Correio do Minho

Braga, segunda-feira

... de Sobredotação (II)

A pretexto de coisa alguma

Escreve quem sabe

2011-11-15 às 06h00

Cristina Palhares

Ser ou estar: como devemos conjugar a sobredotação? Traço ou estado? Um dos maiores esforços pedagógicos em educação está na importância da conjugação com o verbo estar o que sempre nos habituamos a conjugar com o verbo ser. Ele é preguiçoso.... ele é teimoso.... ele é desobediente... Vejamos agora conjugados com o verbo estar. Ele está preguiçoso... ele está teimoso... ele está desobediente....
É esta conjugação que nos permite, enquanto professores e educadores de todas as crianças/jovens justificar e fazer valer a nossa profissão. Se “ele é... qualquer coisa” já nada vale a pena - não vale a pena apostar nesse aluno, não vale a pena ajudá-lo, nada vale a pena... ele é assim.

Pelo contrário, se “ele está... qualquer coisa”, fundamentamos o trabalho a que nos dedicamos. Ele está preguiçoso - pode deixar de estar; ele está teimoso - pode deixar de estar; ele está desobediente - pode deixar de estar. Aqui tudo vale a pena - a nossa atuação pedagógica permite contrariar para uma forma positiva, assim o queiramos. Legitimamos também a nossa profissão.

Até aqui nada de novo - dir-me-ão que estas características intraindividuais são estados e não traços e como tal passíveis de sofrer alterações. Desculpem, nada de novo não... por-que mesmo nestas características os professores vão-se esquecendo da correta conjugação.
Voltemos no entanto à pergunta inicial, a que junto outra: como devemos conjugar a deficiência?

É-se deficiente ou está-se deficiente? É-se sobredotado ou está-se sobredotado? Aqui poderíamos focar dois distintos olhares: o da psicologia que identifica e avalia e portanto diz é (traço - num dado momento, num corte preciso do desenvolvimento) e o da pedagogia que intervém e promove o desenvolvimento e portanto diz está (estado - permeável à idade, ao crescimento, ao desenvolvimento).

Mesmo na deficiência mental o estar deficiente mental permite que o professor desenhe um plano de intervenção com vista a atenuar os pontos mais fracos e a estimular os pontos mais fortes...
Já na sobredotação o estar sobredotado deveria do mesmo modo permitir que o professor desenhasse um plano de intervenção com vista a atenuar os pontos mais fracos e a estimular os pontos mais fortes.

Mas acontece tantas vezes exatamente o contrário: aumentamos os pontos mais fracos e desinvestimos nos pontos mais fortes. Porque conjugamos com o verbo ser.
Ele é sobredotado... é um traço da sua personalidade e como tal não necessita da nossa intervenção. E é por isso que na maioria das vezes aquele que é deixou de o ser... porque não fizemos nada.

Tal qual como a parábola dos talentos, e bem haja a quem me fez refletir nela, em que os talentos distribuídos (um, dois e cinco) foram aproveitados pelos diferentes adultos de maneira também diferente: quem recebeu cinco e dois talentos duplicou-os e quem recebeu um ta-lento, com medo de o perder enterrou-o, e portanto não rendeu.
A este último, o seu único talento foi-lhe retirado. Por mui-tos ou poucos talentos (permitam-me dizer traços) que recebamos o que importa é o que fazemos com eles (permitam-me dizer estados).

Assim, independentemente do traço, o que interessa ao professor é o estado. O estado dos ta-lentos. Não nos esqueçamos que somos nós, professores, os fiéis depositários dos talentos de todos os nossos alunos e é nosso dever duplicá-los. Bem hajam!

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