Correio do Minho

Braga, quarta-feira

- +

Desmistificar o povo de “brandos costumes”!

Interrupção letiva versus interrupção de vidas! Nós não vamos de férias!

Desmistificar o povo de “brandos costumes”!

Ideias

2020-12-06 às 06h00

Artur Coimbra Artur Coimbra

Findei recentemente a proveitosa leitura de uma obra bem interessante e desmistificadora, com o título “Portugal à Lei da Bala” e o subtítulo “Terrorismo e violência política no século XX”, da autoria dos jornalistas António Luís Marinho e Mário Carneiro, que se têm dedicado em conjunto a investigações sobre temas do Portugal recente, concretamente os anos de 1974 (O ano que começou em Abril) e 1975 (O ano que terminou em Novembro). E o mínimo que se pode afirmar, desde logo, é que é uma falácia a expressão segundo a qual somos um povo de “brandos costumes”. A sentença terá sido cunhada pelo ditador António de Oliveira Salazar nos anos de 1930, numa altura em que escapou a um atentado contra a sua vida levado a cabo por conspiradores e nunca mais deixou de ser utilizada como a exaltação de uma forma de ser português, que não corresponde ao que a História Contemporânea não deixa de evidenciar.
No fundo, estamos em presença de um slogan da propaganda da ditadura salazarista, que pretendia fazer crer, como alguns sustentam, que, ao contrário de outros países, em Portugal tudo se passava sem violência, num clima de amabilidade e respeito generalizado pelo próximo, sem os conflitos e perturbações que ocorriam noutros lados, com níveis de violência e número de mortos avassaladores.
Todavia, ao longo do século XX, Portugal conheceu períodos de grande violência política, incluindo várias acções terroristas, atentados bombistas, inúmeros assassinatos. Lembremos que em 1 de Fevereiro de 1908 foi assassinado um rei (D. Carlos) e o príncipe herdeiro D. Luís Filipe. Em 14 de Dezembro de 1918 foi assassinado o presidente da República, Sidónio Pais. Em 1921, na famigerada “noite sangrenta”, foi exterminado o chefe do governo António Granjo e bem assim os heróis do 5 de Outubro de 1910 Machado dos Santos e Carlos da Maia, assassinados por marinheiros e soldados da GNR (total de cinco mortos). Em 1961 foi assassinado o General Humberto Delgado, que havia sido candidato oposicionista à Presidência da República em 1958, e para muitos foi o inequívoco vencedor do fraudulento sufrágio, vitimado numa conhecida acção da PIDE.
Os autores dividem a cronologia do século pelos regimes que foram vigorando, indicando vicissitudes, mortos e feridos, recorrendo à imprensa de cada época e a bibliografia que se foi editando sobre os episódios mais sangrentos.
Até 1910 vigorou ainda a Monarquia secular e registaram-se 22 mortos em acções de violência política, dos quais 13 (e uma centena de feridos) tiveram lugar em incidentes aquando das eleições de 5 de Abril de 1908, ano em que se havia registado o regicídio.
A Primeira República (1910-1926) foi talvez o período mais violento da história do século XX português. Nesses 16 anos apenas, a turbulência política atingiu o impensável: 45 governos, 8 presidentes da República, 7 parlamentos. Realizaram-se 7 eleições legislativas, 8 presidenciais e 5 eleições municipais.
Contudo, mais grave foi o incrível número de convulsões políticas e sociais, atentados bombistas, golpes e crimes políticos, de que resultaram, no mínimo, 450 mortos. 76 mortos (15 militares e 61 civis) logo no dia 5 de Outubro, na implantação do regime; 56 nas incursões monárquicas; 101 em 14 de Maio de 1915, na revolução que derrubou a ditadura de Pimenta de Castro; 100 mortos, em 8 de Dezembro de 1917, na revolução de Sidónio Pais (que seria assassinado um ano depois), entre outros.
Ao longo da Ditadura e do Estado Novo (1926-1974), pairou também pelo país e pelas colónias o cheiro a morte e a violência política, sobretudo policial. E ignoramos em rigor quantos foram os portugueses assassinados nos calabouços da PIDE, os mortos pela GNR e PSP, um pouco por todo o país, nesse período de violência política do regime e contra o regime.
Sabe-se que mais de 200 portugueses morreram em contexto de violência política. 120 foram mortos logo em 1927, nas primeiras revoltas contra a ditadura, no Porto (70) e em Lisboa (50). Na revolta da Marinha Grande, em 1936, morreram 10 pessoas. No campo de concentração do Tarrafal morreram 36 oposicionistas, pelo menos. Às mãos da PIDE morreram dezenas de oposicionistas, desde Humberto Delgado a José Dias Coelho, Ribeiro dos Santos e Alexandre Dinis. Gente do PCP ou da extrema esquerda. Catarina Eufémia foi assassinada pela GNR em 1954.
E não esquecendo que o regime ordenou que muitos milhares de jovens portugueses fossem servir de carne para canhão na guerra política das colónias (Angola, Moçambique e Guiné-Bissau), a partir de 1961, onde perderam a vida muito perto de 9 mil militares, sem falar dos estropiados, feridos com gravidade, estressados de guerra, etc.
Nos anos 70, movimentos políticos como a LUAR (Liga de Unidade e Acção Revolucionária) ou a ARA (Acção Revolucionária Armada), ligada ao PCP, desenvolveram acções violentas contra o regime.
E o período após o 25 de Abril, também tem a sua contabilidade tétrica relacionada com o terrorismo e a violência política, de que resultou a morte de, pelo menos, mais de três dezenas de pessoas. Logo em 25 de Abril, na revolução dos cravos e alegadamente sem sangue, a PIDE matou meia dúzia de inocentes, num indesculpável acto de desespero, que nunca foi devidamente julgado e condenado. No Verão Quente de 1975, de que passaram os 45 anos, foram assassinados em actos terroristas mais de uma dezena de pessoas, entre as quais o famoso Padre Max. Foi um período fértil em violência, com destaque para os atentados bombistas perpetrados por movimentos ligados à extrema direita (ELP, sobretudo).
Nos anos de 1980, as Forças Populares 25 de Abril (FP25), ligadas a Otelo Saraiva de Carvalho e à extrema esquerda, em atentados a tiro ou à bomba, fizeram, pelo menos, 13 mortos e assaltos que renderam perto de 300 mil contos, o que ultrapassará os actuais 8 milhões de euros.
Contabilizando, por baixo, a violência política e o terrorismo em Portugal no século XX resultaram em mais de um milhar de mortos, não contando com os que resultaram da guerra colonial e os que morreram nos calabouços da polícia política, de que se desconhece o número exacto.
Pelas repercussões políticas e sociais daí resultantes, cai pela base a utopia de um povo de “brandos costumes”!

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.

Bem-vindo ao Correio do Minho
Permita anúncios no nosso website

Parece que está a utilizar um bloqueador de anúncios.
Utilizamos a publicidade para ajudar a financiar o nosso website.

Permitir anúncios na Antena Minho