Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Despedida

Um futuro europeu sustentável

Conta o Leitor

2011-08-22 às 06h00

Escritor

Por Mário Viana

A pastelaria ficava no gaveto dum prédio antigo e tinha vista para o jardim municipal, através da vidraça larga. Sentado a uma mesa, Miguel podia ver um campo colorido de flores, no centro do qual a água dum chafariz caía, brilhando ao sol.
Era uma zona pedonal da cidade, onde reinava, àquela hora, uma grande tranquilidade, que o fez sentir-se relaxado, até porque chegara cedo para o encontro. Pediu uma bebida à bonita empregada, que lhe sorriu, e deteve-se a apreciar as pessoas que passavam lá fora e os prédios ensolarados que enquadravam o espaço. Depois, fixou-se distraidamente na muralha de granito que delimitava o jardim a poente, encimada por ameias que lhe faziam lembrar os dentes duma serra gigante.
À hora combinada, sem que a pressentisse, ela chegou. Miguel sentiu a fragrância do seu perfume, o breve esvoaçar do seu negro cabelo liso, a maciez dos seus lábios róseos, mal pressentida num fugaz beijo tíbio. Estranhou.
- Há novidade?
Ela não respondeu logo e ocupou-se a chamar a atenção da empregada, ganhando tempo e coragem, resguardando-se daquele olhar fixo que procurava os seus olhos. A empregada acercou-se, tomou nota, lançou um olhar breve a Miguel, afastou-se. Depois, Sofia voltou-se para ele e, a medo, pondo nos lábios o esboço dum sorriso, tentou suavizar o impacto do que lhe queria dizer.
- Temos que falar, Miguel…
Alarmou-se. No silêncio que se seguiu, o relógio duma igreja bateu horas, que plangeram na súbita angústia da tarde. Os pombos esvoaçaram, assustados.
Fixou-a, com o olhar do doente a quem diagnosticaram uma doença incurável, e que, apesar dos rodeios com que o informam, já suspeitou de tudo. E, num fio de voz:
- Que se passa, Sofia?
Ela, em voz baixa, com modos suaves, mas sem perder o rumo, como os barcos da infância que Miguel via largar da barra em direcção ao mar, discorreu mansamente largos minutos, arrancando uma a uma as amarras que até ali os prendiam. Em breve um mar de dor o inundava, o submergia. Sentia o sal na boca seca, um nó que subia na garganta, um mar de lágrimas por detrás dos olhos, à beira de rebentar. Mas conteve-se, continuou calado, olhando pela vidraça o jardim que já não via. Era agora uma criança a quem os encontrões da multidão tivessem separado dos pais, incapaz de reagir, de gritar.
- Podemos ser só amigos, se quiseres… - rematou Sofia.
Deixara de a ouvir. Deu-se vagamente conta de que ela se despedia, se levantava, saía da sua vida, desaparecia no dobrar da esquina, sem olhar para trás. O sol, agora oblíquo, dourava os canteiros, onde a brisa punha breves acenos nas flores. De cotovelos na mesa, ele ficou a olhar no vazio, enquanto a tarde se escoava. Passava gente apressada na rua, saíram os últimos clientes do café, e ele ali, à deriva no mar dos seus pensamentos, em busca dum porto para se ancorar, duma rocha para se agarrar. E, de repente, quando a luz coada do entardecer já se apagara, e o crepúsculo descera sobre a cidade, Miguel entreviu ao longe a luz trémula e indecisa dum farol, quando a empregada se acercou e mansamente lhe disse:
- Desculpe, está na hora de fechar…
Ele ergueu os olhos, pareceu voltar ali. E ela, olhando-o nos olhos com uma expressão de ternura, de quem adivinhara tudo, acrescentou, baixinho:
- Mas pode voltar amanhã, se quiser…

Deixa o teu comentário

Últimas Conta o Leitor

31 Agosto 2018

Ingratidão

30 Agosto 2018

Humanum Amare Est

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.