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Derrotar o populismo

Junho: mês dos santos populares: a festa restaura a vida...

Ideias Políticas

2019-04-09 às 06h00

Pedro Sousa

Com a perspectiva adequada, o Brexit poderia ser um formidável instrumento de campanha eleitoral contra os soberanistas. Se, por um momento, colocarmos de lado o trágico caso do primeiro divórcio na história da União Europeia, o Brexit, se devidamente explorado, poderia tornar-se um grande argumento para o ressurgimento do continente europeu.
Há poucos dias atrás, o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Alemanha, Michael Roth, sintetizou perfeitamente o teatro absurdo que estamos a viver actualmente, denunciando, com todas as letras, o "espectáculo de merda" proporcionado por políticos "nascidos com uma colher de prata na boca, que frequentaram as melhores escolas e universidades”, e que, dificilmente, estarão entre os que "sofrerão mais com as consequências do referendo mais insano da história”.

Nas actuais circunstâncias, a União Europeia é o único interlocutor que está a dar uma imagem adulta, como os próprios ingleses gostam de dizer. Factual é que a UE mostrou uma forte unidade ao rejeitar todas as tentativas de Theresa May de abrir brechas junto dos principais países, como a Alemanha, a fim de obter melhores condições para a saída. Na verdade, o triste espectáculo do Brexit e a forma como um país, sem uma estratégia consolidada, se deixou mergulhar no pesadelo do adeus à UE, deveria ser um argumento extraordinário em favor dos europeístas, reforçando a nota de que os atalhos populistas não levam a lugar nenhum.
Em Itália, inúmeros representantes da Liga Norte, de Matteo Salvini, e do Movimento Cinco Estrelas, fundado por Beppe Grillo e ora liderado por Luigi Di Maio, inicialmente aplaudiram e animaram-se com a ideia do Brexit, mas, hoje, remeteram-se a uma espécie de silêncio envergonhado. Talvez seja interessante recordar-lhes, uma e outra vez, que, actualmente, e fruto da deriva populista do Brexit, o glorioso Reino Unido se apresenta como uma coisa intermédia, indistinta, entre um gigantesco fundo de investimento e uma ilha Caimão no meio do Atlântico!

Outro elemento fundamental para os europeístas é que, apesar de a questão dos migrantes e refugiados continuar a ser uma preocupação central nos dias de hoje, não houve, não se verificou, nos últimos anos, o apocalipse, o caos que os soberanistas haviam anunciado. Hoje em dia, já ninguém pode continuar a usar o argumento das "ondas de imigrantes" prestes a invadir a Europa sem parecer patético.
Tanto assim é que, na Alemanha, o AFD, um partido que assumiu posições pró extrema direita e que viu crescer a sua base social de apoio graças à famosa política de "portas abertas" de Angela Merkel, está, hoje, silenciosa mas constantemente, a perder votos. Em alguns estados cruciais, sobretudo no leste do país, onde as eleições se realizaram entre setembro e outubro do ano passado, o AFD perdeu entre dois e cinco por cento, ao passo que os Verdes, o partido mais pró-europeu da Alemanha, vê, dia após dia, crescer o seu número de apoiantes.

Por outro lado, a ideia de que Matteo Salvini e a sua Liga Norte, o AFD e outros partidos da direita populista possam coligar-se após as eleições europeias continua a ser difícil de acreditar. Alice Weidel, líder do AFD, disse recentemente numa entrevista que a Liga Norte é "escrava" do Movimento das Cinco Estrelas e lamentou que a Itália esteja a ultrapassar "uma situação desoladora" por causa da fragilidade dos seus bancos e da grandeza da sua dívida pública. Sobre os imigrantes, qualquer tentativa da Itália de encontrar apoio dos seus pares soberanistas encontrou as portas bem fechadas.

Convém também lembrar que a relação entre populistas e popularidade em um assunto tão importante quanto a austeridade é, convenhamos, inversamente proporcional, dependendo se estamos a falar da Alemanha ou da Itália, da Holanda ou da Grécia, da Dinamarca ou da Espanha. Em suma, dependendo se estamos perante países do norte ou do sul. O AFD, por exemplo, costuma atacar a Itália e as suas contas públicas, que diz não contribuírem para ganhar votos. Em direcção diametralmente oposta, a Liga Norte sente-se bem a criticar a austeridade que a Alemanha impõe à Itália.
Seria importante que estes europeus falassem destas incongruências na próxima campanha eleitoral do dia 26 de Maio. Caso não o façam, como ainda não o fizeram, ficará bem claro que os populistas vivem apenas para destruir e que, na verdade, eles não têm nenhuma ideia do que propor em troca de tudo o que sistematicamente destroem.

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