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De poucochinho para poucochinho...

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De poucochinho para poucochinho...

Ideias

2024-06-16 às 06h00

Artur Coimbra Artur Coimbra

Já tudo foi dito relativamente às eleições europeias do passado domingo. Todas as leituras foram feitas, nos mais diversos sentidos, nas mais diferentes perspectivas, muitas ainda por fazer.
Certamente leituras pessoais, como a de qualquer cronista ou comentador, porque todas as opiniões são demarcadas por uma determinada visão do mundo, por uma bagagem cultural, ainda que em demanda da possível isenção.
Face aos resultados apurados, por mais balanços que se façam, por mais voltas que se procurem dar, as eleições tiveram um vencedor: o Partido Socialista, que elegeu oito eurodeputados. A coligação AD ficou perto, mas teve menos um eleito para a Europa. Logo, não venceu. Também vencedores se poderão considerar os partidos que se estreiam no Parlamento Europeu, enquanto no rol dos derrotados certamente há lugar aos que não lograram o objectivo de manter o número de elementos que possuíam nesse grande areópago onde a Europa se revê, se constrói e reconstrói permanentemente.
Claro que surgiram logo na noite eleitoral, e nos dias seguintes, as mais diversas leituras dos comentadores sobretudo da direita a tentar apoucar a vitória do PS: que perdeu um deputado, que foi por “poucochinho”, que foi “à tangente”, que foi curto o triunfo. E foi, sem dúvida. Com todos os contratempos decorrentes da situação criada no início do ano, como todos estamos lembrados, até que não foi nada mau.
O país está hoje governado pela coligação do PSD e do CDS por obra e graça de uma manobra inqualificável da Procuradoria Geral da República, que foi depois sufragada e legitimada pelo Presidente da República, derrubando um governo legítimo que tinha a maioria absoluta dos votos dos portugueses. Desse contexto, cujos contornos ainda não estão bem explicados, porque há entidades que parecem viver na ausência de transparência democrática, resultou a correlação de forças que se conhece, com um governo minoritário com tiques de superioridade e o crescimento abismal da extrema-direita populista. É este o panorama que temos hoje e que resulta do que muitos consideram um “golpe de Estado da Justiça e do Presidente da República”. Como é bom, de augurar, a partir de agora nenhum governo maioritário (quanto mais um minoritário…) estará a salvo de suspeitas ou de ameaças à sua estabilidade, venham de onde vierem.
Porque é o que está em causa, claramente: as referidas forças quiseram trocar a estabilidade pela instabilidade. Ponto. Foi uma opção, que visivelmente deu e vai dar para o torto, criando um clima de inconstância e vulnerabilidade no exercício do poder político.
Foi nesse ambiente que se desenrolou a campanha para as eleições “europeias”, cada um fazendo naturalmente o seu papel propagandístico. E, a três dias das eleições para o Parlamento, outra vez a justiça a meter o bedelho no normal funcionamento das coisas. Um processo relacionado com as “gémeas brasileiras”, que vem já de há meses, mas que esperou que a data das eleições se aproximasse para serem desencadeadas as buscas em diferentes locais, com o habitual folclore mediático, para que o assunto não passasse em claro. E ai de quem se arrogue o direito de considerar que a agenda política da justiça não é inocente!... Claro que não é coincidência. Que não façam dos portugueses parvos.
E é nesse contexto adverso e com o governo de Montenegro num mês de despudorada propaganda diária demasiado explícita que, apesar de tudo e de todos, o Partido Socialista ainda conseguiu superiorizar-se nas eleições europeias, pela margem mínima, é certo, mas venceu, o que é inegável.
O mesmíssimo raciocínio se pode aplicar, retrospectivamente, à vitória da AD há apenas três meses. Que retumbância teve a vitória da Aliança Democrática em 10 de Março? Foi por um triz que ganhou ao Partido Socialista, o que não lhe retira obviamente qualquer legitimidade, como agora igualmente acontece. Poucochinho há três meses e poucochinho há oito dias. Resultados são resultados e como tal devem ser encarados: como fruto da vontade soberana dos eleitores em cada momento.
Caso diferente é saber se a AD vai conseguir sobreviver muito tempo com o seu ar de altivez e de ausência de diálogo relativamente aos outros partidos. Sou dos que apostam que a sua vida útil será de cerca de dois anos. O orçamento de 2025 vai ser viabilizado, com maior ou menor dificuldade e teremos certamente eleições lá para o ano imediato, em 2026, a meio da legislatura, porque o orçamento desse ano dificilmente terá luz verde… A não ser que muito mude e se altere na configuração política, quer do lado do governo, quer da oposição, ou surjam alianças tácticas ou estratégicas que, por ora, não se lobrigam.
Saibamos, pois, separar o trigo do joio, dar o valor a quem o tem, atribuir os louros a quem os merece.
Quanto ao resto, foi excelente para a democracia o débil resultado, entre nós, da extrema-direita racista e xenófoba, que não interessa nem ao Menino Jesus, e que vem demonstrar que ninguém é senhor dos votos de ninguém e que os portugueses começam a abrir os olhos, deixando de acreditar em intoxicações de mentiras, falsidades e aldrabices, em estratégias políticas tecidas à base da manipulação de factos e de palavras, que é o modo de respiração e de sustentação dessas ideologias.
Claro que, desafortunadamente, por essa Europa fora, as forças extremistas de direita venceram em alguns países, como a França ou a Itália, embora em outros os resultados tenham ficado aquém do esperado. Ainda assim as forças sociais democratas, socialistas e da direita civilizada e democrática mantêm a maioria expressiva no hemiciclo do Parlamento Europeu, o que é bom para uma Europa que é um importante agente de paz e de desenvolvimento, uma locomotiva de progresso e de coesão territorial, mas cujos estados membros devem evitar as crises aos mais diferentes níveis (da saúde à habitação, da educação à justiça), onde os extremistas de direita e os populismos alimentam os seus estratagemas de contestação à Democracia e às Liberdades, arregimentando os descontentamentos, as revoltas e as desilusões face aos problemas não resolvidos e às promessas adiadas.
Por nós, reafirmamos uma máxima que temos como recorrente e da qual não saímos: mais vale uma má Democracia do que uma excelente Ditadura!

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