Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Dar tiros nos pés

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2011-05-17 às 06h00

Jorge Cruz

Os portugueses têm assistido atónitos, com um misto de incredulidade e de espanto, à forma pouco profissional e por vezes leviana como alguns políticos abordam questões da máxima relevância para o futuro de todos nós.

A menos de três semanas das eleições parece reinar grande confusão nas hostes do principal partido da oposição, como que a dar razão ao ditado que garante que em casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão.

O simpático mas ultimamente “muito acelerado” Eduardo Catroga (é o próprio quem o diz) começou a entusiasmar-se em demasia, quem sabe se deslumbrado pela miragem de poder vir a ser titular da pasta das Finanças, e desdobrou-se em entrevistas. Não seria daí que viria qualquer mal ao mundo se Catroga se limitasse a falar do programa do seu partido. O problema é que, segundo parece, o putativo ministro das Finanças de um cada vez menos provável governo de Passos Coelho, estendeu-se em demasia e disse coisas tão disparatadas que desaconselham completamente a sua manutenção no confronto político. Daí à sua retirada para um período de férias foi um ápice.

A verdade, porém, é que não obstante as gafes e desatinos que cometeu, Eduardo Catroga está indiscutivelmente num patamar superior àquele em que se encontram alguns dos dirigentes que hoje rodeiam o líder do PSD. Não será difícil reconhecer-lhe as qualidades que fizeram dele provavelmente o melhor ministro das Finanças do cavaquismo, ou seja, a inteligência, a competência e a experiência política.

Mas isso foi no século passado, porque a julgar pelas últimas intervenções públicas, com os anos terá perdido a contenção verbal que lhe era reconhecida e enveredou por caminhos que não domina, defrontando-se com grandes dificuldades de comunicação.

O episódio em que Catroga fez comparações entre José Sócrates e Hitler foi um momento extremamente infeliz que deveria ter sido imediatamente seguido de um pedido formal de desculpas ao ofendido. Em política não pode valer tudo. E emparelhar o primeiro-ministro português com o líder do nazismo ultrapassa todos os limites do racional.

Curiosamente, e ao contrário do que sucedeu dias depois, quando Catroga defendeu maior redução da taxa social única (TSU), não apareceu ninguém da direcção do PSD a repudiar as suas palavras ou, sequer, a falar sobre o assunto. Também embaraçosa para a direcção laranja foi a sua alusão aos pelos púbicos, na entrevista televisiva com José Gomes Ferreira. Um silêncio ensurdecedor marcou estes dois episódios.

Só na questão da TSU é que o coordenador do Gabinete de Estudos do PSD veio a público para garantir que o seu partido defende apenas a redução até quatro por cento conforme consta do programa. O problema é que Catroga tinha advogado a redução de oito por cento, esclarecendo que essa diminuição deveria acontecer em duas fases, e ao que parece neste ponto até nem está isolado no seu partido.

A providencial saída de cena por motivo de férias aliviou um pouco a tensão na equipa laranja, se é que no caso do PSD se pode falar com propriedade em equipa. Aliás, veja-se o caso do próprio líder do partido, que já prometeu melhorar o programa eleitoral do PSD para a educação, isto dias depois de o ter apresentado publicamente. Para a mudança de atitude de Passos Coelho bastaram as críticas que Santana Castilho dirigiu ao documento.

A sucessão de incidentes ou casos no PSD provoca naturalmente algum descrédito tanto mais que este tipo de situações é pouco frequente nos partidos bem colocados para protagonizarem a alternância no poder. Na relativamente jovem democracia portuguesa, todos sentimos ser mais usual perder eleições do que ganhá-las.

Daí que, face ao enormíssimo desgaste do governo de José Sócrates, o partido de Passos Coelho alimentasse boas perspectivas de vitória. Mas se essa probabilidade era praticamente indiscutível há tempos, antes dos dirigentes laranja saírem à rua e falarem, hoje em dia, sinceramente, parece-me bastante mais remota.

Mas esta sucessão de incidentes, além de mostrar que a ânsia de chegar ao poder é enorme e não é compaginável com a prudência, também significa que o PSD de Passos Coelho tem um sério problema de comunicação. Problema que, aliás, também está a afectar o PS, embora em menor escala.

Na realidade, os socialistas também têm de se cuidar. Não podem imitar o seu adversário nesse desporto cada vez mais praticado por políticos que é dar tiros nos pés. A corrosão que o governo sofreu por razões de vária ordem, exógena mas também endógena, já tem uma dimensão suficientemente grandiosa. Não me parece que necessite agora de mais contributos, principalmente de vozes discordantes do seu interior. Se ao fim de uma legislatura e meia ainda não consegue falar a uma só voz em matérias tão marcantes como na que se prende com a privatização, ou não, da televisão pública, então as coisas também não correrão pelo melhor.

Um militante com as responsabilidades políticas de um secretário de Estado não pode divergir publicamente da posição oficial do partido, como aconteceu a semana passada.
Num sistema político em que a bipolarização entre dois partidos é um dado adquirido, existe como que um sistema de vasos comunicantes que canaliza os descontentamentos com uma das forças para apoios ao seu opositor.

E, por outro lado, sabe-se a importância das massas que navegam nas águas indefinidas entre os dois partidos e das suas indecisões, quantas vezes até à hora de exercerem o seu dever cívico. Como também não se ignora que para a decisão de voto contribuem todas as informações que o eleitor consegue recolher. Essa deverá ser uma razão acrescida para que os políticos encarem a comunicação com os eleitores com verdade e com maior profissionalismo.

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