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Braga, sexta-feira

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Da Roménia com Amor

A Galinha fala de choca

Da Roménia com Amor

Ideias

2022-11-29 às 06h00

João Marques João Marques

Seria cómico se não fosse trágico. Em 2024, Portugal cairá, se tudo correr mal, como é previsto, para trás da Roménia no que respeita a um dos principais indicadores económicos – o PIB per capita. Quer isto dizer que o produto (riqueza) gerado por cada português será menor face àquele que cada romeno consegue fazer criar. E este dado não perde a sua relevância se incluirmos na equação o decréscimo de população a que se assistiu na Roménia, como já aí tentaram fazer os soldadinhos do regime.
Repare-se, não é só no PIB per capita que seremos ultrapassados. De acordo com a notícia do semanário Expresso, a Comissão Europeia prevê que a Roménia nos ultrapasse na taxa de crescimento do PIB (1,8% contra 0,7%), no investimento total (5,6% contra 3,5%), no investimento em construção (6,2% contra 3,3%), no investimento em equipamentos (4,6% contra 2,9%) bem como na produtividade do trabalho (3,2% contra 0,5%). Em quase todos estes parâmetros a Roménia bate-nos inapelavelmente, em vários deles por mais do dobro das nossas taxas.
A somar (ou a subtrair) a isto temos que, em 2023, a dívida pública da Roménia se fixará em 47,3%, o que nos traumatiza se olharmos a que a dívida portuguesa ultrapassará os 109%.
Este retrato impactante da falência do país enquanto projeto promotor e indutor de crescimento e bem-estar é suportado por outros índices igualmente preocupantes, como os decorrentes dos resultados do Censos 2021, que o INE apresentou, na sua versão final, na semana passada.
Portugal continua a perder população, desta feita, somos menos 2,1 % face a 2011. Apesar do sucesso tremendo de Braga, que é o concelho que mais cresce em todo o país, temos de reconhecer a fraca consolação que tal representa se por confronto com a depressão demográfica por que passa a nação. Os portugueses com mais de 65 anos representam agora praticamente um quarto de toda a população, tendo a média de idades subido 3,1 anos face a 2011, para 45, 4 anos.
Os únicos indicadores positivos reportam-se à formação, em que progredimos muitíssimo, com quase 20% da população a terminar o ensino superior – em 2011 eram apenas 13,9%; e à atração de imigrantes, onde se notam bolsas de imigração muito significativas sobretudo entre cidadãos brasileiros, mas também outros provindos de várias partes do mundo.
A litoralização também cresceu, mas mais impactante é a cifra que demonstra que 20% dos portugueses se concentram em apenas 1,1% do território.
O que este conjunto de informação demonstra é que nos encontramos numa encruzilhada nacional.
Com a honrosa exceção da formação, o país parece ter perdido 20 anos em matéria de progresso económico, de harmonização do seu território e de fixação de população.
Continuamos nas franjas dos mínimos olímpicos em termos de convergência com a UE e somos ultrapassados pela esquerda e pela direita, inopinadamente, por um conjunto de países que partiram de pressupostos bem mais complexos e tiveram muito menos tempo do que Portugal para evoluir favoravelmente.
É sintomático que este índice do PIB per capita seja utilizado pela Comissão Europeia para perceber em que estágio de convergência se encontram os Estados-Membros e para assim definir as necessidades em termos de políticas de coesão.
Quer isto dizer que a dimensão do nosso insucesso coletivo é a garantia da manutenção dos apoios da União Europeia por muitos mais anos. Portugal ameaça, assim, tornar-se num caso de estudo de ineficácia e ineptidão na gestão das ajudas que deveriam contribuir para a sua autossuficiência e evolução económica.
Este paradoxo que nos garante a sacrossanta esmola dourada da “Europa”, por força da imobilidade da nossa economia e da reduzida prosperidade da sociedade, condena-nos a uma dependência crónica que nos liga à máquina, injeta a metadona e nos permite esquecer do objetivo maior – combater a dependência e quebrar as amarras do vício.
Para ultrapassarmos esta estagnação pátria não podemos contar com quem já demonstrou não querer saber da promoção das alterações necessárias a esse desiderato.
Quem continua agarrado a uma certa forma de fazer as coisas e de fazer política, centrado na sua sobrevivência, independentemente da degenerescência do país, não pode fazer parte da solução.
A marca dos perto de 21 anos em que o PS dirigiu o país, nos cerca de 27 anos que passaram desde 1995, é a do fracasso total. Interpolado por duas pequenas excursões do PSD e CDS, em situações francamente condicionadas por pântanos e bancarrotas socialistas, o PS teve liberdade toral para moldar o país. E o que fez com essa liberdade? Prendeu-nos à mediocridade económica, à falência dos serviços públicos e à ilusão do progresso sustentado nos choques tecnológicos e modernizações administrativas que mais não parecem ter conseguido do que emitir senhas à distância que dão direito a esperas infindáveis pelo acesso mais básico à administração pública, a tal que pagamos (cada vez mais) com os nossos impostos.
Cumprir Portugal não é isto, nem pode ser isto.

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