Correio do Minho

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Ideias

2015-04-19 às 06h00

José Manuel Cruz

Esclareço. Não é o título que encima a crónica sigla críptica de aristocrático escritório de negócios, daqueles que bem nos entalam por força do conforto que para si melhor asseguram. Enigma ou chacota, em todo o caso seriam sempre “Dês” a mais. Penderá para a piada, a primeira percepção de um bracarense de gema, de tão habituado a brincar com “Pês”. Diferente da múltipla de “Pês”, não são os “Dês” dados as graças - os últimos, que dos primeiros ainda andamos com a cabeça à roda.
Inundados de ilusórias esperanças, começamos com uma tripla de “Dês” nos idos de ’74. Quatro décadas volvidas, desembocarmos na via sacra de similar pacote de letras. Nesses recuados tempos, talvez houvesse quem não achasse grande graça ao “Dê” de descolonização, quem torcesse o nariz ao “Dê” de democracia, mas não haveria racha ou fissura no monolítico “Dê” de desenvolvimento. Deixo de lado a “descolonização”, que tarde ou cedo teria que ser feita, embora não falte quem entenda que foi levada a cabo da forma mais absurda, por diletantes e traidores cheios de auto-suficiência. Choca-me não conseguir articular palavras elegantes sobre a “democracia”, diluída na proporção de 1:10.000 em retórica homeopática, reduzida a exercícios eleitorais de crescente mau-gosto e nulo efeito. Adoraria poder falar do “Dê” de desenvolvimento, se a receita que nos foi servida ao longo de duas gerações (!!) não nos tivesse empurrado para o atoleiro do “Dê” de desemprego, do “Dê” de défice, do “Dê” de dívida.
Daria o que não tenho para ler uma uma boa História de Portugal dos últimos 150 anos, sobretudo da segunda metade do século XX e do período hoje vivido. Narrativa que fosse fria, crua, pornograficamente objectiva. Mais do que uma colecção de erros e bestialidades dos agentes políticos, relatos que ainda assim cumpririam efeito de aviso e prevenção na escolha e escrutínio de estadistas presentes e vindouros, quereria eu perceber, finda tão notável leitura, se os trunfos e deslavados méritos da Revolução não nos teriam batido à porta igualmente pelo natural andamento das coisas. Não teria caído a mortalidade infantil ao mesmo ritmo, não teriam progredido os cuidados primários de saúde, não se teria generalizado efectivamente o acesso à educação - e não viria ele já de trás?
Espero escapar ao anátema de revisionista, eu que tenho formação ideológica para saber o que isso implica. Sei que não podemos compor o que há com o que poderia ter havido, que não devemos resgatar tiranias em nome de bondades que por hipótese plausível pudessem vir a ser implementadas. Mas, tal como estão as coisas, por muito que se esgravate é que não se encontram méritos que encham o peito.
Deceparam-se reis absolutos em nome do terceiro estado. Correram-se monarquias parlamentares, à bomba e à bala, em nome do cidadão, e da República que melhor responderia aos seus anseios. Vergaram-se ditaduras em nome de democracias, na certeza jurada da igualdade de direitos e oportunidades. O resultado é magro, e, no fundo, só terão mudado as elites, porque na outra ponta do espectro o drama humano mantém-se mesmo.
As democracias de papel definham. Esvaziados de poder, os cidadãos alheiam-se. Envergonhados, os poderes públicos, agitam a cartada do voto compulsório sob pena de pesadas multas. Já é assim em alguns países europeus, por exemplo na Bélgica, está na ordem do dia em França, por simpatia talvez desagúe em Portugal. E se os cidadãos, por desfeita, votarem maciçamente em branco? Saramago tem uma sátira mordaz sobre o assunto e, se a memória não me atraiçoa, na altura não faltou quem não se insurgisse, sendo mais veementes as críticas ao autor e à alegoria, do que o sobressalto pelo rumo que as democracias levavam. Enfim, não falta quem não se tranquilize com a gasta citação de Churchill.

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