Correio do Minho

Braga,

De Amor também se morre

Deslumbramentos do olhar

Conta o Leitor

2017-08-11 às 06h00

Escritor

Mário Viana

Abraçou-a com força, mergulhando o olhar no mar azul daqueles olhos rasos de água, que transbordava e lhe descia rosto abaixo.
- Não te esqueças de mim, António… Lembra-te do teu filho que aí vem!
E realmente vinha, ou antes, já ali estava, no ventre dela, apertado naquele abraço comovido.
Prometeu que sim. Não a esqueceria, pelo amor que lhe tinha. Ia lá esquecer uma mulher de esperanças, um filho pequenino! Achava que sim? Ora…o Brasil não era a morte, era o começo duma vida que ali não tinham, na penúria daquela aldeia perdida no mosaico das veigas. E repetia argumentos gastos para a convencer, para a descansar: O Fagundes dar-lhe-ia emprego no negócio, talvez até sociedade, um dia…
Mas Justina, ciente do feitio arisco dele, da sua apetência pelas brigas, tinha uma sombra a toldar-lhe o rosto cor de trigo maduro:
- Vê lá, não te metas em problemas…
- Não, não, descansa! E agora vou-me, que me esperam…
E lá foi, de mala na mão, sumindo-se na madrugada. Corria o ano de 1920 e era Outono. Depois duma única carta, o Inverno passou-se sem notícias, fazendo com que a ansiedade em que Justina vivia cedesse à angústia. Sabendo da sua paixão pelo marido, as vizinhas acalmavam-na, lembrando-lhe que o Brasil era muito longe e que a carta poderia ter-se perdido ou atrasado. Com ajudas - pois a sua família vivia noutra aldeia e António só a tinha a ela neste mundo - Justina lá se arranjava, entre a lida da casa e o trabalho na courela. Mas morria de saudades do marido e esmagava-a a solidão. No ano seguinte, num Março frio e inquieto, Justina deu à luz um rapaz. E ainda mal recomposta do parto, apressou-se a pedir que escrevessem ao marido a dar-lhe a notícia, a ver se ele, desta vez, responderia. Mas, nessa altura, a desconfiança que a vinha minando, alimentada de meias palavras e de gestos esquivos das vizinhas, confirmou-se, quando uma delas não aguentou mais:
- Justina… O teu homem morreu…
Logo ali, morreu a alma de Justina. Mas também o seu corpo começou a morrer nesse momento. Ao chegar à aldeia a notícia de que António falecera, esconderam-na sempre de Justina, com medo daquela gravidez madura. Constou-se que a vida lhe não correra e não teve coragem de voltar. Caído na miséria, adoeceu, acabando por perecer num hospital do Rio de Janeiro. Dizia-se que lhe deram o “chá da meia-noite” e nem do corpo se sabia, para lhe dar enterro.
De coração partido, Justina deixou de comer, de se cuidar, de se interessar pela criança. Sob aquela opressão, definhava de dia para dia. E, surda a qualquer apelo, deixava-se abater pela tristeza. Diziam-lhe:
- Chora, mulher, deita essa tristeza para fora de vez, mas trata de viver, pelo teu filho!

Mas Justina já não tinha lágrimas naqueles olhos azuis, que tinham perdido o brilho e eram agora fundos e vazios. E, encarando com indiferença o catre onde o filho dormia, nem dali hauria qualquer ânimo.
Um mês depois, apagou-se, como se apaga a chama duma vela, sob um golpe de vento. O delegado de saúde disse às mulheres que ela morrera de inanição ou de enfarte, mas não foi, morreu de amor. Sim, porque de amor também se morre.

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