Correio do Minho

Braga, sexta-feira

Dar o dito por não dito

Pecado Original

Ideias Políticas

2015-03-31 às 06h00

Carlos Almeida

Saberá o leitor que já noutros momentos chamei a atenção para o estilo de governação adoptado pela actual maioria no executivo municipal de Braga. Não é que lhe tenha especial apreço, mas, na verdade, não posso ignorar a sua eficácia.
Trago o assunto novamente à conversa a propósito do recente debate, em sede de reunião de câmara, em torno da remunicipalização da AGERE.

Dias antes da referida reunião, já o Presidente da Câmara fazia saber a sua posição sobre a matéria, utilizando para o efeito uma muito conveniente visita, imagine-se, às instalações da AGERE. Declarava então o Presidente que “preferia ter 100% da AGERE”, em lugar dos 51% tidos hoje, uma vez que “é uma empresa saudável, que não dá grandes preocupações à sua gestão”. Adiantava, no entanto, “uma questão incontornável”: onde é que a Câmara iria buscar os milhões de euros necessários para comprar a participação dos privados?

Convém, antes de mais, sublinhar o facto de Ricardo Rio, hoje Presidente da Câmara de Braga, achar preferível que a AGERE fosse detida em 100% pela autarquia. Recorde-se que Ricardo Rio, deputado na Assembleia Municipal de Braga em 2004, votou favoravelmente a privatização da AGERE, tal como o seu partido (PSD), junto do PS e do CDS. Mais interessante ainda é a coincidência de ter sido o próprio Ricardo Rio a intervir na sessão da Assembleia Municipal que veio a aprovar a privatização.

Não sei se percebem a minha perplexidade, mas não acham no mínimo estranho que a mesma pessoa que defendeu e votou a privatização de uma empresa municipal, venha agora dizer que preferia que essa mesma empresa fosse 100% pública?
Depois vem a parte dos milhões necessários para se remunicipalizar a AGERE. É uma evidência que a compra do capital privado da AGERE representaria um grande investimento municipal. E quanto a isso, há quem defenda que esta é uma prioridade - a CDU - e há quem entenda que esta é uma questão menor - a coligação PSD/CDS.

Podia a Câmara de Braga avançar com a compra da participação dos privados na AGERE? Podia, ainda que essa não fosse a vontade do consórcio privado.
Teria que comprar o capital na sua totalidade, de imediato, de uma só vez? Não. Podia, por exemplo, ir aumentando a sua participação no capital da empresa, aumentando consequentemente a sua posição de influência na gestão.

Podia a Câmara de Braga contratar um empréstimo de médio ou longo prazo para concretizar a operação? Sim, podia, visto que a margem de endividamento do município de Braga está, ao contrário do que se fez crer, acima dos 20 milhões de euros.
Teria condições para contratar o referido empréstimo? Sim, bastava que, por exemplo, canalizasse parte dos dividendos provenientes da AGERE (mais de 1,5 milhões de euros por ano) para amortizar o empréstimo.

Concorde-se ou não com este caminho, aquilo que se exigia, depois de apresentada a proposta de remunicipalização da AGERE, era um debate sério sobre o assunto.
Ao invés, a maioria PSD/CDS preferiu adoptar manobras de distração, vindo falar do resgate da “parceria dos sintéticos” (pelos vistos, neste caso, Ricardo Rio não precisa que lhe digam onde vai buscar os milhões de euros!) e da participação da Câmara nas SADs do S.C.Braga e do ABC.

E é aqui que reside a eficácia deste estilo de governação. Não se fala do que se tem de falar, mas daquilo que se quer falar. Só se fala daquilo que agrada as pessoas, do que é simpático para a grande maioria da população, ainda que sem grandes resultados ou consequências.
É uma espécie de absolutização do discurso oficial, tornando-o único e verdadeiro. Nada mais passa, nada mais é viável, tal é a blindagem informativa.

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