Correio do Minho

Braga, sábado

Descida dos preços pode agravar a crise. Como entender?

Consumidores mais habilitados a comparar comissões bancárias a partir de 1 de outubro

Ideias

2013-04-27 às 06h00

António Ferraz

No passado geralmente um dos problemas com que as economias se depararam em determinados períodos foi o da subida persistente do nível dos preços. Porém, a inflação tem custos económicos e sociais e, por isso, deve ser combatida. Por exemplo ela leva a perda de poder de compra dos rendimentos fixos, nomeadamente dos salários, torna menos atractiva a realização de poupanças pelas pessoas (caso não haja correcção das taxas de juro), e menos poupança significa menos recursos disponíveis para o investimento e menos investimento significa menos crescimento económico. Por fim, os nossos produtos (exportações) tornam-se relativamente mais caros para o exterior, ou seja, perdemos competitividade preço externa.

No actual contexto de forte crise económica na Europa o problema é outro e ainda mais ameaçador pelos seus efeitos perniciosos para a economia e a sociedade que é o risco da descida prolongada dos preços, aquilo que em “economês” se designa por deflação.
Informação estatística do INE de Lisboa sobre a evolução recente dos preços em Portugal aponta para uma variação dos preços no consumidor em Fevereiro passado e em termos homólogos (taxa de inflação relativamente ao mesmo mês do ano anterior) de zero por cento. Por sua vez, a variação média dos preços (resultado da média das taxas homólogas dos últimos 12 meses) permanece com uma tendência de baixa, 2,5 % (contra os 2,3% em Janeiro).

Esta tendência recente de baixa dos preços não resulta da descida acentuada dos preços internacionais dos bens alimentares e petrolíferos como aconteceu em 2009. A sua raiz prende-se fundamentalmente com a forte recessão económica da economia portuguesa (descida sobre descida do PIB e aumento acentuado no desemprego) que tem vindo a levar a sucessivas e acentuadas quebras na procura agregada interna. A este facto deve-se adicionar a política seguida pela governação de desvalorização do trabalho, ou seja, da adopção de uma política de redução de custos não centrada no aumento da produtividade mas sim nos baixos salários.

A continuar esta tendência de descida dos preços (deflação) num quadro de grave crise económica torna-se cada vez mais problemática a recuperação da actividade económica do país.
Mas quais são em resumo as principais ameaças da deflação?
1. Altera a distribuição do rendimento de forma grave, beneficiando quem possui rendimentos estáveis e prejudicando a parte crescente da população activa (veja-se o crescimento do trabalho temporário) que possuem rendimentos precários.
2. Com a deflação os consumidores tendem a adiar a compra de bens e serviços e os investidores a aquisição de bens de capital na mira de que no futuro os preços sejam menores. Tudo isso implica no presente a uma acentuada redução da procura interna quando a economia está em dificuldades e portanto o esperado seria que acontecesse o contrário. Com a deflação corre-se assim o risco de se entrar numa espiral recessiva (a crise se manterá por muito tempo e com efeitos cada vez mais gravosos no nível de vida das pessoas e no aumento do desemprego).
3. Por fim, uma das consequências mais nefastas da descida prolongada dos preços é o aumento real das dívidas, como sejam os casos, do crédito à habitação ou as dívidas das empresas aos bancos, devido a baixa dos preços nominais, enquanto o valor total da dívida permanece constante. Assim, a deflação redistribui o rendimento em desfavor das famílias ou empresas endividadas a favor do sistema bancário, especialmente.

Refira-se por último, que o risco de recessão com deflação é mais evidente atendendo a que fazemos parte da União Económica e Monetária Europeia (UEM) e, por conseguinte, deixamos de ter total autonomia em termos de política monetária (existência de uma moeda única, o Euro e de uma política monetária do BCE, comum) e são fortes as limitações da política orçamental quer por força do Pacto de Estabilidade e Crescimento definido pelo Tratado de Maastricht quer pelos actuais condicionalismos resultantes dos processos de resgate em vigor.

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