Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Da Peregrinação de João Botelho à circum-navegação digital, a ser feita por todo o espaço lusófono

A pretexto de coisa alguma

Ensino

2018-01-15 às 06h00

Moisés de Lemos Martins

Mal me apercebi da passagem de Peregrinação pelas salas de cinema. Estive, todavia, em outubro passado, no Teatro Nacional São João, na antestreia do último filme de João Botelho. E eu próprio promovi uma sessão de visionamento de Peregrinação, no Braga Parque, aquando do Congresso sobre Culturas Interfaces da Lusofonia, realizado na Universidade do Minho, em finais de novembro.
Como reação a esta obra marcante da nossa cinematografia, nada de particular há a assinalar na imprensa, tirando o justo destaque que o Jornal de Letras, Artes e Ideias lhe fez, dedicando-lhe cinco páginas numa das suas edições, com textos de Eduardo Lourenço, Guilherme dOliveira Martins e Fernando-António Almeida, além de uma extensa entrevista feita por Manuel Halpern.

João Botelho escreve o guião de Peregrinação retomando ume centena e meia de páginas do grandioso relato de viagens, escrito por Fernão Mendes Pinto, com cerca de oitocentas, ligadas à Expansão portuguesa. Grande parte dessas viagens foram feitas pelo próprio escritor seiscentista. Mas uma parte delas tê-las-á apenas ouvido contar, e outras ainda, apenas as terá imaginado.
Mas a Peregrinação não é uma narrativa que se tenha imposto aos Portugueses. E o seu autor, Fernão Mendes Pinto, não chegou sequer a ver em vida a sua obra publicada. Além de que foi em vão que esperou por uma tença real, de que por via dela se julgava merecedor.

A Expansão teve em Camões o seu bardo e em Os Lusíadas o seu poema maior - o poema que mais do que qualquer outro, na nossa história, canta a grandiosidade dessa gesta. Neil Armstrong, ao chegar à lua, em 1969, declarou que o feito que acabara de realizar apenas era comparável ao dos argonautas portugueses dos séculos XV e XVI. E, à semelhança do que pensava Armstrong, uma nova historiografia estabelece a Expansão portuguesa como o início da época moderna.
Na Universidade de Lisboa, Henrique Leitão tem demonstrado, em quase vinte anos de investigação, como os Descobrimentos portugueses foram, antes de mais, um grande empreendimento científico, só ao alcance de quem se encontrava na vanguarda da ciência moderna: física, matemática, estudos cartográficos e estudos náuticos. Então, não se tratou, apenas, de abrir novas rotas marítimas ao comércio, nem de conhecer a diversidade do mundo, ou então de espalhar a fé cristã. O que estava em causa eram, sobretudo, novos conhecimentos e o modo de os tornar operativos. Tratava-se de um novo modo de conceber a nação portuguesa, assente em novas práticas científicas e em novas profissões. E, também, em novas paisagens, novas atmosferas, novas culturas. Esse labor valeu a Henrique Leitão, em 2014, o Prémio Pessoa.

Mas também Martin Page escreveu, em 2002, A Primeira Aldeia Global: Como Portugal Mudou o Mundo um best seller formidável, que em Portugal esgotou quase dezena e meia de edições. Russell-Wood escreveu sobre O Império Português, 1415-1808. O Mundo em Movimento. E mais recentemente, Roger Crowley escreveu o majestoso e surpreendente ensaio, Conquistadores. Como Portugal Criou o Primeiro Império Global.
Gosto incomparavelmente mais da Peregrinação que dos Lusíadas. Ambos relatam uma experiência. Mas uma coisa é a experiência de uma nação. Porque é da sua natureza fixar e prender um povo num território, num Estado, numa Igreja, numa tradição, numa narrativa. E os Lusíadas são isso: cantam a epopeia dos Portugueses, exaltando-a em termos nacionalistas. Mas coisa bem diferente é a experiência de um indivíduo, porque o seu confronto com as coisas que vê, com os outros com que tem que ver, e consigo mesmo, vai direito ao coração do humano, à sua natureza rugosa, áspera, labiríntica, enigmática, nomádica e fragmentária.

Costumo tomar a experiência da Expansão portuguesa, e especificamente a experiência da circum-navegação marítima, como a metáfora maior da nossa condição moderna, a condição de quem se vê convocado a fazer a travessia do mundo aberto pela tecnologia, e particularmente pelo digital.
Na circum-navegação marítima houve os dispositivos náuticos, como o quadrante, o sextante, o astrolábio, a esfera armilar, a bússola, as cartas náuticas. E também houve as alavancas, as roldanas, os canhões, as bombas de água.
Mas a atual travessia tecnológica também nos fala de um mundo novo, com sites, portais eletrónicos, redes sociotécnicas, repositórios digitais e museus virtuais. Hoje, ler o jornal, ver televisão ou ir às exposições de um museu, são exercícios de conhecimento, que incluem práticas de navegação Web: downloads, pirateados ou não; visualizações no Youtube; discussões nas redes sociais; expansão de artigos em posts de blogues; expansão de imagens em vídeos no Youtube. E, por todo o lado, surgem profissionais para este novo contexto digital, particularmente web designers, curadores online, gestores de museus virtuais, ativistas da web, youtubers.

É verdade que a modernidade para que remete Peregrinação não conhece o movimento de secularização, que irrompe no Ocidente no século XVIII, cortando com o regime da analogia (em que todas as criaturas eram feitas à imagem de Deus) e precipitando o humano na contingência e na necessidade de ter que decidir por si mesmo, sem nenhuma garantia de o fazer na certeza.
Também não conhece a cultura de massas, que se iniciou na segunda metade do século XIX, com a máquina fotográfica, e se desenvolveu depois, sobretudo, com o cinema, a televisão, o vídeo e a Internet. Assim como não conhece a mobilização tecnológica, que desfaz todos os acentos do tempo: para utilizarmos as palavras de Paul Celan, o agudo da atualidade; o grave da historicidade; e o circunflexo da eternidade o circunflexo, que é um sinal de expansão do tempo.

Na Peregrinação, o humano tinha ainda todos os acentos do tempo. Agora, o que podemos dizer fazemo-lo com Ulrich, personagem de O Homem sem Qualidades. Mobilizados para o presente, percebemos que nunca como hoje fomos capazes de acumular tanto conhecimento. Mas, da mesma forma, nunca como agora nos sentimos impotentes para alterar o curso das coisas, dada a mobilização tecnológica do humano, que empurra rio abaixo, em enxurrada, o passado, o presente e o futuro.

Voltemos à Peregrinação de João Botelho. O filme relata a história da travessia seiscentista, que os Portugueses realizaram, sulcando novos mares, paisagens, ambientes, atmosferas, culturas e conhecimentos. Na sua narrativa, o cineasta convocou Por este rio acima, o álbum de canções, que Fausto editou em 1982. Expurgou, todavia, o lado popularucho das toadas, que em Fausto eram à base de chulas, corridinhos e fandangos. E esse procedimento permitiu-lhe converter as canções em esplêndidos coros polifónicos, que expandiram até confins a experiência humana da circum-navegação marítima.
Uma interrogação final. Pergunto-me, se não é hoje possível expandir a narrativa da circum-navegação tecnológica, fazendo da atual experiência digital uma travessia coletiva, a empreender por todos os povos que falam a língua portuguesa, de modo a abrir para confins o interconhecimento, o diálogo e a cooperação.

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.