Correio do Minho

Braga, sábado

Depois não se queixem!

Investir em obrigações: o que devo saber?

Ideias

2011-04-05 às 06h00

Jorge Cruz

Quem o garante agora é o presidente da República, numa mensagem postada há dias na sua página do Facebook na qual também aproveitou para sensibilizar os partidos para a verdadeira situação do país.
“Na campanha eleitoral que se irá iniciar em breve todos os partidos deverão ter bem presente a situação em que nos encontramos”, alertou o PR antes de apelar a “uma campanha de verdade e de rigor” em que “ninguém deve prometer aquilo que não poderá ser cumprido. Prometer o impossível - ou esconder o inadiável - seria tentar enganar os portugueses e explorar o seu descontentamento”, concluiu Cavaco Silva.

Pode-se afirmar sem qualquer receio de desmentido que este tipo de preocupações, este género de inquietações é hoje em dia bastante transversal na sociedade portuguesa. Claro está que os mais recentes acontecimentos, que originaram a grave crise política que o país está a viver, contribuíram para agravar ainda mais o clima mais ou menos generalizado de desassossego que se vive quotidianamente.

A multiplicação de movimentos cívicos da chamada sociedade civil constitui um claro sinal não apenas das preocupações colectivas com o estado do país mas, principalmente, de descontentamento e desconfiança relativamente à classe política. E persistir em ignorar tais indícios de insatisfação pode vir a ser fatal para os responsáveis políticos e para o próprio regime democrático.

Como também foi referido pelo PR, “este é, porventura, um dos momentos mais críticos da vida nacional desde que foi instaurado o nosso regime democrático”. Daí o apelo angustiante de Cavaco aos portugueses para a “obrigação de defender o regime democrático, a nossa economia e o bem-estar dos cidadãos e das suas famílias”, embora aliado à convicção de que “juntos conseguiremos ultrapassar as adversidades do presente e dar aos nossos filhos um melhor futuro”.

Evidentemente que as palavras do supremo magistrado fazem todo o sentido e podem até ser consideradas como um incentivo à classe política e, de um modo geral, a todos os portugueses. O problema é que a intervenção de Cavaco peca por tardia uma vez que a situação hoje em dia já não se compadece com figuras de retórica, por muito assertivas ou certeiras, antes exige soluções inadiáveis para as crescentes dificuldades.

E este será, porventura, um dos grandes busílis da questão: ou seja, como dizia o humorista, “eles falam, falam, mas não os vejo fazer nada”.
De facto, muitos dos projectos de poder têm tido por suporte os dotes de oratória dos respectivos dirigentes políticos, comprovando-se mais tarde, demasiado tardiamente, direi eu, a sua não correspondência com a realidade. E esta prática não constitui exclusivo de um partido, de um dirigente político ou de um qualquer eleito. Não, atinge transversalmente toda essa malha.

O problema é que a grande massa anónima que é o eleitorado está-se a tornar cada vez mais exigente. Deixou de ser o conjunto anódino que tanto agradava aos políticos para se transformar numa enorme força de pressão disposta a exercer a cidadania. Deixou de acreditar cegamente em tudo o que lhes é transmitido. Começou a questionar. Começou a exigir e a exercer os seus direitos. Ou seja, principiou a intervir mais activamente procurando influenciar as decisões que dizem respeito ao futuro colectivo.

A verdade é que ainda no passado fim-de-semana o sociólogo António Barreto colocou o dedo na ferida ao acusar os líderes políticos de falta de sentido de serviço público.
“Há algumas coisas que estão mal no nosso país, que têm remédio em menos de dois anos: são as soluções políticas imediatas”, afirmou à margem da entrega do Prémio Paz com que foi galardoado pelo notável trabalho desenvolvido como presidente da Fundação Francisco Manuel dos Santos. No entanto, o antigo ministro considerou que “para isso tem faltado sentido ético do serviço público e espírito de sacrifício aos principais líderes políticos”.

Segundo o sociólogo, esta constatação entristece-o “porque (os líderes) não estão a pensar na população, mas a pensar neles”. Em todo o caso, manifestou-se esperançado no futuro, desde que com muito trabalho. “É preciso trabalhar muito para lá chegar, é preciso mais sentido de serviço público, uma vez mais, da parte dos dirigentes políticos”, concluiu.
Esta questão não é nova. Aliás, revela-se com mais acuidade e acutilância sempre que emergem situações de crise. Mas é, por assim dizer, um tema latente sempre pronto para ser activado e estimular consciências para pavor da classe política.

E a verdade é que, apesar dos sucessivos avisos, de que as votações de Manuel Alegre, em 2006, e de Fernando Nobre, este ano, são bons exemplos, para além dos números obscenos da abstenção e das recentes manifestações da chamada “geração à rasca”, ninguém parece ter arrepiado caminho. Ou seja, nada aprenderam. Estarão à espera de quê? Depois não se podem queixar.

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