que Jesus fez um grande milagre. Que Cristo, o filho de Deus vivo, fez muitos milagres.
É verdade! Perdoai-me, Senhor, por dizer a verdade, mas em dois locais de culto a poucas centenas de metros um do outro, dois catolicismos totalmente opostos!

Isto faz-me lembrar aquele bispo, que, durante alguns anos, aparecia em todos os programas da televisão e em tudo quanto era jornal e revista. Numa entrevista televisiva, a Fátima Campos Ferreira pergunta-lhe se acreditava que Nossa Senhora terá aparecido em Fátima, aos pastorinhos… E ele respondeu, prontamente:
- Não, não acredito nas aparições! Mas isso não é um dogma da Igreja. (Se fosse dogma, ele acreditava, certamente. Se fosse dogma que João Batista era Deus, ele já acreditava!) E na mesma entrevista sublinhou, posteriormente e bem sublinhado, que iria, dali a um mês, presidir à celebração da peregrinação anual dos emigrantes, na Cova da Iria! (Agora começo a perceber porque é que, em muitas e muitas igrejas, há muitas mulheres (e alguns homens) a rezar o terço, mas o pároco lá do sítio, nunca! Jamais!)
Ora, passados apenas uns quinze dias, ia eu para a escola e a ouvir rádio enquanto conduzia. E eis que o mesmo bispo está a ser entrevistado. E eis a mesma pergunta, se acreditava nas aparições da Cova da Iria. E eis a resposta pronta do prelado, pasme-se!:
- Claro que acredito nas aparições! Qualquer católico acredita! Qualquer católico deve acreditar!
Acho que esse purpurado nunca mais apareceu na televisão.
- E tu vê lá onde é que vais deixar de aparecer! É que criticar os “poluíticos” toda a gente pode... Mas os impolutos, nem com verdades…

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