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Deixem-me contar-vos como é…

Contra a violência doméstica

 Deixem-me contar-vos como é…

Voz à Saúde

2020-03-24 às 06h00

Joana Afonso Joana Afonso

Deixem-me contar-vos que sou Médica de Família, que estava habituada ao contacto com o utente, à proximidade do aperto de mão e até do beijinho de entrada e/ou da despedida, mas hoje estou na linha da frente no combate a este vírus. Deixem-me contar-vos que agora a distância é do tamanho do meu medo. Do meu e de todos os colegas que travam comigo esta luta. O consultório virou campo de batalha, o atendimento é sob um escudo de acrílico que com engenho e solidariedade me foi cedido na tentativa de proteção.

Todos os dias, ao levantar, o sentimento é de ansiedade, pelo cenário que vamos encontrar, pelas horas que serão precisas trabalhar, pelos colegas que ainda têm força para continuar. Não há dias da semana, sábados ou domingos. Todos são dias de luta.

Deixem-me contar-vos que pegamos numa máscara, daquelas que não são as que mais protegem, e só lhe voltamos a tocar, com sorte, umas 6 horas depois. Beber água ou um café, comer ou, simplesmente, respirar fundo são tarefas adiadas, porque não há material em quantidade suficiente que nos permita dar ao luxo de as trocar. Deixem-me contar-vos que os simples gestos de pôr e tirar umas luvas ou de lavar as mãos podem fazer a diferença entre continuarmos ou sermos uma baixa na frente de combate.

A pele não respira quando, ocasionalmente, temos direito a vestir uma bata impermeável de proteção. As bochechas, o nariz, as orelhas que seguram os elásticos e as mãos fingem aguentar as dores e até as feridas de todas as armas, por nós improvisadas, de forma a nos proteger. Deixem-me revelar que a garganta fica seca, a cabeça dói, o coração acelera e os músculos parecem saídos de um treino extenuante, que achamos que temos todos os sintomas da doença, mas nos recusamos a admitir, porque sabemos que, na nossa ausência, alguém esgotado ficará, ainda mais, sobrecarregado.

Deixem-me dizer-vos que ainda não vi um profissional de saúde recuar mas, diariamente, lhes vejo o terror estampado no rosto, de quem sabe que ainda só estamos no início. Nenhum cede, mas todos já choraram, sozinhos, porque em equipa todos somos força e união. E tão unidos que somos e eu nem sabia!

Deixem-me contar-vos que quando as forças se esgotam voltamos para casa, a maioria de nós sozinhos, porque se aquele medo de que vos falei é grande para nós próprios, nem se compara ao medo pela segurança dos que nos são próximos. Afastámos ou fomos afastados de quem mais gostamos, na tentativa de continuarmos a cuidar, mesmo quando já não estamos ao serviço. Porque, sabem, eu acho que nunca deixamos de estar ao serviço. Dormimos, quando o cansaço nos afoga, com o pensamento acordado em como fazer mais e melhor. Sabemos das limitações que temos, principalmente em quantidade e qualidade do material de tratamento e apoio. Mas também sabemos que nenhum de nós se resigna ou desiste. Que este vírus vai ser controlado, que não há heróis ou vencedores e que tememos os vencidos.

Deixem-me que vos peça que fiquem em casa! Travem esta corrente de transmissão porque nós não desistimos, por isso, também não desistam de nós.

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