Correio do Minho

Braga, quinta-feira

De onde vem a crise

Uma carruagem de aprendizagens

Ideias

2013-02-21 às 06h00

José Manuel Cruz

Não há governo que passe no crivo da CGTP, muito menos o actual elenco de Passos Coelho. Também não há governo que colha alguma forma de aplauso das oposições parlamentares, de modo que faça bem - como os governantes em qualquer circunstância sustentam -, ou faça mal - como as oposições sempre com veemência atestam -, lá fica cada um ciente da sua certeza, e lá ficamos nós sem saber onde possa estar a salvação do País.

Claro que o odioso de uma crise pesa sempre mais para quem está à frente do governo, e que qualquer justificação que saia da boca de ministro soa sempre a desculpa de mau pagador. Mas, é da boca da oposição que bebemos a verdade e que cimentamos uma certeza de futuro, assim cheguem a governar pela inversão de papéis em futura eleição?

Recordemo-nos de Sócrates, enquanto líder do PS na oposição: que fluidez de discurso, que preparação, que segurança! E no entanto, quando foi a hora, espetou com os burros na água que foi uma limpeza.

Passos Coelho não teve assim tanto tempo para mostrar pergaminhos e namorar o País. Apresentou-se a correr por fora, e de fora ficou quando não o incluíram na lista a deputados por Vila Real. A malquerença não jogou contra ele, antes fundamentou a sugestão de que não era um boy do partido, mérito que reforçava a dignidade de não ter reclamado as prebendas resultantes da sua anterior passagem pelo Parlamento. Parecia honesto, escorreito e enxuto, e isso nos bastou quando o elegemos.

Ano e meio já lá vai. Sobre a integridade do senhor nada impende, mas é vê-lo tolhidinho de todo, com o cabelo a rarear na pala outrora garbosa, sem sinal de comando sobre a borrasca do desemprego, a despejar mensagens cujo sentido se degrada antes mesmo de terminadas.

Pelo caminho houve ajustamento de perspectivas, de calaceiros e piegas passamos a melhor povo do mundo - outra coisa não houvera Gaspar de dizer, de quem tão pacientemente come e não bufa… Mas nem precisavam de se dar a esse mimo: a paciência do povo português é proverbial, a facilidade com que se ajusta a caldo de couves e meia sardinha com broa é conhecida, de modo que pouco nos puxa para esses desmandos à grega.

Embora por aí haja quem tivesse posto boca em guerras e revoluções, e mesmo eu ache que estamos sempre a tempo de pintar a manta, no geral ficamo-nos por uns impropérios e aleivosias: rimo-nos e esperamos dias melhores! Assim como assim, as crises são como as ovelhas, tanto andam como desandam, e há-de vir o dia em que a crise se esfuma, com este ou com outro governo.

Por mim preferia que fosse já com este, pela prática razão de ficar a questão arrumada, e por não ter sido pela imprevidência de Passos Coelho ou do PSD que acordamos no presente buraco. Furtar-se-ão os socialistas a reconhecer o papel que desempenharam no vertiginoso crescimento duma dívida, sempre reformada por cima e nunca saldada, - nas PPP negociadas à fartura, na prodigalidade de estádios entregues a fantasmas, na urgência de auto-estradas para previsões megalómanas de tráfego, na tripa-forra da Parque Escolar?..

Não consta, realmente, que o PS se disponha a uma mea culpa. As recriminações por erros presentes e passados vão todas para Coelho e seus pares. Sócrates caiu? Culpa de Coelho, nunca do quarteto de banqueiros que tirou o tapete a Teixeira dos Santos! O desemprego não para de crescer? Culpa de Coelho, que não encontra dinheiro para investir, o tal dinheiro que corre a rodos para pagar as dívidas, em bom tempo contraídas em proveito de magníficos negócios!..

Eu até gostava de acreditar que Seguro daria boa conta do recado, estivesse ele onde Coelho está agora. É de esquerda, protegerá os mais fracos. Numa antecipação de que poderemos contar com ele, Seguro dizia que terá coragem para lutar contra os lobbies, aqueles que capturaram o Estado e nele estão pendurados, certamente em prejuízo de todos nós. Espero que esta entrevista à SIC Notícias não se perca.

E mais espero de Seguro, que a fibra que a seu tempo poupou na resistência insonsa a Sócrates, expluda incontidamente no confronto desarvorado dos lobbies. Por mim, pode começar já. Bem sei que na entrevista se furtou a nomear quem quer que fosse, mas Seguro deve saber muito bem quais são e quem compõem esses lobbies, até porque, desconfio, uma fatia não desprezível desses interesses instalou-se no Estado com o beneplácito do PS a que Seguro sempre pertenceu e acredita hoje liderar. Fibra e boa sorte, é o que lhe desejamos.

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