Correio do Minho

Braga, terça-feira

Das coisas silenciosas

Um caminho diferente

Conta o Leitor

2018-08-04 às 06h00

Escritor

Autor: Marta Neri Coelho

Hoje, ao remexer em antigos escritos, mais uma tentativa de diminuir a montanha de papeis espalhados pela mesa, pelas estantes e prateleiras encontrou um de que nem se lembrava mais: o meio desabafo, meio registro de tardia paixão que vivera.
Ao rasgar aquele papel que ela bem se lembrava de quando, onde e como o havia escrito, teve a certeza de enterrar definitivamente aquela passagem de sua vida cujo conhecimento chegou apenas as suas duas amigas mais intimas.
Rasgou sem sequer ler. Não queria envolvimento com nada mais daquilo. Foi o que, classicamente, se denomina amor platônico. Mas foi tão intenso que a levou a largos períodos de angustia, choros inexplicáveis, insônias, extensas miradas para o nada... Foi um tempo cinza aquele.
Eles eram colegas de trabalho. Ambos militavam no mesmo campo de atividades – saneamento básico em comunidades periféricas – o9 que exigia constantes contatos profissionais. Mais telefônicos, é bem verdade. Os encontros vis-à-vis foram poucos. Ele era casado, ela também. Ele chegando aos quarente, ela já ultrapassara a metade dessa década. Nunca falaram uma vez que fosse sobre seus mútuos sentimentos, embora seus olhares chispassem paixão. O simples casual roçar de mãos ao passar uma ingênua folha de papel, numa duvida qualquer na elaboração de um documento, deixava-os quedos, mudos, atônitos por segundos. Eram jogados num abismo de pura privação de sentidos. A boca seca, mãos tremulas, coração disparado. Nesses breves instantes seus olhares não se cruzavam. E somente nesses instantes. Não conseguiam esconder deles e dos que os cercavam o prazer de estarem juntos durante as visitas de trabalho, ocupando-se sempre das tarefas mais demoradas e exaustivas que demandassem horários além do expediente convencional. Como se compraziam com essas ocasiões! Falavam sobre suas famílias. Seus pontos de vista, frequentemente, coincidiam ou se complementavam. Trocavam leves e inconsequentes confidencias. Nada que os colocassem frente a frente com o que acontecia, ali naquele momento. Eram cuidadosos como crianças que, no pique – esconde, ficam atrás de cortinas transparentes. Tinham sempre muito assunto, qualquer tema redundava em longos e prazerosos debates: ou porque concordassem ou porque divergissem. Almoçavam juntos. Sempre fora de hora. E também jantavam lá pras tantas da noite. No ultimo dia das reuniões, ele, invariavelmente, levava a mulher para o jantar de despedida. Era uma pessoa cativante. Que, se percebia algo; muito, inteligentemente, disfarçava. Embora num descuido instantâneo, deixasse transparecer certo desconforto angustiante. Manter o interesse; fazer-se naturalmente alegre e agradecida àquela gentileza, era um verdadeiro martírio, lembra-se agora. Quando haveria outra ocasião para estar com ele?...Aliás ela bem poderia manipular a agenda das viagens a serviço, competia-lhe como função. Mas não o fazia. Seus códigos de ética eram tão ou mais fortes que sua relação com o companheiro de toda vida. Podia até ser incongruência, mas ela não achava isso. Tampouco se sentia culpada. Nunca. Eram coisas de natureza tão diferentes!
De volta ao seu dia a dia, os que lhe eram mais próximos – o marido, especialmente – percebiam alteração no seu estado de ânimo. Não que se admirassem muito, pois ela sempre fora dada a momentos de melancolia, de pequenas depressões, alheamentos. Era quase um traço de sua personalidade. As musicas de “fossa”, tão ao gosto na sua juventude, não paravam de tocar nesses dias. Quanto tempo durou? Contando, contando não se lembra mais. O que tem bem nítido é a sua decisão de dar o basta em tudo. Tudo o que, afinal de contas?! Começou evitando os encontros de trabalho, passando suas atribuições para colegas da equipe, e não lhe faltaram alegações convincentes, mudou a área de atuação especializando-se em novos conteúdos, até transferir-se para outro setor da empresa. Culminou com um acompanhamento psicanalítico e daí sim, saiu renovada, fortalecida. Conhecendo com mais clareza seus limites, suas fantasias, seus medos.
Tudo isso ela vai considerando ao encontrar outras diminutas e silenciosas evidencias desse tempo. O que teria sido de sua vida, caso tivesse se deixado sucumbir a “cega paixão”? Indaga-se. Certamente, teria sido um desastre, pois aos poucos foi descobrindo que aquele era um comportamento mais ou menos comum nele. Nada havia de especial, como há época ele lhe fizera crer. Era um presunçoso e patético sedutor. O tumultuado caso com uma de suas colegas, tempos depois foi o ápice. Foram infelizes os dois. Lares desfeitos, filhos dispersados, empregos perdidos. Decepções e amarguras pespegadas as suas vidas. Mais uma pequena tragédia do cotidiano que parece pouco importar a quem não a vive. Mas que deixa profundos sulcos na alma. Restos de sonhos, rotos, esfrangalhados. Que precisam ser remendados quase artesanalmente, ponto a ponto com finas linhas de seda, até se transformarem em generosa e colorida colcha de retalhos. Do passado, mal se vislumbrarão esmaecidas e fugazes sombras, rastros quase imperceptíveis.
E o seu casamento?...proximamente completarão bodas de... Do que mesmo? São tantos anos....

Deixa o teu comentário

Últimas Conta o Leitor

31 Agosto 2018

Ingratidão

30 Agosto 2018

Humanum Amare Est

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.