Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Da Universidade de Sokal, Crato e Passos Coelho, à Universidade da ciência como aventura do pensamento

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Ideias

2018-03-12 às 06h00

Moisés de Lemos Martins

Em 1996, Alan Sokal, um físico da Universidade de Nova Iorque, viu aprovado na revista de estudos culturais, Social Text, o artigo Transgredir as Fronteiras: Para uma Hermenêutica Transformativa da Gravitação Quântica. À época, esta revista tinha uma revisão por pares pouco consolidada, e o artigo foi publicado, apesar de não passar de uma impostura. Sokal não perdeu tempo para se vangloriar da inverosímil proeza que conseguira, porque havia feito apenas uma paródia, e não um artigo científico.
Confessou que preparara uma emboscada às Ciências Sociais e Humanas (CSH) e que a Social Text havia caído no engodo. O seu procedimento havia-lhe permitido desmascará-las, pondo a nu a sua inconsistência, sempre que não eram ciências da medida, mas apenas pensamento. O artigo fora estruturado em torno de nomes sonantes do pensamento, de modo a poder cair no goto dos editores.

Encorajado pela sua façanha, Sokal escreveu, então, com o físico belga, Jean Bricmont, em 1999, o livro Imposturas Intelectuais. Fê-lo em nome da ciência dos números e da medida a ciência que dispensa o pensamento. Denunciando, deste modo, o logro das CSH, sempre que eram apenas pensamento, concluiu que a ciência do pensamento era ignorante sobre a verdadeira ciência a física e a matemática, por exemplo.
E assim, de uma assentada, Sokal julgou poder libertar-se de nada menos que Feyerabend, Latour, Lacan, Deleuze, Lyotard, Baudrillard, Guattary, Virilio, Kristeva, Foucault, Bergson, Merleau-Ponty, Derrida, Morin, e Boaventura Sousa Santos, para referir apenas alguns dos mais significativos vultos do pensamento contemporâneo.
Logo em 1999, Nuno Crato traduziu para português Imposturas Intelectuais.

Entretanto, por essa época, em 2002, o físico português, António Manuel Baptista, entendeu seguir as pisadas de Sokal e escreveu O Discurso Pós-moderno contra a Ciência. Obscurantismo e Irresponsabilidade, uma diatribe contra Um Discurso sobre as Ciências, livro que Boaventura Sousa Santos havia publicado em 1987 e ia na 12ª edição. E Nuno Crato não perdeu tempo, entrevistando-o de imediato para a revista do semanário Expresso. O título que deu à sua entrevista é em si mesmo significativo: António Baptista. Em Defesa da Ciência.
Uma década mais tarde, Nuno Crato estava à frente do Ministério da Educação e da Ciência, no Governo de Passos Coelho. Tinha agora a oportunidade de defender ele próprio a Ciência, impondo na Universidade a ciência dos números e da medida, contra o pensamento.

Passos Coelho, Primeiro Ministro, não pensava coisa diferente de Crato em relação à Ciência e à Universidade. Começou por explicar à Agência Lusa (09/11/2011) que iria introduzir alterações ao modelo de financiamento das unidades de investigação, concentrando os apoios onde eles são cientificamente mais rentáveis. E o sentido dessa política para as Universidades teve como consequência imediata um ajustamento ao financiamento das CSH, que então viram diminuído de 22% para 15% o financiamento público para a ciência.
Mas o que fez Crato das CSH que não são exclusivamente número e medida, mas pensamento? Dou um exemplo. Em 2014, com três anos de execução dessa política, o Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (CECS) da Universidade do Minho, uma unidade de investigação em Ciências da Comunicação, avaliada como Excelente pelos peritos internacionais da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, de resto o único centro de investigação da sua área no país a obter tal classificação, viu o seu orçamento cortado em 30%, viu reprovados projetos avaliados como excelentes e reduzidas drasticamente as bolsas para formação avançada. Em 2013, o CECS teve uma única bolsa de doutoramento aprovada; em 2012, apenas um projeto financiado; e nenhum projeto foi aprovado no concurso de 2013.

E o que é que se pode concluir, hoje, em 2018, sobre a Universidade? No fundamental, a Universidade é uma realidade sem pensamento e apenas com números. É verdade que esta realidade não é recente, nem é um vento ruim passageiro, nem se prende sequer com este ou com aquele governo é uma tendência universal. Gerida como uma empresa, a Universidade está por conta de círculos académicos saturados, que se apoiam, tanto nas forças vivas, locais e regionais, como numa estrutura técnico-política, alojada nas Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional, assim como se apoiam, também, num tentacular controle tecnológico, assente em plataformas informáticas que maximizam as possibilidades da ciência da informação. Hoje, não parece haver mais mundo na Universidade que não sejam necessidades de mercado, financeiro e de trabalho.

De facto, aquilo que faz, hoje, a natureza da Universidade é a ideologia comercial: as universidades são empresas; a educação são serviços; o ensino e a investigação são oportunidades de negócios; os professores são profissionais de serviços ou consultores; os alunos são clientes. E com o mercado financeiro e o mercado de trabalho a ribombar fantasticamente por cima da sua cabeça, a Universidade faz manchete da sua excelência, que repousa exclusivamente no número e na medida.
Alienada da sua natureza própria e equivocada sobre os interesses que acima de tudo deve servir, a Universidade tornou-se mais opaca, o que quer dizer, menos democrática, menos livre, e muito mais dependente de lógicas que lhe são alheias - lógicas que se por um lado são empresariais e comerciais, por outro, são burocráticas.

Instituição com números, sem pensamento, com o quotidiano académico a pulsar ao ritmo da máquina, numa desenfreada mobilização tecnológica para o mercado, para a estatística e para o ranking, a Universidade faz, além disso, a entronização dos procedimentos corretivos e ortopédicos, certificando no ensino e na investigação meras rotinas e conformidades, eficiências e utilidades.
Penso, todavia, que a Universidade deve ser outra coisa. Tendo como missão a salvaguarda das possibilidades da (a) aventura do pensamento, a Universidade deve ser encarada como um lugar de liberdade irrestrita. Cabe-lhe fazer do ensino e da ciência uma ideia, que encarne um princípio de resistência crítica e uma força de dissidência, ambos comandados por uma justiça do pensamento.
Neste contexto, não tem nada de surpreendente que Pedro Passos Coelho tenha sido contratado por uma Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, o Instituto de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa (ISCSP). É apenas o triunfo daquela ciência, que faz manchete da sua excelência, da sua qualidade, ou seja, da sua ligação às empresas, ao empreendedorismo, à competitividade e à produtividade. É apenas o triunfo da ciência dos números, o triunfo da ciência da medida, sobre a ciência como aventura do pensamento.

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