Correio do Minho

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Ideias

2013-12-01 às 06h00

Carlos Pires

Visitei recentemente a China, país onde vivem muitos milhões de pessoas - 20% da população mundial - e muitas vezes apontado como o grande responsável pela crise económica em que o Ocidente está mergulhado. Foi pois com enraízada suspeição que aterrei em Beijing (Pequim), certo de que, no que à organização da sociedade e “modus vivendi” dizia respeito, eu iria encontrar “formigas obreiras”, caras carrancudas e desconfiadas, sem “vidas próprias”, à semelhança da realidade por mim observada junto dos imigrantes chineses que aqui radicam, verdadeiros “embaixadores” dessa China, estereotipada, que eu previra encontrar, a qual, desde já antecipo, revelar-se-ia aos meus olhos uma avassaladora surpresa, e pelas razões que passo a expor.

No que ao património histórico e cultural diz respeito, escusado será dizer que a China guarda muitos dos tesouros da humanidade, como a ‘Grande Muralha’ - esse emocionante monumento que corta o norte do país por mais de 6 mil quilómetros de extensão e que levou 2 mil anos para ser construído - ou os ‘Guerreiros de Terracota’, em Xian. Poucos países são tão ricos em cultura, tradições e paisagens naturais (o cruzeiro no Rio Li, no Sul, é de “cortar a respiração”!). Mas a China revela também contrastes - o milenar versus o contemporâneo - realizados de uma forma harmoniosa: se Xian, antiga capital chinesa, possui templos e palácios ancestrais impecavelmente preservados, já Shanghai é uma cidade que, paradoxalmente, aparenta ser símbolo da mais acérrima sociedade capitalista, montra da mais moderna arquitetura mundial.
Contudo, o mais impressionante, na minha modesta opinião, acabaram por ser as pessoas, das quais trago recordações que guardarei para sempre e que tornarão esta minha viagem inesquecível. Semelhanças connosco, os portugueses? Desde logo: o humor! O mundo diz que o povo chinês é um povo escravizado e, de certa forma, acanhado. Mas eu constatei que eles são altamente felizes, mesmo aqueles que vivem (dignamente) em recônditas zonas agrícolas. E são calorosos, sempre com um sorriso no rosto, tratando cada pessoa “como se fosse o melhor cliente”. Ainda: o povo chinês é bastante batalhador e desenrascado, como eu acho que é o povo português.
Partilho convosco a resposta que me foi dada, calmamente, quando questionei como era viver num país ditatorial, com um partido único (partido comunista):
- “Vivemos numa gaiola, mas a gaiola é agora maior…”.
Se podemos achar, por um lado, que ninguém tem que se sujeitar a viver numa gaiola, tenha ela o tamanho que tiver, certo é que não deixo de reconhecer a (nobre) tolerância de um povo que, apesar de sofrido, revela comovente humildade (e maturidade!) no reconhecimento do “boom” económico do país e da consequente melhoria do nível de vida, sobretudo a partir do período Deng Xiaoping (materializado, nomeadamente, no relevante investimento, em curso, na formação), certo da evolução que o tempo naturalmente lhe reservará ao nível dos direitos e das liberdades.
Ricardo Araújo Pereira, na revista Visão, de há uma semana atrás, escrevia: “Aspirar a ser um pequeno país europeu talvez seja sonhar acima das nossas possibilidades. O melhor seria, provavelmente, que Portugal começasse por querer ser um país médio de África e depois então tentar dar o salto e procurar estar à altura de ser um pequeno país europeu. Ou então apontar realmente para cima e tentar ser, por exemplo, a China. Em termos de direitos laborais e nível salarial já está ela por ela, portanto só falta o crescimento económico, que é o mais fácil”.
O mais fácil… Percebo a ironia do Ricardo A. Pereira. Na verdade, ao nível da disciplina e dedicação, tenho que reconhecer, os chineses vencem-nos. E isso faz toda a diferença para almejar um estádio superior de riqueza. “Aprender é como remar contra a corrente: sempre que se pára, anda-se para trás” - diz o provérbio chinês que traduz a sua filosofia de vida, radicada na aprendizagem e no perfeccionismo, no dar sempre o melhor de si. O que me faz concluir que a China, em constante mutação, muito em breve vai dominar o mundo. Em múltiplos setores. Merecidamente. Será que alguma vez os conseguiremos “copiar”?

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