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Da minha língua vê-se o mar. e a indignação!

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Da minha língua vê-se o mar. e a indignação!

Ideias

2021-05-09 às 06h00

Artur Coimbra Artur Coimbra

1. No passado 5 de Maio, comemorou-se o Dia Mundial da Língua Portuguesa. Uma efeméride importante e prestigiante para a nossa língua, a nossa literatura e a nossa cultura em geral, que aconteceu pela segunda vez, após a sua consagração pela UNESCO em Novembro de 2019. As comemorações do Dia Mundial da Língua Portuguesa decorreram em 44 países, com mais de 150 atividades, em formato misto, presencial e virtual, devido à pandemia de covid-19.
Este dia, além de glorificar e homenagear o nosso idioma, tem como propósito afirmar a Língua Portuguesa enquanto língua global de ciência, cultura, economia, diplomacia e paz. Uma língua que está presente nas Américas, na Europa, na Ásia e na África com cerca de 285 milhões de falantes.
“Da minha língua vê-se o mar. Da minha língua ouve-se o seu rumor, como da de outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio do deserto”.
Deste belíssimo excerto de Vergílio Ferreira, partimos para a realidade da importância da Língua Portuguesa, como espaço de navegação dos seus falantes e escreventes.
Uma língua que, como escrevia Eduardo Lourenço, não tem outro sujeito que aqueles que a falam, nela se falando. Cada falante é o seu guardião e a sua vestal.
Por seu turno, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, defende que “A riqueza de uma língua se mede pela diversidade e pela inclusão das suas vozes”, recomendando “a participação plena, significativa e efectiva das mulheres e dos jovens em todos os processos de decisão”.
Uma língua que vem de longe, dos confins da História e se foi solidificando, espalhando, miscigenando, enriquecendo com contributos de outros falares, outros dizeres.
A língua portuguesa é a nossa pátria comum, com a qual nos entendemos e nos desentendemos, tantas vezes, enquanto indivíduos e enquanto comunidade.
Que aprendemos na mais tenra infância e connosco vai crescendo, amadurecendo, envelhecendo, até ao nosso desaparecimento. Do berço à tumba nos falamos e falamos o mundo, na nossa amada língua mátria.
É o mar onde se expressam os poetas e os escritores, os artistas e os músicos, os cientistas, os médicos, os desportistas, as elites e o povo, os ricos e os pobres, cada qual com a sua riqueza e os seus limites. A fala sagrada de D. Dinis, de Camões, de Gil Vicente, de Pessoa, de Saramago, de Torga, de Sophia, de Lobo Antunes. De Luandino Vieira, de Pepetela; de Machado de Assis, de Guimarães Rosa; de Jorge Amado, de Chico Buarque. De Craveirinha e de Mia Couto. E de tantos outros, maiores e menores, uma língua como um mundo pelos quatro cantos repartida. Isto no universo da criação literária. Mas também soam os nomes de Amália, de Mariza, de Cesária Évora, de Vinícius de Moraes, de Egas Moniz, de António Damásio, de Eusébio, de Ronaldo, de Pelé, e tantos outros protagonistas de tantas outras áreas onde se expressa a nossa língua, pelos quatro cantos do mundo.
Na sua inteireza, na sua força e também nas suas fragilidades, a língua é mais forte que a geografia. Um património imaterial que prevalece para além de guerras, de crises, de revoluções, de sobressaltos cívicos, económicos ou políticos. Uma língua que gerou a independência de Portugal, que ultrapassou a crise de 1383-85, que se espalhou pela rota dos navegantes de Quinhentos, que foi à Índia e aos Brasis, que sobreviveu ao domínio filipino (1580-1640), que foi Absolutismo e Liberalismo, Monarquia e República, Estado Novo e Democracia.
A língua mobiliza, unifica e é um dos traços fundamentais do carácter de um povo, da construção da noção de Pátria e de Nação. Somos portugueses, entre outros factores, porque falamos a Língua Portuguesa! Somos desta terra, deste mar, deste céu, desta História milenar… e desta nossa língua somos tecidos, bordados, moldados! Outra roupagem não queremos, para os canais do nosso diálogo e entendimento.
Uma língua que é também uma mobilidade permanente, língua da diáspora dos portugueses pelo mundo. Uma língua que, começando local, se tornou global, planetária, universal. Hoje estendida gloriosamente pelos cinco continentes, onde há portugueses e falantes da língua portuguesa.
Bendita a Língua Portuguesa, que é caravela à solta pelo mar sem fim e que leva a alma lusíada pelo universo além. Que é como quem diz, para dentro da nossa alma eterna!

2. Da consagração para a indignação. E esta tem a ver com o escândalo do Novo Banco e dos prémios para os seus administradores, quando os prejuízos da instituição são colossais. Uma recompensa pelos prejuízos originados, porventura para mais facilmente acederem aos fundos públicos, que mais não são do que o dinheiro dos contribuintes.
Aliás, o Novo Banco é um escândalo desde o início da sua resolução, desde que Passos Coelho resolveu prendar os vindouros com a pesada fatura de imensos milhões. Ainda não se conseguiu perceber (eu, pelo menos, não o logrei, mas o defeito deve ser meu) porque é que o Banco Espírito Santo não foi à falência, pura e simplesmente, como vão as fábricas, por maiores que sejam. No estrangeiro, os bancos podem falir; em Portugal é proibido. Por estes dias, voltaram com a lengalenga demagógica do prejuízo sistémico, de que a falência do BES seria muito mais onerosa do que a sua resolução. Só que não há números na mesa; há, quando muito, falácias e ausência de verdade.
Para tornar o panorama mais indigno, o Novo Banco decidiu atribuir um prémio de quase 1,9 milhões de euros aos membros do conselho de administração em relação ao exercício de 2020. Se o banco tivesse tido lucros, nada a objectar, como nada seria de contestar se em causa não estivessem sucessivas injecções de dinheiros dos contribuintes. Só que em 2020 o Novo Banco registou prejuízos de 1329 milhões de euros. E suas excelências, em face do “buraco” que cavaram, arrogam-se a atribuição de quase 2 milhões de euros de recompensa. Se isto não é uma vergonha, não sei onde estará o limite do decoro.
Por isso, não surpreende que o próprio ministro das Finanças considere que "não é adequada a prática de atribuição de prémios de gestão do Novo Banco" e que o governador do Banco de Portugal afirme que o Fundo de Resolução e o supervisor "são contrários à determinação deste pagamento de prémios, num momento em que o Novo Banco devia pugnar pela preservação do seu capital" para apoiar a economia.
Desde que foi criado como banco de transição em 2014, o malfadado Novo Banco já absorveu mais de 11200 milhões de euros, dos quais 6030 milhões foram sacados aos contribuintes portugueses. Um esbulho despudorado para estipendiar os desmandos, as fraudes e as vigarices de banqueiros criminosos e de fundos abutres de um capitalismo abjecto. É por estas e por outras que a extrema-direita cresce em Portugal e que o país não sai da cepa torta da sua vil tristeza de aceitar passivamente que o Orçamento de Estado não vá para a educação, a saúde, a habitação, a justiça, a cultura, mas para compensar os agiotas e os usurários que destroem a capacidade de desenvolvimento e de progresso da nossa economia e da nossa sociedade.

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