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Da simplificação da culpa à acção excepcional em Política

Nós e os outros… ainda mais!

Ideias

2012-03-15 às 06h00

Isabel Estrada Carvalhais Isabel Estrada Carvalhais

A uma semana da primavera que já chegou, e ainda no calendário de um inverno que o não foi, recordo que a 15 de Março de 1933, na primeira reunião do Gabinete de Hitler (empossado no início do ano, no seguimento da vitória eleitoral em Novembro de 1932) eram delineadas as ideias-mestras das acções que viriam a marcar a agenda política dos dias seguintes e, posteriormente, a ditar grande parte da História da segunda metade do século XX.
Assim, a 21 de Março de 1933, Hitler consegue a assinatura do Presidente Hindenberg em dois decretos essenciais à prossecução da agenda Nazi: um concede o perdão imediato a todos os prisioneiros nazis; o outro dita o encarceramento de todo e qualquer suspeito de crítica, quer ao Governo de Hitler, quer ao seu partido.
Entretanto, a 23 de Março, discursando perante os deputados alemães no edifício da Krolloper - para onde o Parlamento alemão se muda no seguimento do incêndio de Fevereiro de 1933 ocorrido no Reichstag, e que a máquina de propaganda nazi depressa atribui a suposta acção comunista - Hitler procura demonstrar a absoluta necessidade de aprovação de uma lei plenipotenciária que garanta ao seu governo plenos poderes, e sobretudo que lhe garante acção legislativa por decreto. Hitler insiste assim numa ideia central: a necessidade imperiosa de controlar o perigo comunista, de combater o desemprego na sociedade alemã, e de revitalizar a sua dignidade colectiva, exige que se adoptem leis e acções excepcionais a serem usadas apenas na exacta media em que as situações que abordam são também elas excepcionais.
Entre esse tempo da Alemanha hitleriana e o tempo presente, a Europa conheceu uma profunda transformação política, tendo escolhido, não sem amargas vicissitudes, o caminho do aprofundamento da cultura democrática, caminho no qual o projecto comum europeu se afirmou como balisar.
No entanto, há tentações recorrentes na forma como as nossas sociedades lêem os seus sinais de alarme em momentos de particular tenção económica e social como os que vivemos. Ontem como hoje, o discurso populista da extrema-direita na Europa agarra-se a argumentos semelhantes: segundo aquele, estamos numa profunda crise económica e numa crise de valores, ameaçando ambas a subsistência das identidades nacionais. Para a crise de valores e para a crise económica concorrem males a combater, entre eles, a presença sempre perturbadora do estranho (seja na forma de Imigrante, de muçulmano, de judeu…). E ontem como hoje, o combate faz-se pela via da excepcionalidade da acção a implementar.
Tomemos como exemplo a campanha eleitoral em França para as presidenciais de Abril próximo. Exemplo arrevesado? Nem por isso.
Pela primeira vez desde que se declarou candidato oficial à presidência da República Francesa, há exactamente um mês, Sarkozy aparece à frente do candidato socialista François Hollande nas intenções de voto para a primeira volta, ainda que por escassa diferença (28,5% contra 27%). Para este súbito reposicionamento que muitos já vaticinavam impossível, não é certamente indiferente a sua colagem às franjas da extrema-direita. Numa clara aproximação ao eleitorado natural do Front National de Jean Marie Le Pen e da sua filha candidata Marine Le Pen, Sarkozy não se coíbe de eleger os imigrantes para bode expiatório dos males económicos e sociais da sociedade francesa e de sublinhar a necessidade de medidas políticas que reforcem a protecção das fronteiras da Europa (ameaçando abandonar o Espaço Schengen se tal reforço não ocorrer no curto prazo). Seguindo o mesmo rationale, frisa a importância de políticas que estimulem o consumo nacional, recuperando o velho chavão do proteccionismo que sempre emerge quando o capitalismo global se revela afinal predador para os próprios estados centrais que sempre o fomentaram. “E se não controlamos a Imigração não vamos à falência?” pergunta-se retoricamente Sarkozy em debate televisivo a 07 de Março, estabelecendo assim um claro nexo de causalidade entre imigração e crise francesa na forma de desemprego, degradação das políticas sociais e desintegração social…
Que fique bem claro que não se trata de modo algum de proceder aqui à leviana comparação do ditador sanguinário, com Nicolas Sarkozy, figurinha que parece confundir postura de estadista com atitude colérica a raiar o caprichoso, mas que para todos os efeitos (desde logo dos que relevam para a História que há-de ser escrita) é amplamente inofensivo. Trata-se sim de convidar o leitor a uma curta reflexão para o modo como as opiniões públicas tendem a ser presa fácil de discursos populistas que na sua emotividade intencional exibem o Outro como fonte última dos problemas que ameaçam desestruturar o quotidiano que o cidadão julgava controlar.
Há pois tentações recorrentes em que partes (ameaçadoramente crescentes) das nossas sociedades caem, como seja esta simplificação das causas dos males económicos e sociais, com que de seguida se legitima a bestialidade da acção excepcional.

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