Correio do Minho

Braga,

'Dá-me um abraço!', por Ana Isabel Oliveira

Macron - Micron

Conta o Leitor

2012-07-20 às 06h00

Escritor

O jardim da cidade era o local habitual da minha passagem quotidiana…A correria das pessoas logo pelo amanhecer era constante. Enquanto caminhava na direção do meu “ganha-pão” reparava na corrente de ar que os corpos andantes faziam a passar uns pelos outros. Aquela brisa com cheiro a perfumes caraterísticos matinais era uma constante diária. A passagem fugaz pelo banco acastanhado tinha um odor a tristeza e solidão… Os rostos dos corpos eram indefinidos pois o stress da vida diária não dava tempo para observar quem passava. Mas, naquele dia de Primavera, tudo mudou!

Levantei-me cedo! O calor da cama não me deixava dormir aqueles dez minutos deliciosos antes de colocar o pé no chão para enfrentar um novo dia. Preparei-me e senti uma força energética interior tão forte… Senti que algo de inesperado iria acontecer!

A caminhada pelo jardim foi mais cedo. Sentei-me no banco mais central do jardim que tinha uma cor acastanhada esbatida pelo sol dos verões anteriores! Enquanto esperava que as horas passassem tirei do saco o meu pão com compota e fiz uma coisa que nunca tinha feito antes: observei enquanto me deliciava com o pão estaladiço comprado na pastelaria da cidade. Como era possível que nunca tivesse reparado na beleza que me rodeava diariamente? Os pássaros chilreavam no jardim tão verdejante que alguma vez vira… Os pais levavam os filhos ensonados pela mão para o colégio com um carinho encantador…

As pessoas andavam apressadas, numa correria sem fim para chegar ao trabalho a horas… De baixo daquele banco que “transbordava” tristeza tinha algo! Pareceu-me umas roupas ou talvez um cobertor com umas migalhas de pão ao de leve… Mas de quem seriam aqueles bens? Aproximou-se um senhor de cabelo branco com olhos ternurentos esverdeados repletos de água…

Senti que aquele cheiro me era familiar! Todos os dias sentia aquele perfume vindo da brisa dos corpos ao passar aquele ínfimo banco! Agora tinha percebido quem transportava aquele perfume! Era um Homem com uma face triste, asseado, de cabelo branco grisalho que dormia e vivia no banco da cidade!

Por momentos senti um medo avassalador quando se aproximou… Deveria querer dinheiro para comer ou sobreviver! Para viver num banco de jardim nada mais poderia querer… Ganhei coragem e perguntei:

- O que precisa? Quer dinheiro para comer?
Não acreditei na resposta imediata e ternurenta que obtive…
- Não menina, não quero e nem preciso de dinheiro! O que me faz falta é muito mais do que isso, muito mais importante… O que preciso é algo mais forte, poderoso, confortante, silenciador dos meus medos…Preciso de um abraço!

O encostar dos corpos foi imediato! Na timidez daquele abraço foi encontrado o silêncio e o abrigo de quem todos os dias me “passava pelo nariz”. Tantos anos passei naquele banco perdido com aquele cheiro característico e só agora, que parei para me deliciar com aquela sande, é que vi e senti que mesmo ao meu lado estava alguém que precisava de um simples abraço!

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