Correio do Minho

Braga, sábado

Depois da dor uma nova vida

Investir em obrigações: o que devo saber?

Conta o Leitor

2018-07-14 às 06h00

Escritor

Por Carlos Alberto Rodrigues

Uma dor dilacerante acordou-o de um sono profundo.
Apenas teve o reflexo de colocar a mão sobre o peito – de onde radiava a dor – e acender a luz do candeeiro situado sobre a pequena mesa-de-cabeceira.
De seguida sentou-se na beira da cama. Transpirava e sentia frio apesar do calor da noite. Quis chamar por alguém mas não teve tempo. Desfaleceu. O barulho do seu corpo de encontro à cadeira situada junto à cama prostrando-se de seguida no chão do quarto acordou a sua irmã que perante tal cenário não evitou um grito que estremeceu a madrugada. Bateu-lhe na face num gesto de desespero para o fazer voltar a si. Num sobressalto acordou e nesse mesmo instante sentiu o mundo cair-lhe em cima. Seguiram-se momentos de tensão e medo. Os seus pais acordaram logo de imediato. Telefonaram para o 112 dando-lhes indicação que tivera dias antes um Enfarte Agudo do Miocárdio por isso que viessem com o material indicado para diagnosticar um eventual acidente semelhante.
Já deitado na maca recordou o desespero dos pais e irmã apesar dos seus pedidos para se acalmarem. Que não seria nada de grave. Debalde as suas perspetivas apesar de consciente do que se passava. Apenas não queria que se preocupassem com ele como se tal coisa fosse humanamente possível.

Pelo vidro da porta da ambulância conseguia vislumbrar o raiar do dia. Lembrou-se mais uma vez dos pais, das irmãs e sobrinha que deixara em desespero e pranto numa casa vazia de si. Uma primeira lágrima caiu como que adivinhando o que futuro próximo lhe reservava: Uma sala ampla, de paredes brancas e compridas, onde, aferradas às paredes encontravam-se macas e sobre elas doentes à espera de serem atendidos. Todos em silêncio, engolindo a dor que deviam sentir, enquanto maqueiros trajados de branco da cabeça aos pés andavam num rodopio, trazendo e levando pessoas acidentadas. Depois, um amontoado de médicos e enfermeiros a atropelarem-se no caos das urgências, a espera desesperada por resultados, caras de sofrimento de pessoas ainda em pijama que de igual modo aguardavam em desesperança pela sua vez, sentadas numa pequena fila de cadeiras…

Naquele momento, enquanto a ambulância subia a alta velocidade a derradeira ladeira que a levava à entrada das urgências, culpou-se a si próprio. Sentiu-se responsável por ter deixado correr o tempo, aquele tempo que não havia para desperdiçar. Tinha ignorado todos os sinais que lhe foram enviados pelo seu corpo mas o medo e a esperança de que aquela dor podia desaparecer…
Ainda não conseguia acreditar que havia poucos dias tinha feito exatamente o mesmo trajeto depois de uma indisposição com todos os sintomas que apresentavam um quadro de acidente cardíaco, recordando ainda viva na memória o temor da sua voz que saía a custo, entrecortada pelos movimentos forçados e doridos do peito num vaivém aflito, logo tratado com recurso à angioplastia.
Tinha pensado que depois e um pequeno período de internamento e recuperação caseira brevemente voltaria à vida ativa; àquele corre-corre diário para não perder o tempo. Puro engano.

Desta vez tinha sido uma pericardite. Resumindo, é a inflamação do pericárdio, membrana que reveste o coração e que tinha uma boa quantidade de líquido à volta daquele órgão que necessitava de tratamento. Ainda em contexto de urgências, sofreu com o sorriso cruel de um médico que falava castelhano, perante o diagnóstico apresentado pelos elementos da ambulância: “ataque de pânico, com estas tensões e os dois desmaios? Eh, eh”. Vá-se lá saber onde estava a graça da situação. Ignorou-o pelo cansaço que um turno noturno pode trazer mas teve vontade de responder.

Instantes depois, outro médico que se apresentou como cardiologista e que depois de rever os parâmetros normais naquela situação disse que seria enviado para a unidade de cuidados intensivos de cardiologia. Afinal um local já seu conhecido. Repetia-se a história para seu desagrado e o medo interior voltou a sentir-se, o seu rosto ficou ainda mais pálido e o coração que já sofria bateu mais forte e descompassado.
Num ápice viu-se rodeado de caras conhecidas de há uns dias atrás mas que não julgava voltar a ver, pelo menos tão cedo. Todos se recordavam dele e perguntavam incessantemente, uns atrás dos outros, o que tinha acontecido. E ele, pacientemente, apesar das dores, lá ia desfiando o rol de acontecimentos perante o semblante de surpresa e de alguma tristeza de alguns.
Criou com todos eles, sem exceção, uma relação de amizade bastante sadia e de cordialidade que em muito o ajudou a passar os trinta dias que se seguiriam, antes de rumar ao Porto onde seria operado por um cirurgião de boa reputação que já tinha operado uma personalidade pública cá do burgo. Até esse facto, na altura, serviu de âncora para pensar que tudo ia correr bem.

Aquela que seria a sua “família” no próximo mês (meu Deus, tanto tempo e tanta ansiedade) de tudo fizeram para que os dias não fossem passados a olhar para aquele teto branco e para o relógio de parede que tantas vezes consultou para ver se o tempo passava mais depressa. Muitas vezes matou o tempo, o tal tempo que parecia já não haver para dar, com a leitura de livros e jornais que seus familiares lhes traziam e os quais faziam, por incrível que pareça, passar o tempo mais apressadamente. Como se não estivesse lá, mesmo que por instantes.
Era como que um mitigar na amargura dos dias, sobretudo a nível psíquico. Já era muito, o tempo ali (mal) acomodado. Quantas vezes o seu pensamento passou além da janela que se situava atrás da cama e voou até à sua casa, à sua rua e à sua família e amigos?

Tão só se sentiu a maior parte do tempo e apenas as visitas confinadas à família mais próxima conseguiam atenuar essa solidão. Vê-los surgir do nada no seu campo de visão era como se de um milagre se tratasse, um soluço aparecia e a emoção corria à flor da pele. Aqueles sorrisos mesmo quando as coisas não estavam bem, foram um bálsamo para a sua alma, dilacerada pelas notícias que significavam o retardar da viagem até ao Porto para a tão desejada viajem que enfim chegara. Depois num ápice veio a cirurgia, a recuperação e um novo olhar para a vida.
Agora apenas fica um aviso e um sinal para ele e os que viveram com ele aquela angústia, trepidez e pânico e finalmente o medo de perder para sempre uma luta desigual.

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