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Braga, sexta-feira

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Depois de mim virá...

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Depois de mim virá...

Ideias

2020-10-27 às 06h00

João Marques João Marques

…quem de mim melhor fará.
Parece ser este o mote que preside à Estratégia Cultural Braga 2020-2030 (ECB 2020-2030) que será esta semana avaliada pela Assembleia Municipal. E isto não é uma crítica, mas um sublinhado positivo de um plano estratégico que pretende dar corpo a uma aspiração comum e conhecida: Braga Capital Europeia da Cultura 2027.
Ao longo das páginas que compõem o documento aprovado em reunião de Câmara nota-se um cuidado em projetar sem algemar, isto é, há uma clara preocupação em apontar caminhos estratégicos e linhas de ação concretas, mas sempre com o realismo de não se achar que um plano é um instrumento fechado à mudança das muitas realidades que por ele irão seguramente passar nos próximos anos.
É reconfortante ver o trabalho que foi posto na auscultação da comunidade, permitindo-se que todos, com maior ou menor ligação ao setor cultural, pudessem dar o seu contributo para a conformação de uma proposta de caminho comum que se deseja agregadora e mobilizadora. Neste aspeto, destaco o labor que, ao longo de dois anos, permitiu auscultar mais de 3 mil pessoas e organizações.
Foi desse notável trabalho que resultou o delinear de um caminho que assenta no conhecimento profundo do terreno e das “tropas” que estão, já hoje, ao serviço da batalha pela valorização da cultura como elemento indispensável de promoção do concelho e orientação das políticas públicas do município.
Um caminho que apelidaria de “realismo mágico”, roubando a inspiração à corrente latino-americana, por conjugar uma perfeita noção das limitações que enfrentamos e do ponto de partida em que nos encontramos com o desejo de acostumar Braga a um ritmo e qualidade das propostas culturais que, à data de hoje, só podem ter-se por miríficas.
É que, ao invés de se comprazer em convencer-nos do admirável mundo novo que nos espera, os autores da estratégia sinalizam de forma muito crua e aberta os principais obstáculos à concretização das ambições de Braga em chegar ao estatuto de uma referência cultural regional, nacional e mesmo, internacional.
Não é agradável ler o diagnóstico sobre a inexistência de “massa crítica de criação artística de carácter contemporâneo”, mas julgo que todos reconheceremos que nada há de exagerado nesse apontamento crítico.
Como não nos pode deixar felizes constatar que o enorme património imóvel histórico e moderno de que dispomos está subaproveitado por força de deficiências tão básicas como as que respeitam à “sinalética, informação e conteúdo relevante de interpretação e mediação à visita”. Dir-se-ia que este é um daqueles aspetos cuja reduzida complexidade já deveria ter sido ultrapassada, mas não se trata aqui de apontar culpados, antes nos devendo ocupar a busca de soluções que evitem a ocorrência estrutural destas deficiências. E isso só se consegue com a inclusão e responsabilização de todos os agentes culturais relevantes da cidade.
Tal leva-me a um breve elencar dos pontos fortes e oportunidades que também constam da ECB 2020-2030, pois lá se reconhece a “Existência de casos pontuais de iniciativa privada e empresas com um posicionamento e reconhecimento nacional muito particulares na área cultural, nos negócios criativos e na sua expressão de responsabilidade social.”. Ou seja, há vontade, há gente e entidades interessadas em patrocinar cultura, nas suas mais diversas formas, e fomentar no público o gosto por essa vivência fundamental, mas é preciso fazer mais.
Para fazer mais haverá que explorar as oportunidades que temos pela frente: uma “Comunidade cada vez mais diversa culturalmente”, o “Crescimento gradual do Setor Cultural e Criativo nos últimos dez anos”, ou a “Intensa e exponencial procura da cidade, na perspetiva do Turismo, nos últimos seis anos” são apenas alguns exemplos identificados nessa vertente.
O certo é que a ECB 2020-2030 dá nota de um domínio particular que julgo não ter escapado ao município e que deverá ser cada vez mais reconhecido como essencial para consolidar um espaço físico e uma consciência coletiva que reconheça na cultura um polo agregador de todos os bracarenses. E esse domínio é o da transversalidade das políticas. É certo que o pelouro cultural assume preponderância face aos demais, mas o espaço público, a gestão dos equipamentos e mesmo a dinâmica económica são outras competências da gestão municipal que têm de estar na linha da frente para que esta estratégia funcione.
Ora, neste ponto, volto ao início, isto é, à necessidade de quem vier a seguir assegurar a estabilidade das políticas (sem que tenha de caninamente as não alterar) e das apostas integradas do município. Na reunião de Câmara, apenas o PS se absteve, a ver vamos se esta aparente concertação se mantém na Assembleia Municipal e, principalmente, nos anos vindouros. Só assim seremos Capital Europeia da Cultura todos os dias.

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