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Desfolhando um livro chamado Abril…

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Desfolhando um livro chamado Abril…

Ideias

2020-04-24 às 06h00

Isabel Estrada Carvalhais Isabel Estrada Carvalhais

Abrir abril. Desfolhar os seus dias. Chegar à página vigésima quinta. Saborear a leitura do seu poema. E depois, recomeçar. Ano após ano. Em cada ano, encontrar um sentido diferente para o mesmo poema.

A minha professora de português do sétimo ano era uma primavera andante, de cabelos louros entregues a uma alegre rebeldia de caracóis, e de olhos cinza, talvez esverdeados, talvez azulados, o tempo já me atraiçoa a memória para o detalhe. Dizia ela que um bom poema renasce sempre que o lemos, ganha novos sentidos conforme o estado de alma do leitor, e não raras vezes desperta contradições e discórdias entre (e dentro de, acrescentaria eu) quem o lê. Ao longo dos anos, muitas vezes me tenho perguntado, que pensam os poetas daquilo que dizemos sobre os seus poemas? Pensarão que as nossas interpretações fazem justiça à sua intenção inicial? Riem-se com desdém e impaciência perante o que lhes parecem leituras completamente ao lado? Limitar-se-ão a disfarçar o seu desencanto com a nossa completa falta de capacidade para perceber o que realmente nos querem transmitir? Ou pelo contrário, ficam satisfeitos ao perceber que só eles, e apenas eles, permanecem os guardiões do sentido pleno dos seus poemas?

O vinte cinco de abril é um verdadeiro poema: renascido e revivido a cada ano e sempre confrontado com diferentes leituras, reacendendo paixões e desamores. De facto, não me recordo de nenhum ano em que o 25 de abril não tenha estado envolto em algum tipo de questão. Por se comemorar assim ou assado, aqui ou ali, com este e não aquele… Para mim, esta agitação que todos os anos anima a celebração do 25 de abril, faz parte da beleza, da força, da magia deste dia em que nascemos de novo há 46 anos. E tal como um autêntico poema que desperta contínuas interpretações que nunca suplantam a obra, também o 25 de abril se sobrepõe sempre ao que dele digamos ou pensemos. É certo que este ano teremos um 25 de abril algo diferente, mais em casa, menos nas ruas, mais nas redes sociais, menos nos espaços públicos. Contudo, não esqueçamos que os espaços onde estaremos são como que os olhares que lançamos sobre um mesmo poema, sendo que no fim de contas, é o poema que importa.

Naturalmente que a cada ano que passa, novas interrogações acompanham o 25 de abril, porque outro aspeto fascinante deste evento da nossa História coletiva é a sua absoluta contemporaneidade. Ou seja, um evento perdido no tempo, torna-se pacífico, pela simples razão de que não desperta já nada em nós que mereça reparo, reflexão. É um evento que se tornou numa ‘boa pessoa’ depois de morto. Mas um evento que é contemporâneo, significa que está vivo, que nos acompanha e que acompanha aquelas que são as nossas questões e preocupações de hoje. Assim, vejo como normal que no futuro haja novas e diferentes formas de celebrar o 25 de abril, a par das outras que já conhecemos, e que questões hoje prementes como a liberdade e a privacidade vs. a segurança, sejam levantadas a propósito das comemorações. Tudo isso, em minha opinião, confirma a atualidade de abril, e confirma que este é um livro de leitura eterna, com uma página muito especial onde um poema se mostra, para nos inquietar as mentes e inflamar os corações, com a irreverência de uma constante juventude. Abril sempre.

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