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De uma coabitação nem sempre pacífica

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De uma coabitação nem sempre pacífica

Ideias

2023-03-27 às 06h00

Felisbela Lopes Felisbela Lopes

Quem ontem olhasse para as imagens de Marcelo Rebelo de Sousa lado-a-lado com António Costa na 28.ª Cimeira Ibero-Americana, em Santo Domingo, na República Dominicana, dificilmente entenderia os textos noticiosos que falaram esta semana de um ambiente de alta tensão entre Belém e São Bento. Nem as imagens mentiram, nem as notícias foram exageradas. Porque estes Dupont e Dupond funcionam em permanente coabitação estratégica. E, às vezes, é preciso esticar mais a corda. Para marcar posição.
Não é fácil a vida de um Presidente da República em contexto de maioria absoluta. O passado recente diz que nestas conjunturas o chefe de Estado costuma pôr o governo em sentido. Foi assim com Mário Soares e Cavaco Silva. Foi assim com Cavaco Silva e José Sócrates. Desta vez, os códigos de leitura que trazemos do passado não servem, porque estes inquilinos dos dois palácios são muito diferentes dos anteriores. Como lembrou este fim-de-semana Marcelo, o conhecimento e cumplicidade somam muitos anos. E ambos primam igualmente por algum jogo num xadrez político que qualquer um conhece como ninguém. Por isso, precisamos de adotar outras chaves interpretativas. Uma delas é a de ter presente que um representa um trunfo para o outro.
Para Marcelo Rebelo de Sousa, António Costa é, sem dúvida, o político que Belém deseja ver em S. Bento. À esquerda e à direita, não há alternativas. E nem a família partidária do atual PR conseguiu, até agora, fazer emergir uma solução que agrade a Marcelo. É verdade que, em fevereiro, ao participar no Grémio Literário, na comemoração dos dez anos do Senado (um grupo de formação cívica e política que junta cerca de 200 jovens de vários partidos e sensibilidades de direita), Pedro Passos Coelho, com o Presidente presente na sala, falou durante mais de uma hora do horizonte da sua vida política, abrindo com isso a expetativa de poder correr para Belém e obtendo do seu atual inquilino uma reação que pareceu de anuência. No entanto, em política, nem sempre o que parece é. E não constitui propriamente uma novidade lembrar que Marcelo não gosta de Passos Coelho.
Com este PM, o PR sabe que pode aqui e ali ir reivindicando alguma ação governativa através de uma palavra política que muitas vezes faz exacerbar competências. Foi o que aconteceu a semana passada, quando o Presidente se pronunciou sobre o pacote de habitação ainda em discussão. Não foi a primeira vez que Marcelo se meteu estridentemente com o Governo. Logo no início da primeira legislatura de Costa, o Presidente criticou duramente o ministro das Finanças Mário Centeno, depois vieram os incêndios, e com eles deixou cair de forma impiedosa a ministra da Administração Interna, e em Tancos também não amparou o ministro da Defesa.
Acontece que desta vez António Costa considerou excessiva a crítica de Marcelo. Por isso puxou o tom na resposta que lhe deu em pleno parlamento. Mas este fim-de-semana, na República Dominicana, o PM ajudou a aliviar a tensão. Porque Costa sabe que Marcelo é útil, quer para ir falando ao eleitorado da direita, quer para, através dos média, ir acalmando águas subitamente agitadas.
Com responsabilidades diferenciadas, Marcelo e Costa sabem que alinhados têm mais força, mas cada um deles tem consciência de que precisa marcar bem o seu lugar. E para isso é necessário também ganhar distância.

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