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De pernas para o ar

O maior desafio dos 50 anos de Democracia

De pernas para o ar

Ideias

2024-01-31 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Ganha contornos uma revolta do mundo rural. Refiro-me a França, por aquilo que acompanho, mas chegam ecos que algo de semelhante ocorre na Roménia, na Polónia, na Alemanha. Em Portugal, talvez por lema que tenha ficado, por esse «vamos andando e a Deus louvando», as gentes são pouco dadas a manifestações de grande alento, a paralisações de envergadura. Uma contestação, para nós, é coisa de ir e vir, com desmobilização a tempo de um salto à cervejaria para conferência de entusiasmos ou desilusões. Subtraída a ribalta aos professores, vamos assistindo à agitação dos polícias e à de contingentes de mal e caramente alojados. Os oficiais de justiça, bem entendido, são caso à parte, que mais são os que sonham com tribunais fechados, do que aqueles que rezam por eles abertos.
Dificilmente desmobilizarão os agricultores franceses, poucas chances tem o governo para lhes ir ao encontro. O impasse salta à vista. Não arrumarão eles tratores, porque simplesmente não tenham mundo saudável a que regressar. É estatística corrente que a cada dois dias se suicida um proprietário agrícola, sendo por este prisma o estrato social de maior mortalidade não natural. Agrários de vinte hectares e acima disso, o que para os parâmetros do Norte de Portugal é de se lhe tirar o chapéu, e ai dele que penasse, salvo por jogo, mulheres ou bebida, mas nunca porque a seu não visse rendimento.
Detalhes de um abalo que não atinjo de «a» a «z», e que tampouco caberiam em metade de página. Mas ele é a distribuição que esmaga a produção, mas ele são os acordos EU-terceiros que inundam o mercado interno com mercadoria de baixo custo de produção, com mercadoria não sujeita a restrições fitossanitárias e de cuidado animal que entre nós imperam, mas ele é a explosão do custo da energia e das sobretaxas sobre gasóleo, mas ele é, enfim, a desregulação dos ciclos naturais, com chuva no tempo da chuva, e sol no tempo do sol. Para tudo agravar, muitos dos proprietários rurais não o serão de facto, porque tragam terras arrendadas por uma vida, com empréstimos sobre elas e maquinaria que não possam honrar, porque tenham outros já sua idade e ninguém haja para lhes tomar trespasse, porque sejam rotinas escravas e de sumido rendimento.
E depois é a burocracia, a papelada interminável, as inspecções de pletora de organismos, aspectos que o voluntarista do primeiro-ministro francês até consiga atenuar, sem que por outra seja capaz de potenciar a rentabilidade do esforço individual dos operadores dos mundos pecuário e agrário, metade dos quais à beira do abismo. Exigem-se medidas consequentes, não paliativos, exigem-se alterações de fundo, sendo que isso implica uma alteração radical dos parâmetros da clique de Bruxelas e Estrasburgo, que cada vez se assemelham mais aos apparatchik e aos notáveis de sobretudo e chapéu de feltro do mundo comunista.
A senhora Leyen, por si só, cada vez me parece mais o fantástico Vale e Azevedo, de quem tanto o pacóvio bebia encantos. Vamos perdendo pé em liberalismo mirífico e vida sob consensos venenosos. Vê-se em França, eventualmente na Roménia, na Polónia, na Alemanha, o que a Ucrânia implica a termo no estilhaçar da estabilidade da UE. Paralelamente, sem surpresa deparei-me há dias com as opiniões em discurso directo de Jeffrey Sachs, que disse do desastre Ocidente-Rússia o que eu vou esboçando com base em histórico pessoal. Por agora ainda tem palco quem tece loas às maravilhas de cada passo que damos, como rejubilaram outros a cada plano quinquenal cumprido com brio. Mas deixará de ser pecado mortal, um dia. Entretanto teremos eleições.

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