Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Desigualdades no Mundo tem vindo a aumentar!

A vida não é um cliché

Ideias

2018-03-03 às 06h00

António Ferraz

As desigualdades económicas e sociais à escala mundial têm vindo a aumentar com a globalização (neoliberal), sobretudo desde a década de 1980. Por sua vez, as previsões apontam para o seu agravamento pelo menos até 2050, se entretanto nada for feito.
Uma explicação de base para o aumento das desigualdades económicas e sociais no mundo está na globalização capitalista neoliberal e caracterizada pela interacção entre factores tecnológicos, económicos e políticos: desregulação dos mercados produtivos e financeiros; desvalorização laboral; enfraquecimento do Estado Social; redução dos gastos públicos nos sectores da educação e da saúde; intensificação da acumulação do capital; adopção de sistemas fiscais favorecedores dos mais ricos.
Neste último caso, será interessante notar que a progressividade dos sistemas fiscais promove em geral uma melhor distribuição dos rendimentos na população, porém, quanto mais poder tiverem os muito ricos, mais bem-sucedidos eles serão no seu objectivo de estabelecimento de políticas fiscais que os não penalize. Ora, esse fenómeno das desigualdades começa a preocupar mesmo os líderes mundiais dos países mais poderosos que se reúnem anualmente em Davos (Suíça) no Fórum Económico Mundial. Porquê? Porque o aumento significativo e sistemático das desigualdades ameaça com instabilidade e convulsões sociais todo o sistema capitalista neoliberal e global mundialmente.
As desigualdades económicas e sociais aumentaram na quase totalidade das regiões do mundo, embora a ritmos diversos, é o que indica um recente relatório sobre a desigualdade elaborado por um grupo de investigadores mundiais e liderado pelo economista de renome francês Thomas Piketty. No relatório se procede, por um lado, a comparação sobre a distribuição da riqueza à escala global e, por outro, as previsões quanto a sua evolução futura. Aponta-se mesmo para um forte aumento das desigualdades nos Estados Unidos em resultado da queda dos rendimentos das classes mais baixas, da desigualdade considerável na área da educação e de uma tributação cada vez menos progressiva (veja-se a actual política da Administração norte-americana de D. Trump). Mas o aumento das desigualdades também flagela tanto a China como a Rússia, fruto em grande medida, da implementação de políticas capitalistas neoliberais a partir da década de 1990 (com a queda do Muro de Berlim). Assim, entre 1980 e 2016, a parte da riqueza nacional na posse das 10% de pessoas mais ricas passou de 21% para 46% na Rússia e de 27% para 41% na China. Nos Estados Unidos e Canadá este valor passou de 34% para 47%, enquanto na Europa foi registado um aumento mais moderado de 33% para 37%.
Ainda, no Médio Oriente (61% em 2016), na África subsariana (54% em 2016) e na América Latina (55% em 2016) as desigualdades embora permaneçam estáveis situam-se a níveis muito elevados.
Por sua vez, algumas das projecções feitas (dados de 2017) apontam para que 82% da riqueza produzida a nível mundial pertencia aos 1% mais ricos da população mundial.
No relatório é ainda referido que embora a metade mais pobre da população mundial tenha visto o seu rendimento subir nas últimas três décadas (os 50% mais pobres detiveram apenas 12% do aumento de rendimento gerado no mundo) devido principalmente ao crescimento económico acelerado na China e na Índia), a verdade é que uma elite, 1% da população mundial apoderou-se de um pedaço bem maior do aumento do rendimento mundial, ou seja, mais 27%.
Em conclusão, com a globalização do capitalismo neoliberal verificou-se que tem vindo a aumentar o fosso entre os mais ricos e os mais pobres a nível mundial, regional e nacional. Sendo assim, urge o combate a esse inaceitável desequilíbrio estrutural mundial, o que passa por uma leitura crítica dessa globalização capitalista neoliberal. Entre as possíveis sugestões de medidas a tomar pelas governações visando corrigir as assimetrias económicas e sociais no mundo, destacamos:
(1) promoção de um profundo debate mundial sobre o tema das desigualdades;
(2) criação de condições para um crescimento económico sustentável, com aumentos significativos da produção e que sejam ecologicamente correctos;
(3) geração de mais e novos empregos;
(4) adoptação de sistemas fiscais mais justos, com um maior grau de progressividade e mais redistribuidora dos rendimentos, em particular, elevando a carga tributária sobre os rendimentos e as riquezas dos mais ricos;
(5) realização políticas públicas visando o acesso dos mais pobres à educação e à saúde de qualidade,
(6) e, porque não, a representação dos trabalhadores nos conselhos de administração das empresas públicas e priva- das.

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